À flor da pele
49 Sou grata por ele
Notas iniciais
Diana
– Ora, ora! — Patrício, ou será Fabrício?, diz quando Theo e eu chegamos ao restaurante do hotel. Ele fica na praia e na verdade é um monte de mesas espalhadas pela areia, em volta de uma construção maior de madeira.
Eu não queria vir realmente, e até fiquei pensando no que o Theo me disse mais cedo, sobre falar o que eu quero. Mas cheguei à conclusão de que ele não viria se eu ficasse. Ele veio com os amigos, eu não posso estragar isso. É o momento deles. Mesmo que agora, ao colocar os olhos na Amy, toda a minha confiança decida me abandonar.
Eu tentei enrolar o máximo que pude para vir aqui fora. Não tinha ideia de como Theo iria reagir na frente dos amigos e não queria o constranger, então precisei reunir coragem antes. Já passava das oito quando decidi me arriscar. Talvez eu devesse ter inventando alguma dor mais forte do que realmente estou sentindo e ter ficado na cabana.
Quando fui que me tornei tão covarde e insegura? Eu sempre me orgulhei da mulher que me tornei. Quer dizer, de 50% apenas. Porque ninguém é perfeito. Mas todo esse medo e receio... Não me reconheço mais.
A mesa escolhida para o jantar fica na areia, sobre um pequeno deque de madeira escura, abaixo de uma tenda grande e bonita, mas muito inferior as que tinham na casa do Theo em seu aniversário. Há pétalas de flores brancas e tochas acesas ao redor da praia.
Na mesa, tem velas, que fazem o vestido branco da Amy ter um efeito incrível. Sem contar a sua pele bronzeada, que tem um contraste único com o tecido, Como ela conseguiu ficar com essa cor tão rápido? A mulher parece uma deusa grega, com os cabelos loiros soltos e com longos cachos sobre os ombros. Ela não usa maquiagem. Não que precise...
Me sinto tão feia no vestido amarelo florido que uso. Ele cai até pouco antes dos joelhos, mas parece comprido demais ao ver as pernas torneadas da Amy. E meu decote parece modesto em comparação ao tecido claro que cobre só o necessário dos seios dela. E o necessário é bem pouco. Meus pés, com uma sapatilha, não são tão bons como os dela, em uma sandália plataforma prateada, que mostra as unhas bem pintadas de vermelho. E eu nem estou contando com o fato de estar com o rosto todo ferrado e que tive que passar muita base para disfarçar. Fico com dó do Theo por ter que aguentar a minha companhia. Eu me sinto em meu pior nesse momento.
Tudo ao redor colabora para que Amy fique ainda mais bonita. Não dá pra concorrer e isso só aumenta a minha frustração. Eu não deveria ligar para isso... Theo me convidou para vir antes da... Invasão. Ele insistiu... Sinal de que me queria aqui com ele, certo?
Cumprimento Tom e Abby que estão sentados do outro lado da mesa. A menina, que está entre Amy e o pai, me lança um sorriso amigável antes de voltar a desenhar em uma folha que está na mesa. Ela os cabelos presos em um rabo de cavalo todo cacheadinho.
Então cumprimento Amy e logo depois o Fabrício.
– Sejam bem-vindos! — O rapaz bonito, de lindos olhos azuis, diz. Ele tem um copo em sua mão e um bafo que denuncia que não é o primeiro da noite.
Algumas garrafas na mesa ajudam a confirmar isso também.
– Obrigada.
– Ao seu dispor. — Ele diz, curvando-se momentaneamente em minha frente e deixando algumas gotas da bebida cair.
– Menos Patrick! — Theo diz ao amigo.
Então é Patrick o nome...
O rapaz simpático e galanteador usa uma camisa polo azul escuro e um shorts de jogar tênis. Me pergunto se ele veio de alguma partida ou só queria deixar as coxas fortes à mostra.
As mulheres das outras mesas olham com frequência para nossa e ele distribui sorrisos. Mas, com Theo em sua bermuda jeans e sua camisa de manga curta, exibindo as pernas e os braços bem torneados, e Tom com uma camiseta tão apertada, que marca todos seus músculos, é difícil dizer com certeza qual o motivo de tanta atenção...
– Está melhor, Diana? — Amy pergunta, com seu jeito seco e que pra mim significa que estou em sua lista negra.
– Sim, obrigada.
– Sem dores?
Saco! Queria tanto não falar sobre isso essa noite. A mesma pergunta feita pelo Theo mais cedo, não parecia tão ruim. Será que ela está me provocando? Trazendo meu pior pesadelo à mesa?
