É Assim que Acaba
6 Capítulo 6
No nosso primeiro encontro, Jack me levou a um lugar chamado The Back Room – um bar temático da época da lei seca nos anos 20. Costumava ser o seu lugar favorito na cidade. Naquela noite nós rimos, bebemos e dançamos juntos. Foi a primeira vez que beijei um cara e senti uma conexão. Agora, quatro anos depois, não podia deixar de me perguntar onde estava aquela conexão entre nós que senti no segundo em que o beijei.
Quando foi que aquele fio que nos conectava se partiu?
E como foi que não percebi?
Pela primeira vez em muito tempo, me permiti sentir a dor, o medo, a perda. Por um instante parei de inventar desculpas e me permiti analisar com cuidado o comportamento de Jack nos últimos quatro anos.
O que diabos eu estava fazendo com a minha vida?
Não importava de que ângulo olhasse, a situação tinha chegado a um ponto insustentável. Não havia como continuar.
(...)
O plano original era passar alguns dias fora para deixar Jack se acostumar com a ideia da separação, mas era covarde demais para alertá-lo de que recolheria minhas coisas em casa nos próximos dias. Não havia nem mesmo comunicado que romperia o nosso relacionamento. A minha única decisão adulta nos últimos dias tinha sido enviar uma mensagem dizendo que passaria um tempo com a Emma e que ficaria bem, mas não deixei os motivos claros. Eu era mesmo uma cagona.
Quando retornei para o meu apartamento, pela primeira vez não me senti em casa. Não era meu lar. Aquele era o lugar que Jack e eu costumávamos dividir, mas não era minha casa. Se fosse, não sentiria um vazio tão grande no peito como agora.
— Vamos, Maya. – Emma tocou meu cotovelo com gentileza e indicou o interior com um movimento da cabeça. – Vamos recolher suas coisas.
Eu a guiei até o quarto para esvaziarmos as gavetas e os cabides. Enquanto Emma recolhia as roupas que pertenciam a mim, eu sentei na beirada da cama e me permiti lembrar do dia em que nos mudamos para lá com nada mais que um colchão velho e roupas de cama surradas.
Nós estávamos tão ansiosos para a primeira noite na nossa casa que esquecemos de todo o resto. Jack trouxe o colchão velho da sua antiga casa e nós dormimos no chão. Na manhã seguinte acordamos com dor nas costas e decidimos comprar uma cama nova e confortável. E, desde então, continuamos transformando a casa num lar. Até agora. Agora não seria mais meu lar.
— Você está triste. – Emma me ofereceu um olhar preocupado e pausou sua tarefa de recolher as roupas.
— Sim. – respondi.
— Sabe que é a coisa certa, não sabe? – Ela me encarou por um instante, depois largou o que estava fazendo e veio até onde eu estava. – Jack é ruim pra você, Maya.
— Eu o amo. – Era a verdade. Não importava que brigássemos o tempo todo, eu o amava. Muito.
— Certo. – Ela sentou ao meu lado na cama e encarou o teto por alguns segundos. – Eu já te contei sobre a minha família?
— Não. – respondi. Emma quase nunca falava sobre a sua família, apesar de ser bem tagarela.
— O meu pai morreu quando eu era bem nova, então não tenho muitas memórias dele. A minha mãe se casou de novo alguns anos depois com outro cara e eles tem dois filhos juntos, só que... – Ela suspirou bem alto e olhou para mim. – Bem, o meu padrasto é bem parecido com o Jack.
“No começo, adorava levar flores para a minha mãe. Os dois pareciam o casal perfeito. Edgar é educado, bonito e rico. Tem dinheiro o suficiente para sustentar a família e nunca se preocupa com a conta do jantar. Ele me chama de Emmy e sempre diz que está ansioso para que eu os visite. Os dois andam de mãos dadas na rua, se declaram um para o outro e parecem um eterno casal de namorados, apesar de estarem juntos há mais de quinze anos.”
— Ele parece um bom sujeito. – disse sem pensar, franzindo as sobrancelhas. – Por que está falando como se ele fosse alguém ruim?
— Porque ele é. – Ela respondeu e me encarou por longos instantes. – Alguns anos atrás, eu fui visitá-los para matar a saudade e encontrei os meus irmãos sozinhos em casa. Os dois tinham saído às pressas. Quando liguei para o Edgar e perguntei onde diabos minha mãe estava, ele disse que ela estava no hospital. Tinha caído da escada, pobrezinha. Tão desastrada.
