Notas iniciais
Espero que gostem :3

“Presenciei algo que não recomendo para ninguém. Vi algo que não queria ter visto: a pessoa que eu mais admirava desistindo de tudo, largando tudo. Tudo começou quando minha irmã mais nova nasceu, mas vou adiantar para uma manhã quando eu tinha doze anos.

“Eu acordei com o barulho da minha mãe gritando, o que me assustou, já que eu nunca tinha acordado assim. O lado bom – e surpreendente – é que ela não estava gritando comigo, e sim com Patricia, minha irmã de catorze anos. Pelo jeito, ela já havia desembrulhado a caixa de bombons. Fiquei perguntando-me que caixa.”

– Que caixa? — perguntou Fernando, interrompendo Jullie.

– Eu vou falar – ela respondeu revirando os olhos – Não me façam perguntas sobre o que vai acontecer, por favor.

– Okay, Jullie – disse Camila – Mas que caixa?

– Só me interrompam quando tiverem dúvidas sobre algo que já li.

– Mas por que você não pode falar? — falou Fernando.

– Só cale a boca e escute, por favor.

“Foi aí que me dei conta de que era Páscoa.”

– Agora tá explicado! — exclamou Fernando e Camila concordou com a cabeça.

– Você não esclarece as coisas – ela disse.

– Se vocês me deixassem ler... — falou Jullie.

“Suspirei e olhei para o lado. Na cama ao lado estava a bagunça que Lilian havia provavelmente deixado. Mas eu não desconfio da minha irmã mais nova, eu tenho certeza. E lá, bem embaixo da cama, havia um papel metálico, daqueles de embrulhar... bombons.

“Claro, pensei. Mais uma vez, minha mãe está dando uma bronca desnecessária. Isso ocorre o tempo todo. Quando eu ou a Pati fazemos uma besteira ou Lilian finge que foi uma de nós, meus pais brigam com a gente demais. Uma vez, gritaram tanto que um vizinho quase chamou a polícia. Mas, quando é a Lilian, foi sem querer, ela é pequena demais, coisas assim. Quando eu tinha dez anos, meus pais brigavam comigo quase tanto quanto brigam agora. Só brigam mais porque eu sou revoltada.

“Além do mais, Lilian é a princesa da família, paparicada, todo mundo a ama. Faço balé desde os cinco anos, aos sete fiz uma apresentação na escola e apenas meu pai e Pati apareceram. Lilian começou aos sete e até hoje não sabe fazer um demi-plié e todo mundo aplaude quando ela faz uma posição inventada. Sou boa em balé, mas, sinceramente, desisti.”

– O que é demi-plié? — perguntou Fernando.

– Aquela posição do balé em que você tem que ficar com os dois pés no chão e flexiona os joelhos para dar impulso para um salto, geralmente – explicou Camila.

“Mas eu tinha mesmo pena da Pati. Acho que tenho até hoje.”

– Por que, Jullie? — interrompeu Fernando novamente.

– Apenas escute!

“Meus pais veem que faço muitas besteiras, então dizem que é TDAH (mentira). Mas Pati não faz muita coisa ruim na escola então não tem explicação. É apenas com meus pais e eles brigam ainda mais com ela.

“Bem, eu me levantei da cama soltando o cabelo. Era rotina já. Na sala, meu pai e Lilian estavam no sofá vendo desenho cujas personagens tem irritantes vozes esganiçadas. Fui correndo para a cozinha, onde Patricia estava de braços cruzados encostada na parede e minha mãe preparava o almoço, resmungando com ela.

– Você sabe que eu não gosto que abra o presente antes da hora.

– Mas não fui eu, juro!

– E quem foi? Jéssica? Sei que ela ama chocolate – eu amo mesmo – mas não faria isso.

– Também acho que eu não faria isso – falei, pegando um copo e leite.

– Jess! — disse Pati, batendo o pé.

– O quê? — respondi, pegando o achocolatado em cima da geladeira – Eu não disse que foi você, só que não fui eu. Até porque não quero ficar de castigo novamente por algo que a Lilian fez.

– Lá vem você colocar a culpa na sua irmã de novo! — gritou minha mãe – Não cansa de fazer isso?

– Fazer isso é como dormir – e abri a porta da geladeira, procurando o presunto. Pati reprimiu um riso – Só faço quando é necessário... e de verdade. Eu a vi abrindo a caixa.

