Sábado.

Acordei cedo como de costume e fui em direção ao escritório à procura de Jack. Estava trabalhando em silêncio rodeado por papelada e parecia precisar de um descanso, então o deixei em paz. Ainda não tínhamos conversado sobre a minha visita à casa de Emma hoje à noite. Prometi a mim mesma que falaria sobre isso depois do café da manhã e fui à cozinha para preparar algo para comer. Depois de separar o remédio para gastrite, escolhi ovos e bacon na geladeira e me despus a cozinhar.

— O café da manhã está pronto! – Avisei depois de servir os dois pratos.

— Estou indo. – respondeu do escritório.

Nos sentamos à mesa, mas Jack ainda parecia ter a cabeça no trabalho. Não fez comentários sobre eu ter cozinhado seu prato favorito, nem elogiou minha comida como costumava fazer. Apenas comeu.

— Hoje à noite Emma e eu combinamos de nos encontrar na casa dela. – disse quando já estava quase terminando de comer.

— O quê? – Jack finalmente olhou para mim.

— Vamos pedir uma pizza e assistir a uns filmes, eu acho. – disse com os olhos fixos nos meus ovos pela metade.

— Quando vocês decidiram isso? – Jack arqueou uma sobrancelha e largou o garfo no prato.

— Quarta. – respondi.

— E não me disse nada?

— Certo, não era exatamente assim que eu imaginava essa conversa.

— E como foi que você pensou que seria, Maya? – Jack bufou.

— Não achei que seria um problema, Jack. – Nos encaramos por um instante e ele pareceu recuar.

— Tem razão. – Voltou a comer, mas deu para ver que não tinha mais gosto pela comida. – Acho que estou muito estressado com o trabalho.

— Tudo bem. – Alcancei a sua mão em cima da mesa e ofereci um sorriso tranquilizador.

— Só queria que tivesse avisado antes. – Olhou para mim – Tinha planos para nós dois.

— Ah, eu sinto muito. – Era mesmo minha culpa. Se eu tivesse avisado na quarta, não teria se programado.

— Tudo bem. – Ele sorriu para mim e beliscou minha bochecha como brincadeira. – Vamos terminar de comer, querida.

(...)

Durante a época da faculdade, Emma costumava morar no apartamento de Brooke no SoHo. Agora, depois do término, descobri que havia se mudado para um lugar mais confortável também em Brooklyn Heights. Seria uma boa desculpa para visitá-la mais vezes.

O seu prédio era uma construção de três andares que abrigava mais de uma dúzia de apartamentos. A pintura era clara do lado de fora e tinha caráter simples. O seu apartamento ficava no segundo andar. Toquei a campainha e esperei que atendesse a porta, o que não demorou muito.

— Maya! – Emma me cumprimentou com um abraço apertado.

— Oi, Ems. – Correspondi ao seu abraço. Era tão bom vê-la.

— Entra. – Ela deu espaço para que eu entrasse e depois fechou a porta. – Conseguiu achar o lugar fácil?

— Sim. – respondi. – É um prédio bem legal.

— Ainda bem. – E assoviou. – O aluguel custa um absurdo.

— Ah, eu sei bem. – Era o meu bairro também, afinal.

Deixei minhas coisas no sofá, entreguei o vinho e ocupei uma das banquetas da cozinha enquanto Emma nos servia duas taças.

— E então? – Ela me olhou de soslaio – Como está o Jack?

— Bem. – respondi com uma sobrancelha arqueada. Normalmente seu interesse no meu namorado vinha acompanhado por sarcasmo e escárnio.

— Estou só me interessando pela vida da minha melhor amiga. – Piscou os olhos para fingir ingenuidade, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que era tudo, menos ingênua.

— O que você quer saber? – perguntei com um suspiro alto.

— Ainda continuam brigando sempre? – Agora o seu olhar se tornara preocupado e atencioso. Era minha melhor amiga, afinal.

— Às vezes. – respondi.

— Maya... – Ela alcançou minha mão sobre o balcão e apertou num gesto de encorajamento.

— Ele parece procurar qualquer motivo para brigar. – resmunguei. Era bom poder falar sobre Jack com alguém. – Qualquer motivo, Ems. – frisei – Nós discutimos o tempo todo. E, na maior parte das vezes, são motivos idiotas.

— Tipo o quê? – Ela apoiou os cotovelos no balcão e bebeu um pouco de vinho.

— Tipo, algumas semanas atrás nós brigamos por causa da temperatura do chuveiro. – Apoiei o rosto nas mãos enquanto me lembrava perfeitamente do episódio. – Jack gritou comigo porque o chuveiro estava quente demais, como se a nossa casa fosse a sua casa e eu não tivesse o direito de mudar a temperatura do maldito chuveiro. Ou o dia em que eu disse que deveríamos cozinhar algo, não pedir comida por telefone e ele me mandou morrer de fome, então.

— Maya...! – Emma apertou minha mão mais uma vez e me ofereceu um olhar de pena. – Isso é muito, muito ruim. Sabe disso, não sabe?

