Águas Passadas
5 Síndrome De Titanic
Notas iniciais
~ Primeiro Andar, Recepção Da Past Waters ~
Reluzentes pisos de porcelana branca, balcões revestidos de marmorato, e um leve aroma de lavanda exalando no ar: essa era a agradável primeira impressão que Past Waters proporcionava para aqueles que ultrapassavam a porta giratória da recepção. Experiência essa que Freddie Benson conhecia muito bem, visto que aquela recepção era literalmente o lugar mais visitado de sua infância...
Como um filho que ansiosamente desejava acompanhar seu pai no trabalho, o engenheiro naval foi novamente ao seu encontro após receber uma ligação do mesmo. Entretanto, ao invés de navios e carros de brinquedo, dessa vez eram pastas de relatórios e a chave de de Jaguar XF que encontravam-se em suas mãos... O fato, era: embora a idade, vestimenta, aparência, ou até mesmo acessórios mudem, alguns hábitos sempre irão permanecer os mesmos, da forma como realmente deve ser...
— Obrigado, Rachel. Assim que receber novas informações, por favor me avise... — Respondeu Leonard Benson enquanto conversava com sua recepcionista, virando-se logo em seguida apenas encontrar seu filho olhando-o com uma expressão curiosa no rosto — Freddie! Que bom que chegou filho, a quanto tempo está aqui? — Exclamou o homem sorridente, dando alguns tapas não tão leves assim nas costas do rapaz
— Não muito tempo pai, na verdade eu acabei de chegar. Então, você me ligou dizendo que queria falar comigo...?
— Oh sim, claro! Venha comigo, vamos conversar melhor na minha sala...
E entrando no elevador subiram até o oitavo andar, onde dirigiram-se para uma bela e elegante sala que encontrava-se no final do corredor: poltrona giratória de carmurça, um televisor smart led de 42 polegadas em um rack suspenso, uma detalhadíssima e impressionate maquete do primeiro modelo de navio da Past Waters, o Classic Eight, e como se já não fosse criativo o bastante, havia uma mesa de centro transparente cujo seu interior era literalmente um aquário...
De fato, mesmo que fosse um empresário bem sucedido Leonard Benson não um aficionado por luxo ou por ostentar suas posses, porém isso não o impedia de aproveitar o seu lucro da forma mais singular possível. E se existiam duas coisas que não faltavam para os Benson's, definitivamente eram inteligência e criatividade...
— Vamos meu filho, sente-se! Até parece que é a primeira vez que vem ao meu escritório... Servido? — Indagou o homem de meia idade balançando uma garrafa de Red Label nas mãos
— Tentador pai, mas, eu passo. Ainda tenho que voltar pro porto dirigindo... E em minha defesa, o senhor sabe muito bem que eu sou ansioso e fico sempre inquieto quando alguém diz que quer falar comigo.
— Oh sim, eu sei muito bem disso. Ainda lembro de quando você tinha dez anos e eu prometi que levaria um helicóptero de controle remoto assim que chegasse do trabalho. Me atrasei umas duas horas por causa do trânsito, e quando chego em casa encontro um garotinho teimoso sentado no quintal no meio da chuva... Sua mãe quase surtou e colocou a casa toda em quarentena devido ao seu resfriado, sabia?
— Ah, não foi tão ruim assim... Quer dizer, tirando a parte onde a mamãe resolveu dedetizar a casa toda, até hoje odeio o cheiro de citronela — Respondeu o moreno tomando um lugar no sofá, enquanto esboçava uma breve careta ao trazer a tona essa pequena lembrança — Mas, valeu a pena: fiquei uma semana em casa, ganhava uma tigela de canja de galinha quentinha toda a noite, e ainda tinha um helicóptero novinho em folha pra brincar.
— Bem, então acho que posso te livrar dessa agonia, campeão. O que eu tenho pra te dizer, é sobre o futuro da Past Waters...
— Sobre o futuro da Past Waters? Ufa, que alívio! O senhor estava tão sério no telefone que achei que era sobre algo pior... Então, sobre que projeto futuro estamos falando? Algum projeto de um novo navio em mente?
— Não filho, acho que você não entendeu. Não estou me referindo a alguma estratégia de marketing ou a um projeto futuro. E sim, do futuro Diretor Executivo da Past Waters...
— O que? Eu, eu não entendo. Por que está falando disso agora?