– E você tem provas?

– Teria, se meu celular não estivesse confiscado. Ah, eu vi papel de bombom perto da cama dela.

“Minha mãe suspirou e me seguiu até o quarto. E, adivinhe? Lá estava Lilian, mexendo nas suas coisas inocentemente.

– Sim, Jéssica, papel de bombom. O chão está limpo! Da próxima vez...

“Resmunguei, peguei meu café-da-manhã e me sentei no chão da sala. Quando peguei meu celular, Pati se sentou ao meu lado e sussurrou:

– Essa casa precisa de câmeras.

“Sorri e enfiei os fones de ouvido nas orelhas, entrando no mundo da música e me esquecendo de tudo aquilo que me mantivesse ancorada ao mundo mortal.”

– O mundo da música é um mundo imortal? — perguntou Camila.

– Na minha opinião, é – respondeu Jullie.

– Mas a sua opinião não importa e sim a da personagem – falou Fernando.

– E se eu te disser que essa regra não existe? — disse Jullie.

– Eu... não sei. Camila?

– Pode continuar.

“Horas depois, tomei um banho demorado. Afinal, não é o tempo todo que sou a primeira. Fui para o meu quarto e coloquei meu vestido roxo. Penteei meu cabelo, deixando os fios pretos soltos, mas passando a mecha azul na frente da testa e prendendo a ponta atrás da orelha.”

– Mecha azul? — questionou Fernando.

– Algum problema com mechas azuis? — perguntou Jullie.

– Ahn, não. É só que...

– Continue, Jullie – falou Camila.

“Então me joguei na cama com os fones e o meu celular. Tempos depois, Lilian apareceu, gritando:

– Saia do meu quarto!

– Desculpe-me decepcioná-la, mas esse quarto também é meu.

“Ela respirou fundo e olhou para o lado.

– Mãe! A Jéssica não quer me deixar trocar de roupa!

– Jéssica?! – gritou minha mãe da cozinha.

– Você não sabe ser educada? — perguntei, saindo. Quando passei pela minha irmã, empurrei sua cintura com o cotovelo.

– Jéssica! — ela exclamou.

– Nossa, eu realmente tenho fãs. Todo mundo nessa casa grita o meu nome.

“Ouvi uma risada, provavelmente vinda de Pati.

“Me sentei no sofá, liguei a televisão e fiquei assistindo séries até que os primeiros parentes chegaram e eu precisei fazer-lhes companhia no quintal até que minha mãe terminasse de se arrumar.

“Assim que o almoço terminou, minha mãe abriu um grande sorriso e entrou em casa. Então voltou com três pacotinhos na mão. Achei que fosse chocolate, mas eu estava enganada.

“Minha mãe falou o nome, mas eu esqueci um segundo depois. Então as batizei de sementes de árvores de flores amarelas.

“Eram para mim, Pati e Lilian. Minha mãe queria que plantássemos naquele momento, com muitos parentes como plateia. E percebi que a última coisa que Pati queria era uma plateia.

“Acho que, na verdade, só eu reconhecia minha irmã. Na escola, ela quase não tinha amigos nem colegas e, sempre que ficava magoada, enfiava a cara nos livros. Apenas uma vez na sua vida curta ela teve um namorado e ele a traía. Mesmo sendo dois anos mais nova do que ela, éramos do mesmo ano porém de turmas diferentes. Nunca entendi porque a chamavam de nerd.

“Nós duas somos um pouco diferentes. Tinha apenas uma amiga e eu tinha quatro. Ela escrevia muito bem e eu dançava. Seu único consolo eram os livros, enquanto o meu eram a música e o chocolate.

“Já Lilian era ainda mais diferente de nós duas: tinha uns dez amigos e seu maior talento era ver televisão. E, se ela precisasse de consolo, nossos pais lhe dariam dinheiro. Mas acho que até hoje ela não precisou de consolo.

“E plantamos as sementes, uma de cada vez. Primeiro foi Lilian. Todo mundo a aplaudiu e a abraçou. Eu até vi um tio filmando. Como se uma criança de dez anos precisasse de um vídeo no youtube dela plantando sementes.

“Plantei. Minha mãe abriu um pequeno sorriso e meu pai ergueu um polegar. Dei um sorriso de lado – adoro fazer isso – e fiquei quieta na minha.

