Haviam luzes por todos os lados... as buzinas dos carros atormentavam meus ouvidos, meu corpo inquieto na cadeira, parecia que estava ali há umas duas horas, talvez há um dia. Quanto mais forçava-me a obter qualquer pista, mais os barulhos aumentavam e a sensação de medo também, aquilo me fazia suar frio.

–Antony, chega... – aquela voz docê, podia ouvi-la bem no fundo de todo aquele pesadelo. –Antony, se esforce, chega! – cada palavra que eu ouvia era um pouco mais alta e real, era como se alguém de outra dimensão não tão distante me chamasse. Enfim, voltei a realidade num último chamado!

Ofegava profundamente, um pouco assustado, e as minhas mãos bem apertadas nos braçõs da cadeira mais que confortável do consultório da Dra. Fanni, que demonstrava estar ansiosa e bem a minha frente, me observava.

– Conseguiu se lembrar de alguma coisa? – a pergunta era quase retórica, eu realmente me esforçava, e Fanni não era como qualquer outra profissional, que não se importava com resultados, eu não queria deixar claro que nada estava funcionando e que estar passando os últimos 6 meses da minha vida em sessões de psicologia não estava ajudando em nada.

–Sei lá... eu ouvia buzinas, não sei. Parecia que eu estava no meio da rua, e uns 500 carros passavam quase por cima de mim, e apontavam faróis em meu rosto, era uma sensação de pânico, eu queria sair do meio da rua, mas não conseguia.

– Você ainda tem medo de andar de carro?

Eu odiava esta parte da volta da imersão, ser bombardeado com todas as perguntas de Fanni me deixava um pouco mais estressado que o normal...

– Não que eu tenha medo. Bem, eu só não sei lidar com isso

– Parece que o acidente ainda te deixa desolado, e talvez isso nunca passe, você precisa achar em você, um ponto que te ajude a superar este medo que te afronta. A melhor maneira é enfrentar o medo na prática, não quero dizer que deva beber novamente, e pegar a estrada na madrugada, você só precisa tentar.

–Não acho isso. Sério Fanni. Não quero ser grosso com você, mas eu tenho todo um passado, e cara, eu não consigo me lembrar, parece que toda vez que eu venho aqui, mais um ponto de mistério se abre na minha vida, e a merda do passado é esquecida. Eu estou aqui apenas por isso. Eu quero me lembrar, quero sanar minhas dúvidas. Todo mundo sabe o que fez durante a infância, aonde esteve na adolescência, e eu não posso contar nada sobre isso. Eu tenho uma história, e parece que ela foi tirada de mim.

– Mas, talvez o carro seja um ponto de partida para isso.

– Certo. Supero meu medo do carro e minha memória vai voltar á mim? Não é assim.

– Acho que você está invertendo os papéis aqui. Eu sou a psicóloga.

– Correto. Você fez analogia ao que contei sobre as buzinas e os faróis, sobre estar na rua... – enquanto ia completando o que ia dizendo, Fanni anotava algo em um papel.

– A gente se encontra lá, sábado! – Ela ignorou tudo o que eu falei, e me entregou a anotação que dizia "Aula de Kart" e o endereço.

Acabava de confirmar a hipótese que ela queria ver um avanço em mim, e que se importava com o futuro do tratamento. Quem iria perder o sábado de descanso com um paciente sedento por seu passado? Ela gostava de mim.

Deixei o consultório fazendo todo o caminho de volta para casa me lembrando de tudo o que eu sabia sobre mim, e do meu passado. Eu, era Antony, neto de dona Carmem, mulher que cuidou de mim, e ainda cuida, ela era a única pessoa que eu tinha, não me lembro exatamente da aparência da minha mãe, nem de seu paradeiro com meu pai, só sei que os dois desapareceram juntos... como? Não me lembro. Infelizmente, o que eu sabia de mim era basicamente o que eu podia ler na minha certidão de nascimento. Depois do acidente que sofri há 1 ano atrás, perdi a memória, passei por uma série de cirurgias, e praticamente estou com uma chance de recomeçar. É como se eu tivesse recebido o livro da vida novamente, as páginas em branco, pronto para eu escrever qualquer e nova jornada que eu quiser, e é o que as pessoas me indicam, mas ninguém sabe o que é viver com um passado inexistente, não saber o que pensam de você, ou se já teve amigos... é realmente estranho passar por os lugares, ser cumprimentado e não saber de quem se trata. O caso se torna ainda mais complicado quando algum ignorante te intima na rua e você não pode reagir, eu nunca vou saber se estou no direito ou não, por que no livro novo que recebi não consta um resumo do que eu fiz de certo e de errado, o que me facilitaria muito a vida.

Todo mundo é autor do que planeja para si, todo mundo pode escrever sua própria vida, tornar ela certa ou errada, viver nos parâmetros ou contrariar tudo, mas e se eu não tive essa chance de decidir por mim? Ainda sou jovem, e na maioria das vezes devo ter tomado decisões influenciadas por um certo alguém, e pensar nisso me tortura ainda mais, hoje, um pouco mais experiente com a vida, e menos influenciável, eu sinto raiva em pensar em coisas desse tipo. Se o que eu buscava era certezas sobre o mundo e o quanto eu me relacionei com ele? Acho que nunca vou descobrir, agora, eu vou tentar escrever algo novo, e recomeçar, nunca é tarde para descobrir algo que aconteceu anteriormente, e talvez essa minha sede por coisas que eventualmente acontecera comigo não acabe nunca, sou curioso, e isto é algo meu comigo mesmo. Talvez Fanni fique contente em saber que ainda penso positivo sobre o meu futuro e automaticamente meu passado. Só irei descobrir o que aconteceu quando aceitar a minha nova fase.

Nesta altura, já estava jogado em meio a desordem de roupas limpas e sujas que tinha em cima de minha cama, pensando, de olhos fechados... me entreguei ao sono e ali embarquei! Acho que os sonhos também revelam muito sobre você mesmo.

Notas finais
Espero que gostem. Deixem comentários ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.