É Assim que Acaba
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Quando acordei na manhã seguinte, estava com uma dor de cabeça dos infernos. O meu corpo parecia ter sido pisoteado por uma multidão enfurecida e a minha cabeça latejava. Tudo parecia acontecer em câmera lenta, também. Rolei para o lado na cama e encontrei o edredom arrumado como se ninguém estivesse estado ali naquela noite. A briga. Jack e eu brigamos na noite passada. O meu estômago resmungou por ter ingerido toda aquela tequila e eu soube que era hora de colocar tudo pra fora. A briga podia esperar.
Calcei os chinelos e me espreguicei na beirada da cama antes de levantar e arrastar o meu corpo cansado até o banheiro. A cena a seguir não foi nem um pouco bonita. Tive que segurar meu próprio cabelo enquanto enfiava os dedos na garganta. O vômito veio numa torrente quente e nojenta e olhar para aquilo dentro do vaso só me fez querer vomitar mais.
— Maya? – Ouvi a voz de Jack vindo provavelmente da sala. – Maya, você está bem? – E vinha em direção ao banheiro.
— Não. – resmunguei sem forças para mandá-lo embora.
— Ah, merda. – E apareceu na porta do banheiro num instante. Usava roupas limpas e não parecia ter acabado de acordar.
— Eu... – Comecei a falar, mas senti outra onda vindo e só tive tempo de enfiar a cabeça no vaso mais uma vez.
— Tudo bem. – Jack se ajoelhou ao meu lado no chão e segurou o meu cabelo para que eu pudesse me apoiar melhor no vaso. – Eu estou aqui, querida. Está tudo bem. – A sua mão livre veio para minha lombar de forma afetuosa e preocupada. Aquele era o Jack Bom.
Antes que pudesse falar qualquer outra coisa, outra onda de vômito veio e eu coloquei os meus restos para fora.
— Você está péssima. – Não era uma crítica, só uma observação. Estava preocupado. – O que foi que você tomou?
— Tequila. – Pude ver pela visão periférica a sua cabeça balançando para cima e para baixo.
— Por que não toma um banho enquanto eu preparo algo pra gente comer? – Acariciou as minhas costas e beijou o meu ombro. – Vou separar os seus remédios, ok?
— Okay. – respondi.
Minutos depois que Jack se foi, precisei rastejar até a banheira e jogar o meu corpo lá dentro. Liguei o chuveiro e deixei que a ducha derramasse a água gelada sobre minhas costas. O arrepio alcançou até mesmo meus ossos. Levei quase dez minutos para conseguir levantar e tirar as roupas, depois me esfregar com a bucha e lavar o cabelo. No fim, me senti renovada.
— Maya? – Jack chamou da porta aberta do banheiro. – Está pronta?
— Preciso de uma toalha. – Desliguei o chuveiro e ele me entregou uma toalha limpa para me secar.
— Sobre a nossa briga de ontem... – Jack começou a dizer coçando a cabeça. – Olha, eu sinto muito. Sei que tenho sido um babaca com você e eu juro que vou compensar isso, Maya. Você merece mais.
— Jack... – Eu me enrolei na toalha e saí da banheira, andando em sua direção. – Está tudo bem.
— Não, não está. – Balançou a cabeça e me ofereceu um olhar triste. Odiava vê-lo assim.
— Jack... – murmurei sem saber o que dizer.
— Não vai acontecer de novo, ok? – Girou o meu pulso esquerdo para as marcas que seus dedos deixaram ontem à noite e pareceu desolado. – Eu juro. Não vai acontecer de novo.
— Tudo bem. – Acariciei seu rosto mais uma vez e nos abraçamos apertado.
— Vamos. – Entrelaçou seus dedos aos meus e me puxou em direção ao quarto. – Por que não veste alguma coisa e me acompanha até lá fora?
A mesa lá fora no deque estava posta. Jack me entregou os comprimidos para o estômago e serviu nossos copos com café. Havia preparado panquecas para o café da manhã e me serviu primeiro, como sempre fazia.
— Como está se sentindo? – perguntou depois de se sentar.
— Uma merda. – respondi honestamente.