— Sinceramente, nem eu mesmo sei. Mas, veja bem: eu já estou ficando velho. Posso ainda parecer um coroa bonitão mas, as aparências enganam, já estou quase chegando nos cinquenta! — Exclamou ele em meio a um pequeno riso — Quanto a você Freddie, você está no auge da sua carreira. E com o lançamento do Purple Ship, finalmente será reconhecido como o engenheiro genial e talentoso que realmente é... Então, diante dos fatos, acho que é hora de passar o chapéu de capitão e me tornar apenas mais um dos passageiros...
— Desculpe pai, mas isso não vai ser possível...
— Mas é claro que sim! Basta eu falar com um dos meus advogados e pedir para transferirem o controle da empre...
— Não! Não é isso... Acho que o senhor que entendeu errado dessa vez. Eu não posso aceitar esse cargo...
— E por que não? Você é meu herdeiro por direito!
— Sim, eu sou. E eu ficarei muito feliz e honrado o dia em que eu comandar essa empresa, mas apenas quando o senhor não puder ou não e estiver mais aqui... E, bem, exatamente nesse momento estou vendo meu pai extremamente satisfeito sentado em sua poltrona de camursa com uma garrafa de Red Label não mão. E sabe o que isso significa? Significa que a hora não chegou ainda...
— Sabe, sempre foi meu sonho ver você um dia comandando essa empresa...
— E sempre foi meu sonho trabalhar como meu pai, desde que eu era penas um pirralho roubando alguma folhas da sua pasta de relatório pra fazer barquinhos de papel. Mas, não se preocupe pai. Um dia eu vou assumir a Past Waters, e farei de tudo para que esse nome seja lembrado pela próximas gerações. Porém, tudo o que a Past Waters precisa agora é da direção de Leonard Benson...
— É isso aí, Marissa acaba de perder feio!
— Com certeza! É assim que se fa... Espera, o que?
— Sua mãe discutiu várias vezes comigo que você não se tornaria um homem bem sucedido assim que parou de usar cuecas anti-bactericidas. Bem, parece que ela estava errada... Não só se tornou um homem bem sucedido, como também um bom partido! Aquela jovem loira tem muita sorte de ter você. Qual é o nome mesmo daquela moça que você namorou? Era Samantha? Soube que ela voltou para Miami, essa notícia me alegrou muito...
— Si-sim pai, é Samantha. Mas... Mas nós não estamos mais juntos... — Respondeu o engenheiro atônito, sentindo-se subitamente nervoso com a pergunta inesperada
— Sim, eu sei. Mas eu ainda acho um desperdício duas pessoas que são tão perfeitas uma para a outra não estarem juntas.
— Como pode achar a Sam perfeita pra mim? Nós somos o oposto um do outro!
— Esse é o ponto, Freddie. Qual é a graça de namorar alguém igual a você? Se for assim, é melhor casar-se com um espelho! Você e aquela moça sempre serão opostos, meu filho: como a luz e a sombra, como o gelo e o fogo, como a água e o óleo. E é justamente isso, que os torna perfeito um para outro...
— Então foi por isso que escolheu a mamãe? Uma doida por limpeza, organização, e liquidação de sabonete e desinfetante?
— Sim, sim, e sim... Não vou negar que alguns dos hábitos de Marissa me irritam profundamente, as vezes tenho vontade de atirar aquele maldito esfregão pela janela! Mas eu amo a sua mãe pelo que ela é, e isso inclui todos esses e outros hábitos estranhos... Eu poderia muito bem ter escolhido uma mulher mais "normal", ou uma que não gastasse tanto com amaciante. Mas eu não queria uma mulher normal, eu queria sua mãe. Que de tanto ser diferente das outras, fez com que eu me apaixonasse pela loucura dela... Os Benson's sempre tiveram o histórico de escolher as mulheres mais loucas possíveis, Freddie. Então se é isso o que quer, não tenha medo de se entregar a loucura uma vez na vida, filho. Isso está no seu sangue, e algo me diz que você vai continuar a tradição da família...
Sem dizer uma única palavra, o rapaz apenas abria e fechava a boca esporadicamente, porém não encontrava palavras para realmente refutar os argumentos de seu pai. Afinal, não lembrava-se de uma única vez onde Leonard Benson não tivesse razão, e era exatamente isso que o fazia temer naquele momento...
— Bem, é... Agora eu tenho que ir até o porto, o pessoal da construtora já devem estar me esperando... — Exclamou ele por fim, levantando-se
— Tudo bem filho, vejo você mais tarde. — Respondeu o homem sorridente, dando um breve aceno em resposta
— Ah sim, é... Valeu pai. Sabe, pelos conselhos..
— Foi um prazer, campeão. Estarei aqui sempre que precisar.
— É, eu sei que sim...