“Então Pati plantou. Ela ficou em pé, esperando que alguém reagisse, mas ninguém fez nada. Todo mundo ficou em silêncio. Minha avó revirou os olhos como se dissesse 'Garota grande e boba'. Pati bufou ao vê-la fazer isso e se jogou no chão ao lado de onde sua semente fora plantada. Todo mundo voltou a fazer o que faziam antes.”

– Que maldade – falou Camila.

– Obrigada.

“Todos os dias nós regávamos as sementes. As árvores eram brotinhos, só tinha o caule e apenas umas duas folhas quando o ano acabou. Lilian passou direto, mas a série dela é muito fácil. Fiquei de recuperação e vi Pati chorar ao ver que estava reprovada. Me perguntei como, se eu sempre a via estudando ou lendo.

“Os dias passavam rápido para mim, mas eu notava que para Pati eles eram lentos. Isso não era bom.

“Foi pouco antes das férias de inverno. Na escola ia ter uma homenagem à estação e nós deveríamos participar de alguma maneira. Lilian fez uma apresentação de balé e foi péssima, mas a família toda aplaudiu de pé. Querendo fugir da minha irmã, escrevi um poema e o recitei, com muita vergonha; aplaudiram pouco (acho que nem prestaram atenção). Já Pati escreveu um livro e, confesso, estava perfeito. Mas ninguém, além de mim — e isso muitos anos depois, se deu ao trabalho de ler.

“As árvores crescem lentamente – isso é um fato. Mas elas já eram mais altas do que eu no Natal. Pati não pediu uma festa de quinze anos – ela fazia aniversário perto dessa data — pois não queria – no fundo queria sim – receber atenção. Lilian ganhou um vídeo-game muito legal e mal me deixou jogar. Ganhei um livro, talvez para que eu pudesse me apaixonar como Pati – o que não ocorreu. E ela? Um cartão. Nada a mais.

– Você já está grande, pode comprar o próprio presente – meu pai disse. Achei que não pudesse ter oficialmente um emprego com quinze anos.”

– Mais que horror, Jullie! — falou Fernando.

– Okay, okay.

– No Natal? — disse Camila – Quem faz esse tipo de coisa no Natal?

“Juro ter visto uma cicatriz em seu braço. E, a cada dia, ela estava mais profunda. Ás vezes se multiplicava.

“Ela tinha dezesseis anos. Foi em uma noite fria. A ouvi abrir a porta do seu quarto e ir até a cozinha. Me levantei para falar com ela, mas não consegui dizer nada. Me escondi dela. A vi pegar a lâmina afiada e demorei a perceber o que ela estava prestes a fazer. Vi a faca entrar em sua barriga e deixar um buraco cheio de sangue. Comecei a chorar e me aproximei dela.

– Patricia, você é maluca ou o quê? — questionei.

– Jéssica? Ouço sua voz. O que você viu?

– Acho que tudo.

– Não conte a ninguém.

– Não, não, eu vou contar. Espere, vou ligar para a ambulância.

– Não! Vai dormir. É apenas um sonho.

“Duvido.

“Voltei para a cama chorando. Por incrível que pareça, dormi rapidamente.

“No dia seguinte, meus pais estavam apavorados. Se perguntaram porque ela fez isso. São idiotas mesmo, eu sei. Viram as cicatrizes em seus braços e perceberam tudo. Minha irmã era depressiva. E acharam um pedaço de papel na mesa, escrito por ela. Um pequeno poema, cujo nome era Árvores de Flores Amarelas, escrito por Pati.

“Acho que meu maior erro foi ter fingido que não tinha notado. Foi não ter tentado consolar minha irmã. Foi não ter percebido que ela precisava de uma alma para confiar. Foi não ter sido nem ao menos uma boa irmã. Mas já era tarde demais.

"Mas o erro de Pati também foi ter tentado chamar a atenção, foi ter dado importância a isso. Talvez isso não teria acontecido.

"Talvez o erro tenha sido de todo mundo.

“Uma coisa eu posso garantir-lhes: mesmo com toda a raiva dentro de mim, fui a melhor irmã mais velha para Lilian, perdendo apenas para Patricia, que, na verdade, foi o meu exemplo.”

Notas finais
Mereço reviews, favoritações ou recomendações? Espero que sim :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.