— Deve ter sido uma noite e tanto... – Por mais que estivéssemos num dia bom, conhecia muito bem suas artimanhas para me fazer falar. E detestava isso.
— Foi divertido. – Esperava que isso encerrasse o assunto, mas, como sempre, com Jack raramente funcionava.
— E quem estava lá?
— Emma. – respondi. O grande motivo que me levou a mentir foi que Jack raramente suportava a verdade.
Durante a época da faculdade, Chase e eu namoramos por alguns meses. O relacionamento durou o suficiente e acabou de forma mútua e amigável. Mas, desde que descobrira, Jack insistia que tinha sido algo grandioso.
— Ah, é mesmo? – Assenti e bebi um longo gole de café. – E quem te acompanhou no táxi?
— Um amigo da Emma. – respondi com tranquilidade, sustentando o seu olhar pesado. – Estávamos num grupo grande no bar.
— Ah. – Duvidava que acreditasse em mim, mas não iria insistir nisso com a briga mais recente ainda pairando sobre nossas cabeças. – Que bom que se divertiu.
— Foi legal. – disse enquanto me obrigava a comer uma panqueca.
— Da próxima vez, tente falar comigo antes de sair. – Balancei a cabeça para concordar e o assunto ficou por aí.
Depois que terminamos de tomar café, Jack recolheu os pratos e me ajudou com a louça suja. O clima entre nós ainda estava meio esquisito, mas era melhor do que antes.
— Estou indo para o trabalho. – disse depois de se trocar e ajeitar as suas coisas. – Se precisar de algo, é só me ligar.
— Certo. – Nos despedimos com um beijo no rosto.
Esperei até vê-lo na rua pela janela do apartamento para pegar o telefone e ligar para Emma.
— Alô? — A sua voz do outro lado da linha era sonolenta.
— Sou eu.
— Maya? — Pude ouvi-la bocejar.
— É.
— São oito da manhã. – resmungou e provavelmente se espreguiçou. – O que você quer?
— Por que vocês desapareceram ontem?
— Achei que você e Scott mereciam um pouco de privacidade. – Ela deu uma risadinha. – Você me ligou só pra isso?
— Também estava preocupada com a minha melhor amiga. – respondi com honestidade.
— Quando vamos nos encontrar de novo?
— Não sei. – Enrolei uma mecha do cabelo no dedo e comecei a avaliar as unhas descascadas. – Jack e eu nos acertamos hoje de manhã.
— E então é isso? — Riu com escárnio. – Você se acerta com o namorado e nós ficamos de lado de novo?
— Não foi isso que eu quis dizer. – respondi rápido.
— Foi sim. — Ela estalou a língua.
— Emma... – Apertei a ponte do nariz e respirei fundo. – Eu só estava dizendo que Jack e eu nos acertamos. Achei que minha melhor amiga iria querer saber disso.
— Sou mesmo sua melhor amiga? — pausa – Às vezes não tenho mais tanta certeza.
— Do que diabos você está falando? – Arqueei as sobrancelhas e apertei o telefone contra a orelha. – É óbvio que você é a minha melhor amiga.
— Você não sabe absolutamente nada sobre mim, Maya. Nem sobre Chase.
— Isso não é verdade. – Apertei os lábios e me encolhi no sofá. – Vocês são meus amigos.
— Não, não somos. Para você, somos os substitutos do Jack. Só servimos quando ele não serve. – Ela fez uma pausa longa e suspirou. – Estou cansada e de ressaca, ok? Acho que podemos concordar que essa conversa não vai dar em lugar algum.
— Você é minha amiga. – repeti como uma idiota. – Vocês dois.
— Então seja nossa amiga também, Maya. Pelo menos uma vez, seja minha amiga. – pausa longa – Por que não aparece aqui no sábado sem o bundão do seu namorado?
— Emma... – censurei, mas, como sempre, ela não se abalou.
— Nós podemos pedir uma pizza e assistir a uns filmes. Vai ser divertido. – Imaginei que aquele fosse um grande esforço pela nossa amizade e concordei.
— Tudo bem. – respondi depois de uma dolorosa espera. – Eu levo o vinho.
— Tenho que desligar, Maya. A minha cabeça está para explodir.
— Até sábado, então.
— Até. — E desligou.
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