Já no estacionamento, o herdeiro da Past Waters tentou concentrar-se no engarrafamento enorme que iria enfrentar. Embora a empresa não fosse tão longe assim do porto, o trânsito tornava sempre as coisas piores... Entretanto, por mais que tentasse manter-se cem por focado na estrada, o engenheiro sabia que não conseguiria tal feito. As palavras recentes de seu pai ainda estavam rodando em seu cabeça...
De fato, não era nenhuma novidade o que havia sido dito ali. O próprio Freddie Benson sempre havia considerado o relacionamento que teve, ainda tinha, ou sabe lá Deus o que é que ele e Samantha tem agora, como a maior loucura de sua vida. Porém, ninguém nunca havia chegado e lhe mostrado o outro lado da moeda. Talvez seu pai novamente tivesse a razão, a loucura as vezes pode ser algo bom.
~ Sunshine Plaza, 8ºC, Apartamento dos Shay's ~
Recostada no sofá com um PearBook em seu colo e um copo na mão direita, a Shay mais nova encontrava-se tão concentrada no que estava lendo que era praticamente impossível alguém perturbar a sua paz. Porém, jamais duvide da capacidade de Spencer Shay de conseguir a atenção de alguém. Principalmente, quando ele é seu irmão mais velho...
— Eaí mana, qual é a boa? — Exclamou ele surgindo de supetão detrás dela, fazendo a morena dar um pulo do sofá, quase derrubando seu refrigerante
— Spencer! Eu já disse pra nunca me assustar desse jeito! — Esbravejou ela em repreensão
— Desculpa, foi sem querer! Dessa vez... — Sussurrou a última parte
— Nah, tudo bem, eu já devia ter me acostumado. Apenas não...
— Ei, o que é isso? — E sem ouvir qualquer palavra que estava sendo dita, o CSI apenas pegou o copo da mão de sua irmã e tomou um generoso gole
— Faça isso outra vez... — A morena por fim terminou a sentença, embora não fosse necessário de qualquer maneira
— Esse refri é novo? Tem um gosto diferente, eu nunca havia tomado antes.
— Não exatamente... É uma mistura de Mocha Cola com Mountain Fizz.
— Achei que só bebesse refrigerante diet.
— É, geralmente, mas... Lembra do Drake Parker, último ano da faculdade?
— Franja, tocava guitarra, preguiçoso e mulherengo?
— Isso, ele mesmo! Bem, um dia eu vi ele misturando os dois no horário do intervalo, segundo ele é um costume dele e do irmão fazerem isso.
— Não sabia que ele tinha um irmão...
— Ele tem, mas é do tipo estranho, sabe?
— Estranho, tipo...?
— Do tipo que persegue a Oprah por onde quer que vá. Na verdade ele até a atropelou acidentalmente no dia que tentou conhece-la!
— Ha! Viu? Depois eu que sou estranho por ter "perseguido" o Harry Joyner quando ele veio em Miami...
— Aham, claro, até porque coletar amostras do asfalto pra descobrir por onde o carro Harry Joyner passou, encontrar a placa do seu veículo, rastreá-lo, e tentar pegar alguma amostra do seu DNA com a justificativa de que "o mundo precisa de mais cérebros geniais como o dele" é algo que eu faço toda a semana... Enfim... Então eu experimentei e acabei gostando, é bom variar as vezes.
— Eu também gostei, na verdade vou começar a fazer isso agora. Com certeza é muito melhor do que suco de Ostramate! — Exclamou o Shay mais velho finalmente devolvendo o copo, mas que para o desgosto da morena, estava praticamente vazio — Eu apenas não entendo uma coisa até hoje... Como alguém como o Drake foi parar na faculdade de jornalismo?
— Ah, a área dele era o núcleo de moda e entretenimento, então não havia muito o que estudar...
— Moda e entretenimento?!
— Você sabe: ganhar dinheiro viajando o mundo enquanto tira fotos de e com supermodelos... Apenas ainda não entendo como e por que tantas pessoas achavam que éramos irmãos, só se fosse em um universo paralelo...
— Oh sim, isso definitivamente explica muita coisa! — Exclamou o perito criminal pegando as chaves do carro e dirigindo-se até a porta
— Ei, ei, ei! Calminha aí. Agora é a minha vez de fazer um interrogatório! Então, vai aonde todo arrumado desse jeito? — Indagou a repórter com um sorriso divertido no rosto
— Eu vou apenas, é... Buscar o meu microscópio novo! Eu já havia encomendado a alguns meses, então já estava mais do que na hora de chegar...
