À flor da pele
2 Tyler
Notas iniciais
Diana
De volta a minha casa, encontro a chave no mesmo lugar que deixei. Entro e consulto o relógio, demorei 15 minutos a mais que o normal. Subo as escadas apressada, ainda com o convite em mãos, não quis abrir na praça para não parecer desesperada. Quer dizer, eu não sou. Então...
Acho meu celular do lado da cama, onde deixei de manhã, e vou pro banheiro. Digito uma mensagem para Tyler.
“Theodor me convidou para o aniversário dele...”
Envio e deixo o celular na pia, junto com o convite. Ligo o chuveiro então me dispo. Antes mesmo que eu entre no box, o celular toca e rio já sabendo quem é.
No visor do aparelho a foto e o nome de Tyler aparecem.
– Tô no banho, tô atrasa! — Digo assim que atendo.
– A senhora “programo até meus sonhos!”, está atrasada?
– Quinze minutos. Preciso tomar banho! Bye...
– Te pego em vinte.
Então ele desliga. A curiosidade sempre fala mais alto quando se trata de Tyler. Ele já nos colocou em situações bem embaraçosas por causa disso.
Entro no chuveiro apressada, lavando o cabelo primeiramente e então me ensaboando. Fico contando os segundos em minha mente. Passo os dedos pelos cabelos, para desembaraçá-los.
Quando desligo o chuveiro, já estico a mão e alcanço a toalha, me enxugo rapidamente e pulo a etapa do creme hidratante. Estou atrasada!
Ao abrir meu guarda-roupa, pego o cabide que deixei separado com as roupas de hoje. Fazer isso de noite poupa muito tempo. Visto a lingerie negra e a camisa azul e branca com mangas até o cotovelo, depois coloco minha saia preta, justa e de cintura alta. É como se eu vestisse outra personalidade, me sinto até mais séria agora. Vou para frente da penteadeira e escovo os cabelos, os jogando de lado e colocando uma pequena presilha de pedrinhas brilhantes em formato de borboleta. Ela é pequena, mas dá um certo charme. Passo máscara nos cílios e lápis nos olhos, borrifo perfume no decote e pulsos. Coloco um brinco pequeno, então pego os meus saltos bege e desço, mas volto, ao me lembrar do convite. O pego na pia do banheiro e então desço de vez. Quando alcanço o fim da escada, escuto uma buzina. Acho meu casaco e bolsa na sala e saio. Infelizmente tenho que pular o café da manhã se quiser chegar a tempo.
Do lado de fora, parado bem em frente a meu portão, está Tyler no seu conversível. Ele adora esse carro. Basicamente o ama mais que a qualquer pessoa de sua família. Ou amigos. Talvez mais que a si mesmo!
Entro apressada.
– Convite! — Ele vai logo ao assunto.
Meu amigo tem os cabelos negros empapados de algo que ele diz não ser gel, mas que tem o mesmo efeito. O topete que ele deixa é até charmoso e combina com os óculos escuros que gosta de usar. Dá um ar todo hollywoodiano a ele. E as roupas que escolhe então, pacote completo!
O casaco muito anos cinquenta está aberto, por cima de uma camisa branca. As mangas do casaco azul estão dobradas e por cima delas a da camisa branca. Um verdadeiro James Dean. Se eu não o conhecesse, provavelmente ficaria caidinha por ele. Mas eu o conheço, e muito bem!
Tiro o convite da bolsa, nem mesmo o abri ainda. Acabei me esquecendo ao constatar que estava atrasada.
– Ele me entregou durante a corrida. — Compartilho.
– Pessoalmente? — Tyler me olha e o carro sai momentaneamente fora de linha.
– Tyler!
Ele volta a prestar atenção na rua.
– Eu sabia que você ganharia um e deveria ter imaginado quando ele não me deixou te entregar.
Mas como ele sabia que eu estaria na praça? Nunca nos encontramos oficialmente em minhas corridas. Decido não dividir isso com meu amigo. Já não tenho certeza de ser a caçadora nesse caso. Não que eu estivesse... caçando algo...
Tyler e eu nos conhecemos na faculdade, tivemos um casinho passageiro, não éramos compatíveis na... Cama. É complicado... Mas gostávamos muito da companhia um do outro. Dessa forma, a amizade tomou conta do nosso relacionamento e assim tem sido por alguns anos.
– Então, você vai? — Ele me pergunta.
Bem, claro que vou. Por que não iria? Ainda mais recebendo um convite tão inesperado assim... E pessoalmente.
– Se você for. — Disfarço, faço bico e ele começa a rir.
