“This is you, this is me, this is all we need

Is it true? My faith is shaken, but I still believe

This is you, this is me, this is all we need

So won't you stay a while?”



O olhar perdia-se no pequeno lago a refletí-lo. As ondulações discretas causadas pelo vento que derrubava algumas folhas, distorcendo assim sua imagem. O ar rompia por entre os lábios, havia cansaço, algo que ele não se permitia, não sempre, não na frente de terceiros.

— Tomioka-kun? — o olhar doce, porém ferido de Kochō chamou-lhe a atenção. A voz doce trazia toda a máscara às suas dores. Todos ali eram marcados pela dor de alguma forma.

Não respondeu verbalmente, apenas deixou de olhar o lado, para Kochō era toda a atenção que Tomioka podia doar à alguém, quem quer que fosse.

— Vai se despedir? — Ela sabia, ele sabia que ela sabia, e ela sabia que eles sabiam que ela sabia. Era complicado, silêncio era sempre a escolha acertada quando o assunto envolvia qualquer um dos pilares. Giyū levava sua vida em completo sigilo, pouco (quase nada) se sabia sobre ele.

Não era uma cobrança, tampouco uma pergunta que carecesse de resposta direta à ela. Shinobu havia apenas o alertado sobre a já esperada partida de Rengoku.

Restou à ela ficar ali, não que fosse necessário, apenas permaneceu no lugar dele, apreciando o reflexo ferido nas águas cristalinas. Reflexo este, ela sabia bem, ser o mesmo que Tomioka via: o cerne da dor.

Os passos de Giyū guiavam-no a um lugar já conhecido. Seguiria de olhos fechados, em meio à tempestades: de fogo ou água. Saberia como chegar ali, como chegar a ele.

— Tomioka. — a voz era sempre tão firme, os olhos tão penetrantes e o sorriso tão quente. Rengoku era o sol, era brasa forte em meio à noite fria. Passou a ser seu eixo.

Kyōjurō se aproximou, esperou apenas que Giyū fechasse a porta ao se colocar para dentro. Puxou-o do modo mais gentil que cabia, tocando sua nuca com as falanges flexionadas, trazendo os lábios a um encontro esperado, desejoso. Eram água e fogo, intensidade e calmaria.

O arfar fazia cócegas em sua tez, movendo seus cabelos, forçando-o a encarar a pele alva e os fios negros de Giyū, enquanto tão logo voltava a unir os lábios num beijo quase afoito, apressado, necessitado. Como chamas a queimar e trepidar. O toque dele, por sua vez, vinha como água mansa a tomar seu lugar de origem, arrepiava-lhe a pele quando subia os dedos por seus braços, quando lhe enlaçava a cintura num abraço sem muito tato. Quando lhe beijava o pescoço e lhe puxava as vestes. Cada ação vinha como maré, aos poucos tomando tudo para si.

Kyōjurō sorria em meio aos beijos, recebia um toque a mais urgência.

— Precisa se permitir mais, Giyū, precisa aproveitar os bons momentos. — Ditou tão simples, tão ele apesar de todo o fogo que parecia lhe arder em cada ação.

Rengoku sabia, conhecia a dor por trás do desinteresse do pilar da água. Conhecia sua trajetória, seus amores e desamores, seu passado, este que Giyū parecia tomar como destino certo. Evitava se permitir, quando o fazia, perdia.

Perdeu Sabito há tanto tempo, mas sentia ainda como se o perdesse mais a cada dia. Kyōjurō penou para atraí-lo, para cativá-lo, para tê-lo em sua cama, em sua casa, em sua vida. E ainda assim, sentia-o sempre distante, forçando limites que não cabiam, não quando levavam a vida de caçadores, não quando eram pilares, não quando nunca se sabe qual será a última vez que beijará alguém, que tocará essa pessoa, que se permitirá ser amado.

Kyōjurō pensava assim, ao menos. Se permitia uma vida repleta de aventuras e bons momentos. Era o que fazia agora ao enlaçar a cintura de Giyū, ao beijá-lo no pescoço enquanto o despia peça por peça, perdendo-as de vista num cômodo enquanto os pés levavam-nos a outro. Sobre a cama podiam aproveitar mais dos corpos alheios, do prazer do momento, do fogo enlouquecedor que provinha da mistura entre o intenso e o pacato. Os gemidos que compartilhavam era quase como o chiado do fogo ao encontro da água. O modo como as pernas envolviam as cinturas alheias, como os beijos desciam lascivos dos lábios ao queixo, do queixo aos mamilos… e lá a marcar o corpo onde alcançassem.

O prazer que parecia romper os poros, o suor que vinha como a marca de algo intenso. A mão de Rengoku na cintura de Giyū, as estocadas ainda ritmadas, seguindo o compasso do desejo. Os beijos nas costas, os gemidos extasiados enquanto Giyū se segurava à cabeceira, sentindo o corpo ir e vir conforme a vontade de Kyōjurō ao penetrá-lo. Sentiam o corpo num estágio novo de prazer, a respiração de concentração total nunca se mantinha em momentos assim, quando se permitiam muito mais. Quando chegavam à limites dos corpos ao aguentar tanto prazer de modo contínuo.

As mãos delimitavam o corpo, a canhota prendia-se no emaranhado de fios negros, puxando-os para si enquanto estocava mais fundo. Kyōjurō não se continha em momentos onde claramente ouvia romper dos lábios de Giyū um pedido por mais, um clamor. Inclinava-se para beijar-lhe as costas, a nuca, por fim os lábios num encontro afoito de línguas em completo desatino, em luxúria, em uma pitada de carinho. A mesma à qual Giyū nem sempre se permitia, quando o fazia, perdia.

Era este o temor, se entregar tanto apenas para ver mais um partir.

Quando despediu-se ainda ficou na cama de Rengoku, coberto pelos lençóis com o aroma do pilar do fogo, com as lembranças que ardiam na pele marcada por dentes e unhas. Tocou os lábios com a ponta dos dedos, fechou os olhos e teceu uma prece, coisa que há muito não fazia. Sentiu o vento entrar pela janela, viu a chama da vela aromática de apagar. Sentiu a lágrima solitária descer pelo rosto até chegar ao travesseiro, o mesmo ao qual se virou para abraçar, sentindo mais uma vez o aroma daquele que sentia que também iria perder.

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