— Claro, sei... Seu novo microscópio deve ser muito elegante a ponto de ter que ir busca-lo usando blazer em um sol de plenos trinta graus... Vai levar um buquê de rosas também, ou já mandou a floricultura entregar? — Exclamou a redatora novamente, divertindo-se profundamente com a situação
— Ha Ha Ha... Muito engraçado, mocinha. Acontece que as vezes um homem quer apenas vestir uma roupa elegante para buscar seu equipamento de trabalho, oras! — Respondeu ele na defensiva
— Spencer...
— Certo, tudo bem, você venceu! Eu estou indo ver a Sasha... Cara, como é difícil mentir pra você!
— Elementar meu caro Shay, elementar! Primeiramente, você é um péssimo mentiroso e sabe disso. Segundo, eu sabia! E terceiro, Sasha Striker? Aquela gamer que você conheceu na faculdade? Achei que estivesse saindo com Jenna!
— Sim, sim e sim! E, é, eu também achei, mas decidi esquece-la após descobrir que estava sendo traído...
— O que aconteceu?!
— Eu descobri que ela recomendava armações para outros! — Respondeu o Shay mais velho dramaticamente, fazendo a morena apenas revirar os olhos enquanto deixava escapar um pequeno riso — Mas, é sério, eu vou mesmo buscar o meu microscópio novo. A Sasha é a gerente da Smart Lens, então...
— Okay, então boa sorte no seu "encontro"... Espera, pra que precisa de outro microscópio? Você já tem dois, inclusive eu te vi trazendo um ontem a noite. Isso tudo é pra encontrar a Sasha? Por que se for você realmente precisa começar a pegar o número delas!
— Não, não é por isso! Na verdade eu consegui o número dela a semanas atrás... — Com uma pequena pausa, ele sorriu orgulhosamente ao lembrar-se desse fato — Mas, eu realmente preciso de um novo, o que eu tenho já está começando a ficar ultrapassado.
— E o que vai fazer com os outros dois?
— Na verdade, eu só tenho um agora...
— Mas, mas... O que aconteceu com o que eu vi você trazer ontem?
— Bem, isso meio que parecia bem mais inteligente e original na minha cabeça do que parece agora...
— Spencer, o que você fez?
— Eu... É...
— Spencer!
— Ta bom! Eu martelei aquele microscópio nos menores pedaços que era possível pra, sabe, ver como um microscópio ficaria sendo visto de outro...
— Ai Meu Deus, você não fez isso! — Esbravejou a Shay mais nova em meio a inevitáveis gargalhadas, quase derrubando seu próprio PearBook — Sabe o tamanho da loucura que é quebrar um microscópio daquele apenas pra comprar um idêntico depois? — Naquele momento, seus olhos já estavam lacrimejando e o estômago doendo de tanto rir
— Oh não, não se preocupe quanto isso, eu consegui aquela belezinha em um lixão científico por uma bela pechincha!
— Existe um lixão científico?!
— Você nem imagina o que se passa na cabeça daquelas pessoas...
— Okay, nisso eu acredito! — Respondeu ela após acalmar-se e cessar o riso — Você é inacreditável, sabia?
— Obrigado! Espera, isso foi um elogio? Ah, que seja, eu vou encarar como um... Enfim, se me permite eu tenho um microscópio para buscar, e uma gerente para conquistar! — Exclamou ele em um tom galante — Divirta-se com esses... Relatórios? É isso o que vai fazer o dia todo?
— Na verdade são algumas resenhas do últimos casos que há muito tempo estou procrastinando em fazer, mas, sim. Resolvi tirar o dia de folga e trazer esse material pra resolver em casa, então tediosamente vou fazer isso o dia todo... Além do mais, não consigo falar com a Sam desde ontem, e levando em conta o tempo que ela consegue dormir, é bem capaz que eu já tenha terminado tudo isso aqui antes dela acordar... Agora vai lá e joga todo o seu charme pra cima daquela garota!
— Aham, pode deixar que eu vou! — Bradou o cientista esbanjando euforia, enquanto ajeitava orgulhosamente seu blazer em frente ao espelho antes de sair — Me deseje sorte!
— Boa sorte!
— Valeu! — Respondeu ele em um grito, provavelmente já cruzando o corredor
[...]
Dito, e feito: algum tempo depois, provavelmente umas três horas após a saída do Spencer, a morena já havia acabado de escrever todas as resenhas que eram necessárias até o momento, um período de tempo incrivelmente curto para ela que cogitou a possibilidade de perder a maior parte do dia apenas fazendo aquilo... Mas isso não era tão surpreendente quanto o fato de ela estar certa sobre uma outra coisa: seu trabalho já havia acabado, e Sam Puckett ainda não havia sequer dado o ar de sua graça. Bem, pelo menos não até o exato momento...
