À flor da pele
50 Sou grato por ela
Notas iniciais
Theodor
É o vestido. O maldito vestido amarelo florido que me encantou enquanto eu a espiava em frente ao seu trabalho. E a Amy sabia disso quando fez a mala.
Diana está uma delícia! Não fosse a companhia tão desagradável do perfeito Sr. Müller, a noite seria muito boa. Se bem que melhor que vê-la nesse vestido, é vê-la fora dele.
Estou queimando. Desejando tocá-la... Da mesma forma que desejei quando a vi diante daquela brisa de fim de tarde, que erguia o tecido, deixando as pernas bonitas à mostra.
Quero estender seu corpo sobre a mesa e comê-la todinha.
A taradice fora de controle veio, admito, quando ela se trocou e me fez essa surpresa, sem nem imaginar.
Nossa tarde juntos foi uma grande batalha. Imaginei que depois de dormimos junto a vontade passaria, mas ela só aumenta. Quero repetir e repetir e repetir. E não apenas isso, quero ter longos momentos como os de hoje, no sofá, jogando papo fora e só aproveitando a companhia um do outro.
Eu quero Diana em minha vida. Não como uma amiga, como eu desejava antes. Eu a quero para mim. Quero ir aos eventos chatos da empresa com ela, tê-la ao meu lado para me distrair de toda chatice. Não que seja preciso muito. Só o fato dela sorrir já me deixa encantado o suficiente para esquecer o resto.
– Papai, preciso ir ao banheiro.– Abby “sussurra”, mas todo mundo ouve.
– Eu levo. — Amy se oferece.
Tom não gosta muito que Abby passe tempo com Amy. Minha amiga é meio que um péssimo exemplo. Mas ela adora a menina e isso é inegável.
– Não, a tia Diana! — Ela pede.
Diana me olha surpresa.
– Eu é que vou te levar, mocinha. — Tom diz, se levantando.
– Tudo bem, eu... — Diana me olha mais uma vez. Sorrio a encorajando. Ela não gosta de crianças, já me disse uma vez. A única exceção para seu carinho é o sobrinho. Mas Abby é parte da minha vida. Uma boa parte, inclusive. Gostaria muito que ela viesse a ter algum carinho pela anãzinha — Eu levo. — Diz firme e se levanta, estendendo a mão para a menina.
Tom concorda e entrega a chave para Diana.
– Use o da cabana, Abby.
– Ok.– Responde alegremente.
– Obrigado, Diana. — Odeio a forma com que ele diz o nome dela, com aquele maldito sotaque inglês. Geralmente ele consegue esconder bem, mas certas palavras não fogem. O nome dela é uma.
– Claro...
Elas vão pela areia, em direção à ponte que leva até as cabanas. Quando estão cerca de 5 metros, eles começam...
– Que diabos te mordeu? — Patrick se vira para mim. Pensei até que ele já estivesse dormindo.
– Isso se chama amor! — Amy diz animada. — Theo tá entregue, parece um cãozinho!
– O maior mulherengo de São Francisco foi fisgado! — Tom completa, cruzando os braços no peito.
– Não comecem, ok? Não é da conta de vocês!
– Não? Hello! Somos seus amigos, família, carma, seja o que for, temos direito. — E as palavras de Patrick vêm acompanhada de um soluço com um forte cheiro de álcool.
– Acho que já está na hora de parar. — Digo ao meu amigo.
– Eu não bebi nada ainda. Estou só começando a noite.
Tom solta um som frustrado. Nós sabemos bem como essas noites de bebedeira do Patrick acabam. Em confusão!
E eu também sei o que as provoca.
– Quando ela chega?
– Amanhã. — Tom responde.
Tessa não se mistura muito conosco, mas quando o faz, é para causar estrago. Patrick e ela foram um casal antes de namorarmos. Ou talvez ficantes fosse o termo ideal. Eles nunca se assumiram. A verdade é que só soube disso muito tempo depois de termos terminado. Isso me fez entender porquê meu amigo nunca fica sóbrio quando ela está por perto. Mas não completamente. Aparentemente não é uma história para nossos ouvidos. Tom é grato por isso...
Amy se concentra em sua cerveja. Ela geralmente é a pessoa que aguenta Patrick com seu papo de bêbado depois, e é, provavelmente, a única que conhece o resto a história.
– Eu nunca, em toda a minha vida... — Patrick começa – Vi Theodor Blake agir dessa forma. E eu vi muitas faces de Theodor Blake.
