Águas de Sentina

1 Capitulo I – A Incerteza do Triunfo


Notas iniciais
Enjoy!

“A sorte não está a favor dos tolos”

A caçadora de recompensas mais aclamada da região vislumbrava ao longe o seu maior triunfo. O Presságio da Morte, agora, contava apenas com cinzas e fagulhas voando por seu cadáver, mas ela lembrava de cada labareda fumegante da noite anterior. Os corpos, mutilados e cobertos por marcas, vagavam em partes pelas águas escuras, deixando um rastro negro de sangue antes de afundarem ou continuarem boiando por seu caminho indefinido. Correntes cobertas de ferrugem e lodo eram puxadas pela maré enquanto ainda pendiam presas na embarcação, como velhos prisioneiros suplicando pela liberdade.

O sonho de quase vinte anos estava bem ali, na frente de Sarah. O navio e a existência do homem que havia tirado tudo de sua vida eram nada mais que pó. A gratificação queimava em seu sangue, seus olhos lacrimejavam de vingança e sua pele ardia de triunfo. Mas seu coração palpitava com incerteza. Apesar de todo o espetáculo que ela calculara com tanta precisão durante muito tempo, conseguindo uma tripulação, dinheiro para arcar com o plano, toda a situação que fora necessária para chamar a atenção de Gangplank, ela não havia visto o corpo do pirata. E ela sabia muito bem que um homem só estava morto quando podia sentir o sangue quente em suas mãos. E o sangue dele não estava quente, e muito menos em suas mãos.

—Sarah. – Rafen chegou por trás dela. – Devemos partir.

A mulher o olhou severa e ao mesmo tempo com receio das palavras que ela não desejava ouvir. Certamente não gostava de sua terra natal, as lembranças da morte e da dor a assombravam eternamente, mas era difícil demais assumir que deveria partir por causa do navio dele. Concordou com a cabeça e voltou o olhar para a rota que o navio estava indo. A cada légua a água ficaria mais limpa e menos mal-cheirosa, sendo que, com sorte, chegariam em Noxus com alguns dias de viagem.

O plano seria chegar a terras Noxianas e conseguir o dinheiro e o tempo necessários para voltar com segurança até Águas de Sentina. Toda a explosão e os preparativos haviam custado a Miss Fortune uma quantia inimaginável de dinheiro, e nem mesmo a caçadora de recompensas conseguira a fortuna necessária para se estabelecer novamente. Havia não só os gastos pessoais, mas toda a manutenção do Syren e mais a tripulação.Procurava não pensar muito nisso, afinal controle de gastos nunca fora sua verdadeira vocação.

—Capitã!. – gritou um homem ao fundo. – Temos intrusos!

O rosto de Sarah começou a arder com a idéia de algum capanga de Gangplank ter tido a ousadia de invadir seu navio e testar todo o seu comando. Era muita estupidez tentar enfrentá-la sem pelo menos um grupo de dez pessoas. O mataria assim que enxergasse o rosto marcado pelas tatuagens típicas dos Anzóis Farpados com a espada mais enferrujada e imunda que tivesse a bordo, nunca teria o gosto das balas de suas preciosas pistolas.

Perto do amontoado de homens que tampavam sua visão, a mulher pôde realmente visualizar os donos de tal ousadia. Logo, seus comandos desaceleraram e ela começou a andar calmamente em direção aos dois homens ensopados em sua frente. O primeiro, grande e claramente machucado, tentava dialogar entre risos com um dos rapazes que o segurava com os braços para trás. O segundo, quase não tinha forças para manter a cabeça erguida, de modo que nem se esforçava para conter as cordas que estavam sendo entrelaçadas em suas mãos.

Claro que ela sabia quem eles eram, e dada a situação não a surpreendia. Ambos tinham sido parte essencial do plano de manter Gangplank fora do navio antes de explodi-lo pelos ares. Oferecer, não pessoalmente, serviços aos ladrões não foi difícil, um cego por dinheiro e outro, por vingança.

— Não temem a morte, rapazes? – a ironia cantava a voz da moça.

O rosto de Graves se direcionou totalmente para a voz feminina que ecoava em sua frente, tal como toda a sua atenção. A figura a sua frente realmente fazia juz a todos os comentários, além de ser uma das coisas mais bonitas que o ladrão já havia visto, tinha um cabelo ruivo que brilhava ardentemente pelas neblinas do lugar.

— A capitã poderia nos ser útil agora. – debochou o homem. – Além de não nos pagar, quase nos tornou comida de peixemônios.

A frase fez com que um dos marujos ao lado dessem, rapidamente, um soco bruto no rosto do homem amarrado.

— Ora, Graves. – o riso debochado preencheu novamente a embarcação. – Me senti misericordiosa por ter explodido o navio depois de vocês estarem nadando.

— Nós não estávamos “nadando”. – disse após cuspir o sangue causado pelo soco. – Ele nos jogou no mar amarrados a um canhão.

— Bom, então deveriam mesmo me agradecer por tê-lo matado. – jogou os cabelos ruivos para o lado.

O olhar agora sério de Graves fitou Miss Fortune fazendo com que a mesma se sentisse um pouco intimidada.

— Como tem tanta certeza que matou Gangplank?

As palavras do homem fizeram com que toda a raiva de Sarah voltasse pungente em suas veias. A idéia de que o grande inimigo estivesse vivo a dava vontade de queimar não só todas as embarcações existentes, mas cada centímetro de Águas de Sentina.

— Acho que o senhor não entendeu muito bem o que eu quis dizer sobre temerem a morte. – apontou o cano de suas duas armas para a testa dos homens em sua frente.

O cano gelado da pistola fez com que Graves engolisse seco por um momento, mas nem defronte a morte Twisted Fate conseguia se manter reerguido. Os olhos azuis de Miss Fortune se tornaram quase vermelhos de ódio e seus dedos ardiam no gatilho.

— Só precisamos de uma carona para fora do caos que você proporcionou. – disse sereno. – T.F não consegue nem ao menos ficar em pé.

A cor de Sarah calmamente começou a voltar ao normal e de forma lenta ele voltou o cano das duas armas para seu cinto.

Por um momento a mulher pensou que seria mais fácil jogar os dois corpos novamente ao mar e com alguma sorte ambos conseguiriam chegar ao porto antes de virarem comida de peixe. Mas então se deu conta de que estava diante dos maiores ladrões de Águas de Sentina, e quiçá de Valoran, para se dar ao luxo de achar que ambos não saqueariam todo seu compartimento antes mesmo de caírem nas águas.

— Como eu disse, ando sendo misericordiosa. – voltou-se novamente para trás. – Mas não esqueçam de que especialmente hoje vocês tiveram sorte.

Os olhos sob o chapéu, que até então estavam imperceptíveis, se voltaram fracos para a mulher ruiva que se afastava lentamente.

— Pois a sorte sempre me sorri, Capitã.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.