Esgueirando-se preguiçosamente pela porta, uma loira levemente descabelada surgiu na sala de estar, aparentando estar terrivelmente cansada para quem estava levantando em um horário onde sua maior dúvida seria escolher entre almoçar ou tomar o café da tarde. Embora, optar pelos dois não seria um problema para ela...
— Bom dia, Carls... São duas horas de novo? — Indagou com uma voz sonolenta
— Oh não, é melhor que isso. Você está acordando em plenas quatro horas da tarde!
— Quatro horas?! Isso! — Para a surpresa da morena, um vibrar com as mãos foi a sua resposta
— "Isso!"?
— Sim! Finalmente estou voltando para a minha rotina ideal. Como eu trabalhava em turnos extensos no navio, acordar cedo era algo obrigatório. Então eu achei que quando voltasse pra casa iria ficar igual aquelas senhoras que costumam acordar antes de meia dia... — Embora pudesse parecer um exagero para qualquer outro ser humano, apenas esse simples pensamento fazia a loira literalmente estremecer
— Você sabe que eu acho isso perturbador e também um grande mal pra sua saúde, certo?
— Sim, e você sabe que eu não ligo para o que esse pessoal da saúde diz desde que disseram que bolo gordo é prejudicial para a saúde... Como foram capazes de dizer tal atrocidade de algo tão maravilho?! — Exclamou a sommelier em genuína revolta
— Enfim... — Respondeu a Shay mais nova apenas balançando a cabeça negativamente, sabendo que tentar dialogar sobre isso com a amiga não iria adiantar muita coisa — Temos Donuts recheados caso queira tomar café, e almôndegas caso queria almoçar.
— Ou eu posso pegar os dois!
— Não sei por que, mas não estou nada surpresa com a sua decisão! — Exclamou a morena em um tom divertido — Sam?
— Hum?
— Aproveitando que está aí, pode trazer o rolo de macarrão pra mim?
— Hã, claro, Carls... Mas, pra que você quer isso? — Indagou já estendendo o braço com o objeto em mãos
— Ah, não é pra nada... Apenas pra quebrar ele na sua cabeça quando você chegar mais perto!
— Wow, wow, wow! Calminha aí, o que foi que eu fiz dessa vez?
— Ficou louca, Sam? Por acaso perdeu o juízo a ponto de começar a dirigir a noite e alcoolizada?!
— Ah, então é por isso?! Relaxa Carly, não foi nada demais...
— Não foi nada demais?! Tem mesmo certeza disso, Sam? Você sabe muito bem como é o trânsito de Miami, principalmente de noite! Com carros e caminhões passando pra lá e pra cá você poderia ter sido atropelada ou Deus me livre considerar a possibilidade de ter acontecido algo pior! — Esbravejou loucamente sem usar uma pausa sequer entre as palavras
— Okay, acho melhor tirar isso da sua mão agora — Respondeu a loira afastando o rolo de macarrão das mãos da repórter antes de ela cogitasse a possibilidade de cumprir sua promessa — Você realmente esperou até o outro dia apenas pra me dizer isso?
— Acredite, vontade não me faltou de sair te arrastando pelos cabelos ontem a noite, mas, eu me contive...
— Santo auto domínio! Mas, é sério, eu realmente não estava correndo risco algum, quando eu saí eu já tinha parado de beber fazia mais ou menos umas três horas. Além do mais com todos os doces que eu comi depois, o álcool deve até ter perdido o efeito, e você sabe muito bem que o açúcar tem esse poder! Falando nisso, onde encontrou aqueles maravilhosos brigadeiros trufados? Aquilo era simplesmente de outro mundo!
— Não importa, Sam! Embora o efeito passe, ainda ficam resquícios na sua corrente sanguínea que podem muito bem identificados em um teste de bafômetro... E esse a polícia tivesse te parado? Podia ter perdido a sua carteira de motorista, de novo! E, é... Foi na Schneider's Bakery, me lembre de encomendar um cento daquele mais tarde...
— Carly Shay, Carly Shay... Acha mesmo que a polícia conseguiria pegar a mamãe aqui? Você está falando da pessoa que jogou um cachorro quente na calça do embaixador do México!
— Sim, mas você também foi parar no reformatório, lembra disso?