– Credo, Pat! Que papo nada de macho! — Amy ralha com ele, que começa a rir.
– Será que não está nem um pouco preocupado, Theozinho, em colocar o novo com o antigo frente a frente?
Bêbado nojento!
– Tessa e eu somos amigos, Patrick, ao contrário de você. Não preciso temer nada e Diana e eu somos amigos também. Tudo sob controle.
– Amigos, é sério? — Thomas encosta na cadeira e cruza os braços, me lança um olhar tão cético, que até eu duvido das minhas palavras. — Todo esse chamego não pareceu nada com amizade. Admita meu amigo, você foi retirado do mercado.
Não sou do tipo que acredita em amor... Espera... Amor? Que merda estou pensando?
Caramba! Fazendo planos para nós, pensando em amor...
Sacudo a cabeça, na esperança de espantar os pensamentos, mas não adianta. Eles continuam lá, fixos e insistentes.
– Olha, eu não sei o que é isso, ok? — Admito, olhando na direção das cabanas, para ter certeza que Diana não está vindo. — Mas seja o que for, eu não preciso de vocês decidindo por mim. E definitivamente, não preciso de você – Aponto para Thomas – Me provocando dessa forma.
– De que forma? — Ele se faz de desentendido. — Não sei do que está falado!
Amy começa a rir. Imagino que ela vá se meter e me ajudar, mas fica quieta logo depois. Assim como Patrick. Esses dois não tomam partido quando Tom e eu estamos discutindo. Depois, talvez, mas não durante.
– Pare de fingir que está em comercial de pasta de dentes. Ela não quer ver seus dentes, Tom! E não pisque mais, pelo amor de deus, parece que você tem algum tique nervoso. — Ele consegue ser tão irritante de vez em quando!
– Você já era, Theo... — Tom mexe a cabeça negativamente enquanto fala. — Está com todos os sintomas. Esse ciúme sem fundamento só prova isso. Está apaixonado, seu perdedor!
Fico em silêncio. Não porque concordo, mas porque ele já passou dos limites e não quero que Diana veja uma cena ao voltar.
***
Diana chega quando a comida é servida. Frutos do mar e algumas iguarias da região.
Abby parece mais animada que o normal. Talvez esse pequeno momento juntas lhe tenha rendido alguma coisa. Como uma promessa de novos desenhos. Não duvido nada.
Sinto que algo mudou entre Diana e eu nesse intervalo que ficamos separados. É como se muros tivessem sido erguidos e não é do meu lado. Eu acho...
Entrelaço meus dedos aos dela por baixo da mesa e, embora ela não reclame ou impeça, está tensa.
Tensa com meu toque...
Quando o garçom termina de arrumar a mesa, a deixo livre para comer, mas não posso deixar de me sentir um pouco preocupado por sua nova atitude.
O jantar em si é um saco. Patrick está bêbado demais para se lembrar de como ser sociável, isso tira todo o humor de Amy e deixa Tom em alerta. Ele não deixa Abby presenciar esse tipo de situação. Se Diana não estivesse aqui, nossa noite já terá acabado.
Depois de um tempo tentando manter o jantar e uma boa conversa, Thomas se zanga o suficiente para esquecer a educação. Ele se despede e parte com Abby, lançando um olhar muito irritado para Patrick.
Não me demoro ali também. Espero Diana termina e deixo Amy para cuidar do bêbado, ela é a única com paciência para lidar com ele assim. Por mim ele pode dormir onde está.
Andamos em direção à praia.
– Patrick sempre bebe dessa forma? — Ela me pergunta enquanto andamos beira-mar.
– Ele sempre bebe. Não dessa forma. E não escuta ninguém a respeito de procurar ajuda. Sinto muito que teve que presenciar isso.
– Me sinto um pouco triste por ele.
Paro de andar. Ficamos de frente para o mar, olhando para a escuridão.
– Eu me sinto da mesma forma, mas a escolha de mudar tem que ser dele. Enquanto ele não decidir que quer fazer isso, estou de mãos atadas.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. Um certo constrangimento surgindo no ar.
– Está com calor ainda? — Pergunto.
– Sim.
Sorrio para ela. É tão estranho como vamos de íntimos para recém-conhecidos de um minuto para o outro. Mas estou decidido a não ficar amedrontado com isso.
– Ótimo.
Começo a abrir os botões da minha camisa e a tiro. Sigo os olhos dela, que acompanham cada pedaço de pele que fica exposta. Abro minha bermuda e a deixo escorregar para a areia, ficando apenas de cueca. Felizmente não tem ninguém por perto.
