É Segredo
4 Capítulo 4 - Lembranças
Own.... onde estou? Já amanheceu? O que raios é isso no meu cabelo? Ai, meu Deus, está se mexendo! Ah, não, espera, é uma folha. Não, não é... parece mais um...
- Aaaah! Alguém tira isso de cima de mim! — eu abro os olhos e me levanto com rapidez, o que faz a minha cabea latejar.
Lentamente, me deito de novo e encaro o céu. É de manhã.
Mais devagar, mas quase sem conter a minha ansiedade, levanto meu tronco e olho em volta. Fico horrorizada quando percebo que ainda estou no beco. Será possível que eu passei a noite aqui?
Meu olhos se acustumam à claridade e consigo distinguir as outras formas perto de mim. Umas quinze pessoas também domiram aqui. Inclusive Tensy e Ashley.
- Tensy. Acorda. — cutuco o ombro dela. Ela está meio acordada desde o meu grito segundos atrás.
- Oi? — ela pergunta, ainda um pouco desligada.
- Abra os olhos. — ordeno.
Ela abre os olhos. Eles se arregalam depois que Tensy entende onde está.
- Nós dormimos aqui?
- Não. Dormimos na Índia e acordamos aqui. Estranho, não?
A cara dela se fecha.
- Não tem graça.
- Eu sei. Minha cabeça está doendo demais. Onde será que eu... Ah. — digo, quando percebo que dormi em cima de uma pedra. Nunca faça isso.
Coloco a minha mão na parte da minha cabeça que está latejando. É um pouco difícil, já que a minha cabeça toda lateja.
- O que aconteceu? — pergunto, não querendo realmente ouvir a resposta.
Tensy busca na mente dela os eventos da noite passada. Quando consegue juntar acontecimentos o suficiente para me dar uma resposta, ela dá um sorriso pervertido e me acerta com um soco no ombro de brincadeira.
- Sua safadinha. — ela diz, depois solta uma risadinha.
Consigo sentir minhas bochechas ganhando cor. O que ela viu? O que ela pode ter visto?
- Ele era um gato. — ela acrescenta, como se estivesse lendo a minha mente.
Confesso que me sinto um pouco melhor. Tensy sempre foi extremamente exigente em relação a garotos.
- Sério? — pergunto, e arrisco um sorriso.
Ela assente com entusiasmo.
- Sério. Qual o nome dele?
Eu congelo. Eu não SEI o nome dele.
- É... eu não sei. — respondo, morrendo de vergonha.
Tensy tem quase a mesma reação que eu.
- Não sabe? — ela levanta as sobrancelhas — Quer dizer, achei que você podia ter, tipo assim, perguntado o nome dele antes de enfiar a sua língua na garganta do garoto.
Certo, agora estou completamente corada.
- Mas diz aí — Tensy continua — O que você sabe dele?
Nada. Eu não sei nada daquele menino. Na verdade, mesmo que ele fosse um travesti, eu ainda teria beijado ele, porque eu não teria sequer percebido a diferença.
- Ah.. ele beija bem. — digo.
- Bom, isso deu pra perceber, pelo jeito como vocês estavam se agarrando.
- Foi por... muito tempo?
- Não me lembro. Eu vi o primeiro beijo, e depois outro. É, peraí, foram três só.
- Três? Que bom. — digo, aliviada.
- É, mas, cara, foram três beijos desentupidor-de-pia!
Desentupidor-de-pia?
- E depois?
- Menina, eu não sei. Você não está querendo que eu me lembre de tudo, não é? De qualquer forma, eu não fico olhando a vida amorosa dos outros. E os amigos dele queriam licença e silêncio pra filmar tudo e botar na internet depois.
- O QUÊ?
Tensy explode em uma gargalhada.
- Calma, é brincadeira. Ai, minha cabeça. Não posso nem rir.
Nós nos encaramos e depois rimos uma da outra. Estamos ridículas.
- Agora, sério, acho que depois ele te deu mais um beijinho e foi embora com os amigos. Você voltou pra cá e nós dormimos em seguida.
- Só?
- É.
- Então quer dizer que eu não peguei o telefone dele nem nada?
- Não que eu tenha visto.
Tenho que admitir que estou um pouco chateada e com raiva de mim mesma. Eu nunca mais vou ver aquele menino de novo. Olho em volta para confirmar se ele está aqui. Não está.
Tensy entende o que está acontecendo.
- Own... gostou dele? — ela pergunta numa voz falsamente doce.
- Claro que não. Eu falei com ele uma vez e... e... — gaguejo
- Você não sabe mentir.
- Tá, eu gostei. Mas não faz diferença.
- Sempre faz. E relaxa, um dia você encontra ele em outra festa ilegal igual a essa.
Outra festa ilegal? Outra? Essa garota ainda está sob o efeito do ácool ou o quê?
- Agora temos coisas maiores para nos preocupar. — Tensy diz.
- Tipo o quê?
A expressão que ela assume só pode ser discrita como incrédula.
- Está brincando? Dormimos fora de casa.
- Ah, isso.
- Vou falar que dormi na sua casa. — nós duas dizemos ao mesmo tempo, depois rimos.
- Você não vai falar nada. Não sabe mentir, lembra?
- Eu digo que estava com você. Não é mentira, é?
- Durante uma certa parte da noite, é mentira sim. — ela fala, sorrindo, e me dá uma piscadinha.
Eu reviro meus olhos para ela. Peguei essa mania agora.
- Vamos embora, sua louca.
- Vamos. — seu sorriso aumenta.
Ela para ao lado de Ashley, que está roncando e chuta de leve sua coxa descoberta. Ashley abre os olhos.
- Tchau, piranha. — Tensy diz, brincando — Já vamos.
- Tchau, garotas. Quem sabe não nos encontramos em outras festas?
- Com certeza. — Tensy responde.
Ashley olha para mim e seu rosto se ilumina. Por Deus, não.
- A noite foi boa ontem, hein? — ela me provoca.
Fico vermelha. Tensy me salva, rindo.
- Tchau, Ash. Até outro dia.
- Tchau.
Nós andamos juntas, de braços dados, mas meio cambaleando. Só quando estamos virando a primeira quadra me ocorre que talvez Ashley saiba quem era aquele garoto. Exponho essa ideia para Tensy.
- Não, ela não sabe. — minha amiga me informa — Também perguntei para ela, mas ela não sabe o nome dele.
Não sei se isso é bom ou ruim. Bom porque os amigos dele não são exatamente como essa tal de Ashley, que, por acaso, é uma maluca. Ruim porque eu não tenho nenhum tipo de contato com ele.
Tento me lembrar do que falei com ele ontem. Será que eu disse a ele o meu nome? Não, algo dentro de mim me diz que não. Os buracos negros na minha memória são preenchidos aos poucos e a cada retorno de cada maldita lembrança de nossa conversa, eu me desespero mais.
Eu realmente contei todos os meus segredos a alguém que mal conheço?
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