— Como esquecer, tive que usar aquela droga de macacão laranja — Respondeu a consultora torcendo o rosto em uma careta — Mas eu estava livre um dia depois, assim como todas as outras várias vezes. Ou seja, eles podem até me pegar, mas ninguém consegue segurar Sam Puckett por muito tempo!
— Você não tem jeito, não é?
— Nah, deve ser um defeito de fábrica... E você sabe que não precisa se preocupar comigo o tempo todo, certo? Eu coleciono tantas fichas de reformatório que seriam o suficiente para trocar por uma cela premium! Na verdade, pensando por esse lado, até que não parece um ideia ruim...
Sam! — Exclamou a repórter rindo, dando um tapa no ombro da amiga — É, talvez eu não precise, mas eu quero e existem dois motivos pra isso... Primeiro, eu sou a sua melhor amiga "neurótica", então essa é praticamente a minha obrigação. E segundo, antes de ir pra aquele "Cruzeiro de Solteiros" sua mãe me fez prometer a ela que eu cuidaria de você no dia que decidisse voltar para Miami...
— Ela, ela fez isso? — Indagou a consultora gastronômica com os olhos arregalados
— É claro sim! Por que tanto espanto?
— Ah, você sabe... Não parece algo que a Pam, quer dizer, minha mãe faria...
— Sam, ela é sua mãe! A Pam pode ter um jeito bem estranho e as vezes bizarro de demonstrar, mas ela te ama e se preocupa com você...
— É, eu sei, é apenas uma coisa estranha pra mim. Eu sei que não sou mais exatamente a mesma pessoa que eu era na época do colégio, agora eu tenho eu tenho um emprego, ou melhor, dois! Mas ainda acho que não fiz coisas o suficiente para que ela pudesse se orgulhar de mim, e vice e versa...
— Isso não importa, Sam. Você pode ter sido alguém digamos, um pouco inconsequente e impulsiva no passado mas, o que importa é daqui pra frente. Pois embora você ainda odeie ter responsabilidades, e as vezes ainda quebre algumas regras, as que lhe dizem respeito você mais do que dá conta, e muito bem por sinal. O importante é que nunca é tarde para mudar algumas coisas, principalmente enquanto você ainda, enquanto você ainda tem uma mãe... — De forma repentina, a voz da morena falhou consideravelmente. Não de uma forma gritante, a ponto de que qualquer pessoa que estivesse ao redor pudesse perceber. Mas forte o suficiente para que não pudesse passar despercebido... A sommelier apenas engoliu a seco por um momento, pois embora soubesse o motivo do garfe de sua amiga, ao mesmo tempo odiava-se por não poder fazer nada a respeito.
— Carls?
— Hmm?
— A sua mãe também estaria orgulhosa de você...
— Você acha? — Perguntou ela com genuína curiosidade, esboçando os seus famosos "olhos de cachorrinho perdido", embora não fosse a sua intenção no momento
— Ora Shay, mas é claro que sim! Desde pequena você é um destaque, sempre tirando uma das notas mais altas da sala, frequência escolar praticamente perfeita, foi a escolhida para ser a oradora da sala no dia da sua formatura, e hoje é uma das melhores e mais dedicadas repórteres investigativas que Miami já viu! Além do mais você é uma ótima irmã, uma grande amiga, e um ser humano incrível. Sempre indo atrás da verdade, querendo a ajudar as pessoas, tentando transformar o mundo em um lugar melhor. Eu não vejo o mundo de uma forma tão bonita Carls, e nem acredito que todas devem merecer uma segunda chance. Mas você vê, sempre procura despertar o melhor de cada pessoa, e essa é uma das melhores coisas em você. Então sim, sem dúvidas, a senhora Shay iria sentir todo o orgulho do mundo da filha que tem...
— Nossa, parece que eu não sou a única do grupo que sabe fazer um belo discurso — Exclamou a morena deixando escapar uma risadinha
— É, eu tenho meus momentos — A resposta veio em tom divertido e ao mesmo tempo convencido
— Eu, eu apenas gostaria de ter poder ter conhecido ela um pouco melhor... Quer dizer, eu nem sequer me lembro dela, eu era uma recém nascida! Mas o Spencer já me falou algumas coisas sobre ela, e ela parecia ter sido alguém incrível...