Diana me estuda, como se eu fosse um maluco. Sua surpresa é tão grande com minha atitude, que ela deixa a guarda baixa o suficiente para que a pegue pela cintura e comece a correr em direção ao mar.
– Não, Theo! — Diz entre gritinhos. Se debate tanto que as sapatilhas ficam no caminho e quando seus pés tocam a água, ela se encolhe toda, me lembra um gatinho tentando escapar do banho.
– Não faz isso! Tá fria!
Tarde demais!
Quando a água, que de fato está bem fria, toca minha coxa, eu me deixo cair com ela em meu colo.
– Vou matar você! — Ameaça, tentando fugir, mas logo desiste e começa a usar meu rosto como alvo para água que ela empurra com as mãos, me fazendo soltá-la.
– Golpe baixo, Dia! — Me levanto e chuto água nela, que se vira e afasta alguns passos, usa as mãos como escudo.
Esse é o um momento nosso, onde só existe os dois e ninguém mais. E eu amo me sentir assim cada vez que estamos juntos.
Ela não faz ideia de como está maravilhosa nesse momento. A chama das tochas na praia são o nosso único ponto de iluminação e servem muito bem ao propósito. Posso ver seu rosto com clareza e o lado que a luz vem e que é mais iluminado, deixa bem visível o tecido do vestido colado ao seu corpo. Posso ver suas curvas e o bico do seio durinho...
Ela se prepara para chutar água em minha direção, mas a agarro, colando seu peito no meu. Seu sorriso é grande e bonito e a quero com tanto desespero que chega a me doer certas partes...
Seguro em sua nuca e junto nossos lábios. Nosso beijo não tem nada de lento que vai evoluindo. Estamos entregues ao desespero. Ansiando mais e mais um do outro.
– Vamos...– Me separo, ofegante. — Para a cabana...
Ela concorda, mas ficamos um momento a mais, nos recuperando, antes de seguir.
Parecemos dois bêbados ao recolher nossas coisas. Visto minha bermuda e passo minha camisa sobre ela. Então partimos, tropeçando em nossos próprios pés algumas vezes, até que estamos na ponte e minhas mãos estão nela de novo.
Quando chegamos ao nosso destino, não faço ideia de como entrar, só quero tocá-la. Então pressiono contra a porta, segurando com força em sua bunda, sentindo a carne macia. E não importa a intensidade dos beijos e as mãos bobas, não é o suficiente.
– Oi...
Diana me empurra, com o susto. Me coloco em sua frente para escondê-la e me viro para ver quem nos interrompe.
Amy está há uns três metros de nós, olhando para o mar.
– O quê? — Digo irritado. Que hora para aparecer!
– Eu sinto muito interromper, mas não há chances de mover o Patrick sozinha. E não posso chamar o Tom, ele teria que deixar a Abby sozinha.
Bufo. Que droga! Maldito Patrick!
Tento pensar em uma solução, mas desisto. Deveria ter cuidado daquele babaca antes...
Me volto para Diana, que está vermelha e ofegante, ela nem me olha, fica encarando os pés.
– Eu estarei de volta logo. — Digo a ela e a forço a me encarar. — Ok?
Ela concorda com um aceno, mas não responde. Está envergonhada.
Retiro a chave do bolso da minha bermuda e destranco a porta, então beijo sua testa.
Vou para junto de Amy, muito bravo pela interrupção e tentando controlar meu corpo que está em fogo, e o temperamento. Não digo nada de imediato. Espero estarmos de volta à praia, longe de Diana, pra ralhar.
– Por que não chamou um garçom? — Digo quando já estamos longe.
Ela bufa, irritada.
– Eu chamei, dois diferentes, um queria cobrar 100 dólares pela ajuda e o outro 150. — Responde cheia de rancor. O que não é comum.
Amy sempre pegou para si a tarefa de direcionar o bêbado do Patrick. Qual o problema agora?
– Por que está brava? — Pergunto, lutando para não gritar pela frustração.
– Porque eu deveria estar me divertindo. Não servir de babá para bêbado! — Ergue as mãos dramaticamente enquanto fala.
Alcançamos a mesa que estávamos antes e Patrick está no mesmo lugar de quando saí, com a cabeça baixa e apagado.
– Você nunca reclamou antes.
Ela me lança um olhar tão feio que até recuo meio passo.
