Eram seis e alguma coisa de uma manhã de segunda feira. Em pleno verão, as nuvens do começo do dia deixavam tudo mais fresco, mas as ruas já estavam começando a ficar abafadas, cortadas apenas pelos restos da brisa noturna. Entre os carros lentos nas duas quadras antecedentes á escola, era difícil saber em qual deles estava Lex. Através das janelas fechadas, uniformes idênticos e caras sonolentas, todos eram apenas crianças entediadas desejando trocar uma hora a mais de sono pelas tediosas e maçantes aulas, típicas das primeiras semanas do ano letivo.

Mas, nos corredores, mesmo com tantas pessoas caminhando e conversando, você saberia achar Lex. O nome combinava com ele.

Todos notavam Lex, na verdade. Mais do que nunca, ele chamava atenção. Uma coisa acontecera no final de semana, algo que calava todos os grupos conhecidos por quem passava: seu cabelo longo se fora. Agora, restava um undercut, com mechas bagunçadas escorregando para seu rosto. Rosto esse que demonstrava confiança, bom humor, despreocupação. Só não mostrava a ansiedade dele por trás do sorriso bobo, não mostrava que ele contava os passos para não tropeçar e que mantinha o nariz empinado por medo de encarar os colegas. Ele sentia os olhares que o seguiam pelas costas, queimando sua nuca. Olhares de garotas horrorizadas e garotos incrédulos.

O corredor que levava da entrada até a escada tinha pouco mais de 15 metros, mas o caminho parecia ridiculamente longo. Autoconsciência pesava nos ombros do garoto. Quando finalmente chegou à frente da escadaria, uma mão tocou seu ombro.

— Alexa, cortou o cabelo meu amor! Adorava seu cabelo comprido, mas continua linda! Porque a mudança querida?? – era Diana, uma de suas professoras. A favorita, aliás.

— Pois é profª, eu precisava de um bom jeito de sair do armário pros meus pais... – ele disse, em voz baixa.

— Como assim? Você é menino agora? Desculpa amor, eu não sabia!

Lex, deu de ombros.

— Mais ou menos. Você já ouviu falar de gênero fluido?

— Ah, sim. Então, agora você é menino? Olha, se eu disser algo que te deixar incomoda.. – ela hesitou por uma fração de segundo – incomodado, me avisa okay? A profe te adora! Agora vai pra sua sala que depois eu passo lá.

— Obrigado profe – ele se sentia um pouco mais calmo. Diana sempre foi uma professora muito carinhosa, muito amiga, e ter um pouco de apoio de dentro da escola com certeza iria ajudar. Especialmente se o apoio fosse a esposa do coordenador.

Ao entrar na sala e sentar-se no seu lugar costumeiro, o rebuliço foi ainda maior do que havia sido nos corredores. Agora não eram só pessoas aleatórias, não eram conhecidos do corredor. Eram seus colegas, as pessoas com quem convivia a pouco mais de um ano. Eram seus melhores amigos, as pessoas com quem convivia a pouco mais de duas semanas. Quando ele entrou na sala, muitos não o reconheceram. Algumas pessoas encararam seu novo cabelo sem se dar ao trabalho de disfarçar. Dois garotos no fundo da sala riram e fizeram piadinhas entre si. O ambiente parecia travado no tempo, como se o silêncio e a expectativa deixassem a atmosfera densa como melado. Mas ele não parou. Tudo isso aconteceu em apenas alguns segundos, e ele continuou marchando até sua mesa, tentado segurar seus restos de coragem que lhe escorriam pelos dedos. Terceiro lugar, quarta fileira. Sentou-se. As mãos de Lex tremiam, ele estava a beira de uma crise de choro. A ansiedade o corroia por dentro.

Sua melhor amiga, Heloisa, sentada na mesa a sua frente, estava virada por cima da própria cadeira encarando ele, incrédula. Na mente dela tudo que se passava era "Meu deus, como ela teve coragem?". Seu longo e bem cuidado cabelo cacheado dizia muito sobre o choque.

Os amigos, sentados nas cadeiras a sua esquerda (uma diretamente do lado dele, e as duas na frente e atrás desta) estavam literalmente boquiabertos. O peso de todas as piadas infames sobre a ex-namorada que havia cortado o cabelo e "virado homem" de repente caíram sobre Nicolas. Mas para Lucas e Pedro, o sentimento era de confusão e curiosidade (embora, por parte do último, uma confusão mais bem humorada e interessada, que claramente estava adorando a idéia de ter uma melhor amiga que agora parecia... Amigo).

Foi Lex quem quebrou o silêncio.

— Bom dia! — disse, com um grande sorriso, trêmulo, mas sincero.

— Hã, bom dia. Olha Alexa, não sei se alguém te avisou, mas a idéia de ter melhores amigos é contar pra eles quando você faz grandes mudanças sabe. Tipo tirar o aparelho. — respondeu Lucas. O garoto não perdia a chance de fazer uma brincadeira.