— Sendo mãe de quem é? Eu tenho certeza disso... Mas se realmente quer mesmo conhece-la um pouco melhor, basta que olhe a si mesmo no espelho. Garanto que tudo o que deseja saber sobre ela, encontrará lá... — Concluiu oferecendo um sorriso sincero e compassivo, gerando uma troca mútua de orgulho entre elas. Orgulho por parte da loira que embora fosse inábil com as palavras na maioria das vezes, conseguiu oferecer um consolo para a morena. E orgulho por parte da Shay mais nova, que sabia o quão genuínas e espontâneas aquelas palavras havia sido — Mas, no meu caso, eu amo aquela louca mas acredito profundamente que funcionamos melhor se mantivermos uma certa distância. Só tenho penas daqueles pobres solteiros que serão perseguidos por ela em alto mar...
— Pois é, acho que Chicaco irá se lembrar dela por um looongo tempo... Enfim, então fique sabendo que não vai se livrar da minha chatice tão cedo. Na verdade não se livraria nem se quisesse, ouviu bem?
— Argh, tudo bem! — A sommelier apenas revirou os olhos, se jogando dramaticamente em um dos puffs espalhados pela sala
— Ótimo! — A redatora exclamou satisfeita — Mas ainda não me conformo com uma coisa...
— O que?
— Como o Freddie te deixou sair dirigindo, sendo que ele sabia que você havia bebido? Aliás, ele bebeu com você! Ele não pode começar a ficar irresponsável agora, é preciso dois nerds neuróticos para manter uma Sam Puckett na linha o máximo possível... — Nesse momento, a postura da loira automaticamente enrijeceu, como algo que estivesse além de sua vontade. Ela pensou milhares de vezes no que responder, e como responder, mas no final das contas o seu lado impulsivo sempre iria falar mais alto que a sensatez
— Não acho que ele tenha tido tempo para se importar com isso, o Benson estava ocupado com coisas mais importantes...
— Espera, como assim? Eu vi ele conversando com você a noite toda, mesmo depois de o Brad ter chegado...
— Sim, nós estávamos conversando, bebendo, e competindo quem iria ganhar a melhor de três. E como sempre eu ganhei, é claro! Tenho que admitir que foi uma noite bem divertida, mas depois ele ficou mais interessado em flertar com a Lois Lane genérica...
— Lois Lane genérica? Quem é essa?
— Eu não sei, é uma nova bartender que trabalha no Sun and Sea, cujo nome eu não lembro e nem faço questão...
— Sam?
— O que?
— Foi por isso que foi embora mais cedo?
— Por isso, o que? Seja mais clara Shay, preciso de detalhes.
— Por causa do Freddie, e dessa Bartender... Foi por isso que você foi embora?
— O-Oque? Claro que não Carly, isso é ridículo!
— Não, ridículo é você ter ido embora antes da festa acabar! Todos os seres que habitam esse universo sabem que não importa qual seja a festa, Sam Puckett sempre será a última a sair, principalmente quando a festa é sua! Por isso eu te pergunto Sam, o que diabos deu em você?
— Eu já disse que não é nada! Eu apenas tive que sair mais cedo pra pegar a chave da garagem com o síndico, se eu deixasse com ele mais um dia iria perder o direito da vaga...
— E não podia ter feito isso, sei lá, de manhã?
— Você faz algumas perguntas muito difíceis, sabia Carly Shay?
— É, força do hábito...
— Ei, ei, ei, mas não fica muito convencida não, eu não disse que não sabia o que responder...
— Oh, então me diga: por que preferiu sair da sua própria festa para pegar a chave com o síndico ao invés de fazer isso de manhã?
— Carls, você sabe muito bem que eu odeio acordar cedo, então por que não fazer isso de noite? É o que eu sempre digo: é mais fácil ficar acordada até as sete da manhã, do que acordar as sete da manhã...
— Boa saída Puckett, boa saída...
— É como você mesma diz, não é? "Samantha Joy Puckett, sempre tentando se dar bem em tudo"... E eu sempre respondo: " Se eu não tentar, que graça tem?"
— Tudo bem, tudo bem. Eu desisto, você venceu!
— Ha! É como dizem: Ninguém toca na rainha!
— Quem diz isso?
— A rainha! — Respondeu ela como se fosse óbvio
— Mas, não pense que pode me convencer tão fácil assim, Puckett. Você pode até dizer a tripulação que vai ficar tudo bem, mas não pense que não vejo quando o seu navio está prestes a afundar... Enfim, que tal um filme? Hoje é meu dia de folga, e uma folga nunca está completa se você não perder algumas horas em frente a TV quando não tem nada pra fazer. O que acha?
— Si-Sim parece ótimo, Carls!
— Excelente! Vou fazer a pipoca doce. Alguma sugestão?
— Nah, nada em mente... Espera, eu tenho sim!
— O que?
— Nada educativo!