– É Bora Bora, Theo! A primeira viagem legal em que eu não preciso ficar protegendo a sua bunda. Eu não quero ser a babá do Patrick, ou Abby ou Diana. Eu deveria, supostamente, estar me divertindo. Encontrar um cara aleatório e me esfregar nele, acabar em seu quarto e não ter que me preocupar em acordar cedo. Não quero ficar tentando conciliar meu tempo com as suas necessidades, sempre tentando não decepcionar vocês. Eu deveria ser a amiga e não a empregada. Não aqui! Nós tínhamos um trato!
Ela tem razão. Embora a bebida esteja ajudando a colocar para a fora essas coisas. É por isso que evitamos álcool nos nossos encontros, pelo menos na maior parte das vezes. Patrick se torna deprimido, Tom nunca bebe, eu fico mais aberto, agora... Amy vira um monstrinho!
Fico a encarando, do outro lado de Patrick. Ela de braços cruzados, esperando que eu diga algo, eu pensando no que posso dizer para não perder mais tempo. Mas eu também bebi, posso ter ficado um pouco... Boca aberta.
– Você se ofereceu para cuidar da Abby e você convidou a Diana para ir fazer compras. E você não disse não quando te deixei para cuidar dele, como sempre! Qual a porra de problema com vocês mulheres, que fazem tudo ao contrário do que querem?
Ela abre a boca. Então fecha. Olha para Patrick e dá um tapa na cabeça, para ver se ele realmente está apagado. Ou seria isso, teoricamente, se o tapa não tivesse vindo com tanta força.
Pat nem se mexe, se não fosse sua respiração, e um leve ronco, eu poderia afirmar que ele está morto.
– Eu admito que me ofereci. E que convidei. Então retiro a parte delas. Agora, tem um cara bêbado e apagado, por que diabos você acha que eu posso lidar com ele sozinha?
Ela se abaixa, passando o braço de Patrick em seu ombro. Faço o mesmo e então conto até três e o levantamos. Tento puxar o peso dele para mim, mas o cara parece pesar toneladas, por fim, o lado que minha amiga segura cede e deixamos Patrick cair sentado de novo. Batendo a testa na mesa no processo.
Ela abre a boca em espanto, mas logo começa a rir eu tenho que concordar, isso foi muito engraçado. E será melhor amanhã, se ele ficar com alguma marca.
– Vocês estão todos bêbados? — Olho para trás e acho Thomas vindo em nossa direção.
– Cadê a Abby? — Amy pergunta.
– Dormindo, vim te ajudar...
– Não deveria tê-la deixado. Eu posso me virar sozinha! — Ela diz, já se armando toda. Escolho ficar quieto e não relembrá-la de suas reclamações minutos atrás. Essa hipócrita, sem vergonha!
– Com esse joelho estourado?
Prendo o ar, esperando uma cena.
Desde que Amy se machucou, não falamos sobre suas limitações. Ela já não pode correr por mais que poucos minutos sem sentir dor, levantar peso também tem sido um problema, mas ela não reclama. No entanto, Thomas tem essa mania de achar que o tiro que ela levou anos antes a deixou incapacitada para sempre. Ele não diz isso, mas seus gestos o fazem. E se eu já fico irritado com essa mania dele de a diminuir, sempre supondo que ela não pode fazer algo, imagina ela, que sempre foi independente.
Aquela noite fatídica tirou quase um ano da vida dela, quando teve que passar por várias cirurgias e fazer muita fisioterapia. Mas ela superou. Apenas ele que não.
Amy suspira, resignada. E me surpreendo tanto que até deixo a boca aberta por alguns segundos.
– Quer saber, se virem. Eu cansei! — E então ela nos dá às costas.
Tom se abaixa e faz como Amy antes, passando o braço de Patrick sobre seu pescoço.
– Depois dessa, você que vai cuidar dele.
– Eu tenho uma filha, Theo, não dá! É sua vez!
– Você só pode estar de brincadeira! — De jeito algum que deixo de voltar para Diana essa noite.
Conto até três e erguemos Pat. Dessa vez ele não cai. Chuto a cadeira para longe, quase perdendo o equilíbrio e então começamos o caminho até as cabanas, o arrastando e deixando marcas na areia.
– Não vou ficar de babá de bêbado! — Falo quando estamos em frente à cabana que eu deveria dividir com Pat.
– E eu menos. — Tom declara com firmeza e bem irritado e então eu sei, a minha noite acaba aqui.
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