– Um pouco dolorida...
– O importante é que não teve nenhum ferimento mais sério. — Ela diz e, pela primeira vez, me oferece um sorriso. Um dos calorosos. Que consegue deixá-la ainda mais bonita...
Isso só pode ser alguma piada divina. Por que fazer alguém tão perfeito?
Theodor teve a delicadeza de dizer que eu estava bonita, e até me sentir assim por um tempo. Será que se eu encarar Theodor ele vai estar olhando para ela, encantado com seu decote e suas pernas?
Maldita insegurança! Eu tenho certeza que não era assim duas semanas atrás. O que está havendo comigo? Por que de repente eu me tornei tão consciente da concorrência? Se for, de fato, concorrência. Ainda sinto que eles têm uma história por trás e quem sabe ela ainda nem tenha terminado...Talvez eu seja apenas a boneca, uma provocação dele para ela.
– Por favor... — Theo puxa a cadeira ao lado de Amy para mim. Não queria sentar perto dela. – Acho que você já conhece todos...
– Sim. — Concordo, ainda sem olhar para ele, com medo de me decepcionar com a direção que seus olhos vão...
– Então, — Theodor começa animado. — O que fizeram hoje? — Pergunta para os amigos.
Sua mão descansa sobre minha coxa por baixo da mesa. O que dispara intensas ondas de calor, que viajam da minha coxa para o centro delas. Mas ainda assim, eu não o olho.
– Eu estive em uma feira na ilha principal. — Amy diz animada. — Havia tantas coisas, eu comprei aquelas bonequinhas que se mechem.
– Mais? — Tom se manifesta, de cenho franzido. — Você tem milhares dessas coisas horrorosas, pra quê mais? — Ele parece indignado. Me olha e revira os olhos, é engraçado até.
– Primeiro a casa é minha, o dinheiro é meu e eu compro o que quiser. — Amy fala dando de dedo, mostrando que toda beleza é apenas física... Pelo menos eu começo acreditar... Ela não tem modos e isso se confirma quando ela faz uma pausa e pega uma garrafa de cerveja da mesa e vira na boca. Nada de copos. E aposto que nem lavou a garrafa... — Segundo, cada uma delas é de um lugar diferente, ok? São lembranças!
Tom bufa, enquanto Patrick ri do outro lado da mesa, entre Theo e Tom. Abby parece nem ligar para todo barulho que os adultos fazem a sua volta.
– De lugares diferentes? Mas são todas iguais!
Amy coloca a garrafa na mesa, a batendo, visivelmente irritada.
– Você não sabe de nada! — Então ela se volta para mim. — Então, Diana. Fui a esse lugar incrível, cheio de lojas e não consegui ver nem metade! Você deveria vir comigo amanhã, os rapazes terão uma reunião, podemos tirar um dia de garotas.
Patrick se engasga com sua bebida e deixa o copo na mesa enquanto cai na gargalhada.
– Dia de meninas? — Ele começa, mas logo para e volta sua atenção para o copo de novo.
– Ah... Parece... Bom. — Exceto que estou quebrada! E não é financeiramente! Se inteira e sem hematomas já é difícil concorrer com a Amy...
A loira ergue a garrafa de cerveja em minha direção, antes de virar outro gole na boca.
– Eu estive recolhendo conchas com a Abby na praia hoje. — Tom começa, quando percebe que Amy já terminou. — Mergulhamos com os golfinhos... — A menina parece ganhar vida quando ouve a palavra “golfinhos”. Ela baixa os lápis de cor e olha para todos nós, como e só agora tivesse percebido nossa presença realmente.
– Foi muito legal! Eu consegui alimentar um! — A menina se levanta na cadeira. Exibindo um adorável vestido rosa, de tecido leve. — Eu só fiquei com medo um pouquinho, não é papai?
– Afirmativo! Minha garota deu um show! — Tom puxa a pequena figura pro colo e beija o topo de sua cabeça. Eles são muito fofos juntos. Ele é tão carinhoso que chega a dar um pouquinho de inveja. Quem me dera ter tido alguns momento assim com meu pai.
– Eu, por minha vez – Patrici... Patrick, se manifesta. — Conheci algumas belas damas, muito dispostas a me mostrar... Os encantos da ilha...
– Eca! — Amy revira os olhos.
Percebo então os tipos de encantos que Patrick está se referindo. Será que ele ainda se lembra da Terry?
– Não me recrimine. Sou um homem feito para amar! — Diz todo cheio de charme.