Lex não conseguiu conter uma risada. De repente ele aparecia na escola como garoto, e Lucas se preocupava com o aparelho.

Ele sentiu a tensão se dissipando dentro do seu peito. Esse foi o motivo de ela ter simpatizado com o amigo desde o primeiro dia de aula, antes mesmo de terem a chance de se conhecerem propriamente. O humor dele era infalível, nem tosco demais, nem abusado demais. Apenas atrevido o bastante para contagiar as pessoas. Lucas era alegre, e Alex gostava de alegria.

— Pois é, eu tirei o aparelho na sexta passada, depois da aula.

Diminuída a tensão, Heloísa, Pedro e Nicolas, assim como Lucas, começaram a falar todos ao mesmo tempo.

"Por que você cortou??"

"Eu gostei do corte, mas foi meio do nada né"

"Tá, mas você é trans?"

"Me explica isso Alexa eu tô perdida"

"Quer que a gente te chame só de Lex?"

"Olha eu não tenho nada contra viu, aliás, eu super te apoio, eu não tenho nenhum preconceito, mas isso é meio estranho. Mas eu te apoio! Não tem nade de errado nisso!"

Alex começou a rir.

— Gente — ele disse para os amigos — Primeiro se acalmem. Pra que tudo isso? Eu só cortei o cabelo.

— Tá mas você é trans ou não? — interrompeu Pedro.

— Não — Alex revirou os olhos — Se isso explica alguma coisa, eu "estou" menino.

Heloísa o olhava com cara de ponto de interrogação.

— Como assim amiga? Você tá usando droga? Fala que nem gente.

— Sabe gênero fluido?

— Não — disseram ela, Nicolas e Pedro em uníssono.

— Acho que sim — pra variar, Lucas era o "informado" da conversa. Pedro olhava pra com cara de "você sabe do que ela tá falando???"

— Tá — Lex suspirou, certo de que ia ter que explicar aquila muitas vezes dali em diante — Basicamente, eu não tenho um gênero "fixo" tipo a maioria das pessoas, tipo vocês. Eu meio que... mudo, depende do dia sei lá.

— Então você pode ser garoto num dia e garota no outro? — perguntou Pedro

Ele fez que sim com a cabeça.

— Ou nenhum — emendou Lucas.

— Uhum. — ele concordou mais uma vez, e acrescentou: — Ou os dois.

— Tá, mas como a gente vai saber?? — Heloísa estava perdida no meio da conversa.

— Sei lá. Hoje tá meio na cara né? Tipo, camisa largona, cara lavada, calção de garoto… — explicou Alex.

— Então, no geral, pela roupa? — arriscou Nicolas.

— No geral, pela roupa. — Lex confirmou.

Os cinco ficaram se encarando por alguns segundos, sem saber o que dizer.

— Enfim, vocês fizeram a tarefa de literatura? — indagou Nicolas

— Na verdade, eu não lembro — Alex disse, rindo, enquanto se abaixava para pegar o caderno na mochila.

Antes que pudesse achar o caderno certo, duas pessoas pararam ao lado da sua mesa.

O garoto ergueu a cabeça para encontrar Joana e Pietra. As garotas eram suas colegas desde o ano anterior, quando ele começou a estudar na escola, mas nunca trocaram mais do que eventuais "Oi", "Que horas são?" e alguns sorrisos falsos (por parte das garotas). Lex nunca entendeu o motivo da antipatia.

— Você é lésbica? — perguntou Joana, sem rodeios. Ela não apenas evitava Alex, ela não o suportava. Mas jamais diria isso em voz alta, pois isso mancharia sua imagem como "boa colega".

— Não. — disse Alex, irritado. Algo que realmente o incomodava eram pessoas que o chamassem de lésbica, mesmo ele sendo bisexual. Elas não sabiam de sua bisexualidade, mas ainda assim ele se sentiu atacado.

— Então porque raspou o cabelo? Era alguma aposta? — pediu Pietra, com inocência fingida na voz, mas olhos vorazes como de um predador, pronta para arrancar do peito de Lex qualquer palavra com significado que lhe servisse, e expor para quem quisesse ver.

— Não era aposta. Eu só acho ele bonito assim. — encerrou, terminando de pegar os materiais e os organizando na mesa.

As garotas se sentiram irritadas por serem ignoradas, mas não disseram nada. Voltaram a se sentar em seus lugares, e logo começaram a dizer maldades sobre Lex junto com o resto do grupo de amigas, mas ele não notou.

Notas finais
Olá! Pra quem leu até aqui, eu agradeceria se pudessem dar sua opinião! Como está o enredo? Te deixou interessado? Compraria um livro que começasse assim? E a narração, ficou boa em terceira pessoa? Obrigada por ler!! ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.