— Estou cansada de brigar. – E essa era a verdade dolorosa. Não importava o quê, eu só gostaria de não precisar brigar. – Jack é tão egoísta. – lamuriei – Hoje de manhã eu disse que viria à sua casa e ele me fez sentir culpada por sair sem avisar com dias de antecedência.

— Não é sua culpa. – Ela me empurrou a taça de vinho e eu sequei em dois goles, empurrando de volta na sua direção. – Jack é um babaca. Você não tem que se sentir culpada por causa das coisas que aquele imbecil faz, Maya.

— Eu vivo pedindo desculpas. – Agora que tinha começado a falar as palavras pareciam sair numa torrente. – O tempo todo, Emma. O tempo todo. Estou sempre pedindo desculpas. Mesmo quando é ele que vacila, sou eu quem pede desculpas. Eu só quero que a gente não brigue mais, então eu peço desculpas.

“Não sei o que fazer. Não sei mesmo. Estou cansada de brigar, mas também estou cansada de me desculpar. Sei que a escolha óbvia é acabar com tudo isso, mas eu o amo. Sei que você não entende, mas eu realmente o amo. Nós estamos juntos há quatro anos e você não passa quatro anos com alguém se não o amar de verdade. E eu amo. E não quero que acabe, mas, no fundo, sinto que isso precisa acabar.”

— Maya... – Ela acariciou minhas mãos, como se tentasse me reconfortar. Não funcionou. Nada funciona. – Não sei o que dizer.

— Não diga nada. – Alcancei a taça de vinho e sequei em três goles. – Vamos beber, ok?

— Vamos beber. – Ela concordou com um movimento da cabeça e fez sua parte bebendo todo o vinho da sua taça. – O que acha de eu contar algo absurdamente pessoal que ninguém sabe para ficarmos em pé de igualdade?

— Acho muito justo. – Concordei enquanto preenchia nossas taças mais uma vez.

— Brooke me traiu. – A verdade é que precisei de um minuto para absorver a informação.

— O quê? – Quase engasguei com saliva na hora de falar.

— Chase não sabe. – Ela começou a passar o dedo na borda da taça e desviou os olhos dos meus para não precisar me encarar enquanto falava. – Ninguém sabe, na verdade.

— Você tem certeza disso? – Arqueei as sobrancelhas em completo choque.

— Foi ela que me disse. – Dava pra ver que era um assunto que a deixava bem desconfortável.

— Ah, eu sinto muito.

— Achei que ficaríamos juntas pra sempre, Maya. – Confessou com um suspiro doloroso. – Tinha planos para nós.

— Eu sei como é. – Foi a minha vez de apertar sua mão em cima do balcão. – É uma droga quando as pessoas nos decepcionam.

— É. – Ela me ofereceu um sorriso fraco e indicou o vinho com um movimento da cabeça. – Vamos beber.

— Você tirou as palavras da minha boca. – Devolvi o sorriso e bebi longos goles direto na garrafa.

Durante a época da faculdade, Emma e eu costumávamos passar as noites de sábado assistindo a Cake Boss e bebendo vinho barato. Agora, no seu apartamento, percebi que nada tinha mudado. Nos acomodamos no sofá e ela ligou a TV, revelando os episódios de Cake Boss já baixados e prontos.

— Se pudesse voltar à faculdade, voltaria? – Emma perguntou de repente.

— Começar uma nova graduação? – Franzi a testa em confusão.

— Não, Maya. – Ela pausou o episódio e se ajeitou no sofá, sentando de frente para mim. – Estou falando de voltar no tempo pra época da faculdade.

— Ah, talvez. – Dei de ombros. Não era um assunto que passava pela minha cabeça com frequência.

— Acha que faria as coisas diferentes?

— Tipo o quê?

— Tipo o Jack. – disse com um olhar curioso – Acha que se soubesse de tudo que sabe agora, teria ficado com ele? – Era uma pergunta difícil.

Quando Jack e eu nos conhecemos pensei que ele seria o homem com quem eu me casaria e passaria o resto da vida. Não pensei que um dia teria medo dele, ou que me preocuparia com a quantidade de álcool que ele bebe. Também não imaginei que fôssemos brigar por causa do tempero na comida, ou porque me atrasei dez minutos no horário que costumava chegar do trabalho.

Jack era perfeito.

Jack me visitava no campus da faculdade e trazia flores dia sim, dia não; Jack me beijava no rosto três vezes toda vez e sua boca sempre se curvava num sorriso quando dizia que me amava; Jack ria das minhas piadas e dizia que eu era a mulher mais engraçada que já conhecera, apesar de nós dois sabermos que era uma grande mentira; Jack cozinhava comidas esquisitas e me deixava apelidar os seus pratos com novos nomes; Jack inventava nomes para os nossos futuros filhos e falava sobre o futuro, sobre como seríamos bons juntos e sobre como seria bom para mim.

Eu amava Jack. Eu costumava amar Jack. E agora...

— Maya... – Não percebi que estava chorando até molhar sua camiseta com minhas lágrimas quando nos abraçamos.

— Eu não quero que acabe, Emma. – Solucei com o rosto enfiado em seu peito. – Eu definitivamente não quero que acabe.

— Ah, meu bem... – Ela suspirou com dó. – Mas já acabou.