— Jack não faria isso, Emma. – Falar sobre Jack e o seu temperamento ruim levava a minha mente para um lugar muito, muito escuro do qual eu não gostava nem um pouco. – Jack nunca encostaria em mim.
— Mas ele já fez, Maya. – Ela agarrou meu pulso e apertou com força, como ele já tinha feito algumas vezes. – Isso é agressão.
— Não, não é... – Recuei como se ela tivesse mesmo me batido.
— Não vou machucar você. – Ela ergueu as mãos espalmadas como se eu fosse um animal assustado e precisasse tomar cuidado comigo. – Não vou machucar você, Maya, mas o seu namorado já machucou.
— Foi só um mal-entendido, Emma. – Balancei a cabeça e engoli as lágrimas que queriam escapar dos meus olhos. – Ele não me machucaria.
— Está tudo bem, querida. – Ela abriu um sorriso tranquilizador para mim e indicou as caixas que ainda empacotaríamos. – Só pense nisso, ok?
Não estava tudo bem.
Não estava.
Reconhecer que Jack já tinha me agredido seria reconhecer que eu não tinha feito nada.
E, por Deus, isso doía.
— Maya? – Ouvi a voz grave e arrastada do meu namorado vindo do hall de entrada e senti um arrepio percorrer minha espinha.
— Posso cuidar disso, se quiser. – Emma disse baixo para que só eu ouvisse, mas balancei a cabeça.
— Eu me viro. – Ela concordou com um movimento da cabeça e voltou a guardar minhas roupas nas caixas, mantendo a sua opinião para si. – Estou aqui, Jack. – Fechei a porta atrás de mim e o esperei na sala de estar.
— Você voltou! – Ele me abraçou e enterrou o rosto no meu pescoço, inspirando profundamente. – Estava tão, tão, tão preocupado, querida.
— Eu vim para... – Um nó se formou em minha garganta quando percebi que teria que dizer a verdade. – Eu vim para recolher as minhas coisas, Jack.
— Recolher as suas coisas? – Ele me olhou sem entender e inclinou a cabeça de lado feito um passarinho, como sempre fazia quando estava confuso. Era fofo. Ainda era fofo.
— Estou indo embora, Jack. – Era tão, tão, tão doloroso dizer aquelas palavras em voz alta. Era mais fácil dentro da minha cabeça. – Eu estou te deixando.
— Maya? – As suas mãos alcançaram as minhas e ele abriu um sorriso nervoso, sem saber como reagir. – Está brincando, certo?
— Não. – respondi com o máximo de certeza que podia dar a nós dois.
— Eu te amo. – E então as lágrimas vieram. As malditas lágrimas que rolavam pelo seu rosto sempre que eu ameaçava querer deixá-lo, ou que mencionava estar descontente com o nosso relacionamento. As lágrimas que me convenciam a ficar e esperar que mudasse por mim. – Maya, por favor, eu te amo.
— Jack. – Segurei seu rosto em minhas mãos e pressionei meus lábios contra os seus com força, querendo marcá-lo. – Eu também amo você.
— Então por que está indo embora? – Os seus olhos brilhavam com lágrimas e o meu coração doía por causar dor a ele.
— Porque eu preciso me amar mais. – E então solucei, deixando que as lágrimas que se acumularam nos últimos dias viessem de uma vez só.
Não queria deixá-lo, não queria deixá-lo, não queria deixá-lo.
— Você me machucou de formas inimagináveis, Jack. – Era hora de deixar tudo aquilo ir embora. – Você me humilhou, me maltratou, me fez de capacho. Eu só queria ser amada, sabe? Eu só queria que você me amasse. Ao invés disso, você preferiu estar no controle e destruiu todas as coisas boas que construímos nesses anos. Você destruiu tudo. Não estou dizendo que eu te odeio. Não é isso. Não é verdade. Eu amo você. Eu sempre vou amar você, independente de quantas vezes você parta o meu coração e isso é errado, sabe? É errado. A gente não devia amar quem destrói a gente, mas eu amo. Eu amo você. E é exatamente por isso que agora eu preciso ir embora, Jack. Amar você está me destruindo, mas eu não me importo. E eu tenho que me importar.
— Maya. – As lágrimas eram verdadeiras dessa vez, sabia disso. Não eram um jeito de me fazer ficar, não eram um truque. As lágrimas eram reais. – Eu sinto muito. – E me abraçou apertado. – Eu sinto muito, muito mesmo.
— Eu sei, querido. – Acariciei seus cabelos e beijei o topo da sua cabeça. – Eu sei que sente.
Fale com o autor