Finalmente me sinto mais à vontade para olhar para o lado e encarar Theo. Mesmo com medo de o ver olhando para a amiga...
Me surpreendo ao dar de encontro com os olhos castanhos dele fixos em mim. Ele estuda meu corpo sem um pingo de vergonha. A luxúria estampada em seu semblante é algo muito excitante... Então, finalmente encontra meus olhos e me oferece um sorriso bonito, tirador de calcinhas...
– E o que vocês dois andaram fazendo o dia todo? — O Tom sugestivo de Patrick faz com que eu perca a compostura por um momento e tenha um mini-infarto. Minhas bochechas coram, meu coração bate forte, minhas mãos suam e não posso olhar para ninguém além do Theo, atrás de uma salvação.
Eles devem pensar que transamos o dia todo!
– Diana basicamente dormiu o dia todo. — Theo começa, com uma calma tão grande, que até eu acredito em suas palavras. — Eu me preparei para a reunião de amanhã.
Ele dá uma apertada confortadora em minha perna. Fico grata pela sua cara tão convincente. Ele deve ser um ótimo jogador de poker!
– Nossa, que entediante! — Patrick volta a se manifestar. Ele começa a me incomodar. Só o vejo entornar o líquido como se fosse água, o que eu sei bem que não é.
– Alguém vai ter que estar preparado, e não bêbado ou no país das maravilhas, amanhã. — Theodor diz e sinto um pouco de maldade no comentário, embora, eu ache que devo concordar.
No entanto, as palavras despertam o riso de seus amigos, especialmente de Tom, que dá uma gargalhada bonita e contagiante. Abby, percebo, não entende nada do que acontece, mas ri do som que seu pai faz. Isso me contagia também.
– Vocês só ganham dinheiro porque são bonitos! — Amy solta.
– Eu me garanto além da beleza. — Patrick ergue o copo, oferecendo um brinde. — Sou ótimo de cama, isso ajuda!
– Patrick! — Tom ralha com ele.
– De dormir, tio Pat? — Abby ganha vida de novo.
Theo descansa seu rosto na curva entre meu pescoço e ombro, depositando uma leve mordida em minha pele. Percebo que ele segura o riso.
– Isso ai, princesa! O titio Pat dorme melhor que ninguém!
Levo meus dedos ao cabelo do Theo, acariciando e bagunçando seu penteado todo certinho.
Seus lábios tocam minha pele, onde antes mordeu, depositando um beijo e então se afasta, me encarando, com um lindo sorriso malicioso e cheio de promessas.
– Algo para beber? — Sou puxada do meu transe e levanto o rosto para encontrar um rapaz nos encarando. Ele segura um bloco e uma caneta na mão, é o garçom, aparentemente.
– Champanhe? — Theo pergunta em voz alta, o encaro e concordo, então ele acena para o rapaz, que faz anotação. — Uma água também.
– Mais um suco de laranja. — Tom diz do outro lado.
– E outro Uísque. — Completa Patrick. Não perco o olhar de desaprovação que Tom e Theo trocam.
O garçom se afasta e quando acho que o silêncio vai tomar conta, Amy começa a falar sobre Basebol.
Eu não gosto desse tipo de esporte. Aliás, nem conheço, então me sinto um pouco perdida.
Amy até tenta me incluir na conversa, mas é tão desinteressante o assunto, que fica difícil manter a atenção. Então Abby me salva. Ela empurra seu desenho para mim, e me reconheço de imediato ali. Cabelos espetados e cara roxa... E muito mais magra, já que no desenho eu sou feita de palitinhos. Os outros estão ali também.
Como não há um fundo no desenho, eu decido fazer uma contribuição. Estendo a mão para onde os lápis estão espalhados, e pego um deles. Ela me olha curiosa, mas não me impede de traçar riscos ali. Só espero que não fique chateada e chore...
Fico uns bons cinco minutos ali, tentando esconder com uma mão a folha, enquanto Abby tenta espiar. Ela se debruça, sobre no colo do pai, e nada. Então acaba por vir até o Theo, se aconchegando em suas pernas e espiando.
– Que legal! — A menina diz quando finalmente consegue tirar a folha de mim. Ela olha para o fundo, uma das cabanas com vários detalhes, como se nunca tivesse visto algo do tipo. — Olha pai! — Ela passa desenho para o Tom.