– Não perderia essa festa nem por você, meu bem! — Ele diz animado. — E olha que é a segunda coisa que mais amo na vida. — Faço careta pela "coisa". Às vezes realmente parece que sou isso pra ele. Uma coisa. Um objeto. Uma boneca talvez, que ele pode pentear e fazer o que bem entender. Sem conteúdo sexual, é claro. Já vencemos essa fase. — Vamos sair sábado atrás das fantasias. — Dia de compras com Tyler é sempre legal, embora absurdamente exaustivo. Nunca compreendi de onde ele tira tanto fôlego para suas compras. — Quero algo tipo Aladim. Com o peito nu e calças largas, de fácil acesso para certas partes.– Ele diz isso realmente sério.
– Você não presta!
– Só querendo facilitar a vidas das garotas bonitas.
Ás vezes, meu amigo é um cretino irremediável, mas sempre me perguntei o que aconteceria se ele caísse de amores por alguém. Acho que nunca presenciei Tyler dessa forma e admito, tenho muita curiosidade em ver até onde seu "cafajeste interior" pode chegar com uma coleira.
– Como são os amigos dele? O que eu devo esperar?
– Hum... — Ele fica em silêncio e sério, provavelmente pensando, o que me fez temer momentaneamente a resposta. Se é preciso um estudo minucioso é porque coisa boa é que não deve ser – Chatos! Metidos e pomposos. Odeio todos os que conheci. Especialmente a família dele! Menos a Jane, claro!
Oh... Fico quieta. Isso é algo pra se levar em consideração. Meu amigo geralmente se dá bem com todo mundo e gosta da maioria das pessoas que cruza seu caminho.
Jane é a irmã de Theodor, a conheci recentemente, mas não me agradei tanto. Ela parece um pouco... Sombria? Não tenho certeza, talvez com um segundo encontro possa formar uma opinião mais sólida.
Meu elo com Theodor é Tyler. Com exceção desse amigo em comum e a Jane, que só vi uma vez, não sei quem são as pessoas de sua vida. Não somos tão amigos assim. Embora... receber um convite pessoalmente...
Finalmente abro papel bonito em minha mão.
" Cara Diana,
Dê-me a honra de comemorar ao seu lado meu aniversário.”
Sinto um formigamento atravessar meu corpo.
– Ele fez todos os convites a mão? Ou será que foi a secretária?
– A mão?
E com isso vou pra frente com força, batendo de leve minha cabeça no vidro da janela, ao tentar me segurar. Os carros do lado de fora buzinam para nós. Tyler jogou o carro com tudo no acostamento, o freando bruscamente, então toma de minha mão o convite.
– Ah sua danadinha, tem certeza que só estava correndo perto da casa dele? — Ele me olha com um sorriso malicioso dançando nos lábios — Nem um boquete diário pela manhã? Serviço de boquete despertador? Todos os dias às 8? Mas que porra é essa? — Ele ergue o convite e o chacoalha a minha frente. — Eu o conheço há quase dez anos e nunca recebi um desses.
O olhar acusador dele parece meio distorcido...
– Doente, você é doente! — Digo massageando minha cabeça e olhando no espelho.
– TÁ MALUCO! — alguém grita para nós.
– TÔ! — Tyler responde de volta e liga o carro.
– A minha cabeça tá doendo, acho que to com uma concussão... — Digo séria, tocando minha nuca. — Você detonou a...
Ele começa a falar antes que eu acabe a frase.
– Não acredito que recebeu um convite a mão e ainda tem seu nome dentro. É um absurdo.
– Sério, acho que tô morrendo!
– Ele te conheceu há poucos meses, Te viu umas três, talvez quatro, com sorte cinco vezes, como é possível?
– Você vai ter que me pagar um médico muito bom pra consertar minha cabeça!
– Nem solteiro ele é!
Fico em silêncio e Tyler também. Dou uma olhada para ele, mas não digo nada.
– Não quis dizer nada com isso! — Ele começa depois de um momento.
– Ah você quis. — Digo séria, mas não brava como minha voz sugere — Está dizendo que serei a amante!
E ai está, estamos de volta ao desespero para falar, e um sempre tentando sobrepor a voz do outro.
– É eu quis mesmo, ele só quer te comer, aposto. Mas não precisava um convite a mão e pessoalmente, ele poderia apenas ligar e marcar.
– Você tá morrendo de ciúmes, sua bicha enrustida!
– Vai ser só mais uma vadia. Ele vai te comer e depois vai te chutar e ainda vai me contar todos os detalhes!
– Ele não te conta detalhes, você o obriga a soltar coisas e ai as aumenta!
– Ele me conta tudo! Invejosa!
– Invejoso é você!
Ele para o carro na frente do meu trabalho.
– Nojenta!
Pego minhas coisas e desço do carro, então bato a porta.
– Mal amado! — Digo antes de dar as costas.
– Ladra de amigos! — Escuto de volta.
Caminho com passos firmes até a entrada do prédio, não olho pra trás. Apesar da discussãozinha acalorada, isso não foi uma briga. Apenas mais uma manhã com Tyler!
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