— Não sei porque não estou surpresa... — Respondeu a morena revirando os olhos e dirigindo-se em direção a cozinha
Sabe aquele momento onde tudo está ruindo ao seu redor, mas você simplesmente se recusa a admitir que tudo está caindo as pedaços, pois o seu esforço e dedicação para construir o que está diante dos seus olhos não pode se dissolver desse jeito? Era exatamente desse mesma forma que Sam Puckett estava se sentindo, ao perceber que toda a barreira que havia sido construída em torno de seus sentimentos estava começando a ruir. E é nesse momento, onde uma velha conhecida resolve dar o ar da graça: a Síndrome de Titanic...
Uma barreira tão firme, sólida, prepada para aguentar qualquer tipo de tranco e ainda assim permanecer inabalável. Como pode então algo tão insignificante como o orgulho e o ciúme estar ameaçando colocar tudo a baixo? Não, aquilo era inadmissível! Não importa o tamanho do baque que a atingir, tal barreira precisa permanacer impenetrável, e é assim que deve ser...
Pois assim como os músicos que continuaram a tocar sua melodia catastrófica, mesmo quando o Titanic começou a afundar, da mesma forma aquela barreira continuaria em sua pose imponente, independente de qual ataque sofresse. Mesmo que aquilo violasse a sua integridade, mesmo que aquilo custasse a sua vida. E em nome de toda a teimosia do universo, estava óbvio que Samantha Puckett esta disposta a fazer isso...
[...]
Algumas horas mais tarde, pouco tempo depois de o sol ter descido ao poente, uma pequena e teimosa nuvem chuvosa instalou-se no céu, como quem não queria nada. Mas, como diz o ditado, nem sempre o tamanho quer dizer documento... Não demorou muito para densas gotas de chuva começassem a despencar do céu, acompanhadas de clarões que rasgavam o firmamento e trovoadas que assemelhavam-se a amedontradores rugidos. Sem dúvidas, aquela era mais uma das repentinas e típicas tempestades de verão...
E como já era de se esperar, o vento costumava criar algo que assemelhava-se a um assobio desafinado, ao passar entre brechas, buracos, e maçanetas, ou em qualquer outro lugar que fosse possível provocar um eco. Porém, o som que as moças escutariam a seguir seria muito diferente de um ruído provocado pela ventania... Repentinamente, um violento ranger de dobradiças ecoou no ar, relevando o Shay mais velho completamente encharcado e esbaforido, entretanto ainda cuidadoso o suficiente para com seu novo e sofisticado microscópio...
Após jogar seu guarda chuva em um balde que estava próximo, e deixar seu instrumento de trabalho na mesa de centro, o homem afoito dirigiu-se até a cozinha, onde as garotas estavam distraidamente preparando alguns sanduíches:
— Meninas! — Exclamou ele um pouco mais ofegante do que gostaria
— Spencer! Ainda bem que chegou, Carly e eu já estávamos começando a ficar preocupa... Meu Deus do céu, o que aconteceu com você? Parece que te usaram como isca em um pescaria! — Exclamou a loira um pouco surpresa com a visão, não demorando muito a começar a divagar sobre algum assunto corriqueiro
— E aí maninho! Como foi o encontro? Espero que dessa vez tenha dado tudo... Wow! O que aconteceu com você? As coisas deram tão errado assim a ponto de ela ter te jogado no mar? Eu disse que era melhor ter levado colete...
— O que? Não, não é isso! O encontro foi maravilhoso na verdade, ela é muito inteligente, divertida, e até saímos pra tomar um café depois que terminou o expediente dela. Sabiam que ela gosta de Lamahjoun?!
— Spencer, isso é ótimo!
— Sim! Mas isso não importa agora. O pneu do carro furou quando eu estava perto da orla, e como não havia tempo de trocar, eu tive de vir correndo pra cá...
— Por que? O que houve?
— Vocês já assistiram o jornal essa noite?
— Na verdade não, logo quando começou a relampear eu desliguei a televisão...
— Então liguem, agora, vocês precisam ver uma coisa!
— Tudo bem, tudo bem, eu já estou indo — Respondeu a morena correndo para pegar o controle remoto — Mas, o que é tão urgente?
— É a "Síndrome de Titanic", ela ataca novamente...
— O QUE?! — Exclamaram ambas as meninas em uníssono — E de quem é o navio de está afundando agora? — Pergunta essa que fora imediatamente respondida ao surgir na tela um letreiro urgente, acompanhada de uma filmagem simultânea que mostrava a situação do cruzeiro que estava afundando — Oh meu Deus, é um navio da Cruise Control...
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