– Isso é impressionante. — Theo diz em meu ouvido, e logo beija minha bochecha. Fico encabulada pelo gesto e pelo elogio, que segue um do Tom e da Amy. Patrick nem perde tempo olhando o desenho, está em outro lugar... O homem está tão bêbado, que eu duvido que vá conseguir esperar o jantar, acho que a qualquer momento ele vai cair e dormir ali mesmo.
– Você faz outro, tia?
Abby volta para o colo do Theo, e deposita uma folha em minha frente. A animação dela é contagiante.
– Tia no primeiro dia, isso sim que é impressionante. — Encontro os olhos do Tom do outro lado. Ele me oferece um sorriso e uma piscada, que vem acompanhada de um formigamento em minha perna, que logo descubro ser a mão do Theo apertando, não com força mas o suficiente para ser notada.
Será isso ciúmes? Bem provável! Theodor já mostrou em outras ocasiões que pode ser um pouco... Possessivo. O que é ruim, mas também bom, uma vez que me sinto da mesma forma em relação a ele. E nem mesmo sei como cheguei a isso.
As bebidas chegam depois que acabo de desenhar a ponte e algumas cabanas na nova folha. Abby diz que vai pintar depois e então volta para seu lugar, entre Amy e Tom.
O garçom nos serve e deixa a garrafa de champanhe no centro da mesa.
– O Jantar está pronto, posso servir?
– Sim, por favor. — Tom diz. Aparentemente ele já pediu comida para todos...
Depois que o rapaz se afasta, Thomas se volta para mim.
– Por causa do feriado, eles estavam fazendo apenas duas opções de pratos, então tomei a gentileza de pedir um pouco dos dois.
– Que gentil, Tom. Obrigado por decidir o que vou comer. — Theo retruca, ele parece mau-humorado cada vez que se dirige ao amigo. Será que brigaram?
– Não vou repetir o motivo, porque você não é surdo. Agora larga mão de ser chato e aproveita esse adorável jantar, ao lado de adoráveis pessoas. E seja grato, Sr.Humor!
– Nesse momento não estou tão grato por você... — Theo passa o braço sobre meu ombros. Admito que estou um pouco surpresa por esse seu lado.
– E eu nem imagino o porquê! — Tom ri e pisca pra mim.
– Parem de disputar quem tem as bolas maiores. Às vezes eu acho que vocês nem mesmo tem! — Amy se mete.
– Vocês falam alto demais. — Patrick dá sinal de vida.
Dou um gole na bebida geladinha e levemente adocicada.
Uma musica calma começa a tocar e me viro, para identificar de onde vem.
Perto da parte de dentro do restaurante, três rapazes estão sentados. Apenas um deles, com uma flauta, é que toca, os outro estão arrumando um palco improvisado.
Patrick reclama sobre o barulho de novo, mas não consigo identificar o que diz realmente.
O clima está agradável. Ainda abafado, mas a brisa vinda do mar refresca. Me vejo encarando o mar, onde a Lua no alto se faz refletida nas águas escuras. O barulho das ondas junto ao som da flauta é tão relaxante.
– Que tal um mergulho noturno? – Theo sussurra em meu ouvido. Seu corpo está tão próximo de repente. Sua mão, que estava parada próxima a meu joelho ganha vida, subindo aos pouquinhos. Preciso me segurar para não soltar um gemido involuntário. Encontro os olhos do Theo e tento lhe oferecer meu melhor olhar zangado quando tiro sua mão dali. Mas ele nem pisca e insiste em voltá-la no lugar, indo de dedo em dedo mais adiante.
Onde está o "esperar" dele, agora?
Apesar da situação, não fico brava. Preciso morder o lábio para não sorrir como uma boba. Seu toque me traz certo conforto. Eu sei que ele me quer e é realmente importante ter essa certeza com Amy sentada à mesa.
Me inclino levemente e seguro sua mão com força, afastando mais uma vez.
– Se você se comportar, talvez eu pense sobre isso. — Sussurro de volta. Eu sei que estou sendo grosseira com os amigos dele por isso, mas não posso evitar de me enfiar nessa bolha com Theo. Ele é incrível demais para ignorar.
E como se estivéssemos sozinhos, ele segura meu rosto e acaricia minha bochecha com o nariz, se aproxima da minha orelha e captura o lóbulo, mordiscando por um momento, antes de me condenar com mais um sussurro.
– Eu acho que quero jantar você...
Me afasto no mesmo instante, com as malditas bochechas queimando e me tornando ciente das outras pessoas a nossa volta.
Meu deus, estou agindo como uma adolescente apaixonada. E de adolescente já não tenho nada. Agora... Apaixonada...
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