À flor da pele
46 Paraíso
Notas iniciais
Diana
Névoa. É tudo que posso pensar. Sinto-me presa no centro disso. Perdida e assustada demais para tentar escapar.
O medo sempre foi um motivador muito grande. Ele encerra guerras, começa outras, nos torna bravos, ou figuras assustadas, incapazes de fazer qualquer outra coisa além de nos encolher em uma bola e esperar que se dissipe.
Esperar. Nem sempre é possível.
Eu me lembro do homem em minha casa... Dele me perseguindo e de ser agarrada. O que aconteceu depois disso é um borrão. Um espesso nevoeiro que impede minha mente de processar qualquer coisa que não seja o desejo de me esconder.
Mas então o doce e familiar som começa a soar. E meu desejo de ficar escondida e perdida parece ser fraco em comparação a estar ao redor da voz. Ela me lembra conforto, segurança... Eu quero segurança.
– Diana?– Abro os olhos, recebendo os raios do Sol em meu rosto. Cegando-me momentaneamente, então ele entra em foco. Cabelos bagunçados, parecendo mais claros pela luz forte que banha todo o lugar, e os olhos num tom tão bonito de verde.
E ele tem o peito nu.
– Que... — Sinto minha língua dormente. A movo por um instante, antes de continuar. — Que lugar é esse?
Não se parece com São Francisco. Luz demais. Calor demais. Sinto meu corpo superaquecido e suado.
– Vamos levantar você... — Theo se inclina, colocando a mão abaixo dos meus braços e me puxando, gentilmente. Seguro em seus ombros quando sinto tontura e o lado direito de meu rosto latejar de dor. Fecho os olhos, esperando as sensações serem suportáveis, então os abro de novo.
Theo ajeita um travesseiro e me encosta lá. Estou em uma cama. Uma macia e desconfortável, por causa do calor.
Olho em volta.
A cama é de dossel. E estamos confinados sob os tecidos, que finos e quase transparentes.
– Aqui... — Theo me estende a mão, com um comprimido pequeno e branco. — É para dor.
Aceito sem questionar.
Ele puxa o tecido para o lado, me deixando dar uma boa olhada em uma parede de vidro, então pega um copo de água e me estende.
Tomo o remédio e devolvo para ele o copo.
– Como se sente?
Theo não me toca além do necessário, ele mantém uma certa distância, percebo.
Seu rosto parece abatido e tem olheiras profundas. Me pergunto se ele dormiu...
– Como se tivesse sido atropelada por um caminhão. — Lhe conto. E não estou exagerando.
Meu rosto dói bastante e isso é o que me distrai da dor do corpo, que está bem incômoda.
– Sinto muito.
Concordo e desvio meu olhar dele. Olho a nossa volta mais uma vez, tentando observar as formas através do fino tecido. Duas das quatro paredes que nos rodeiam são de vidro e em frente à cama, há um sofá e uma mesa de centro, que não consigo ver direito, apenas o enfeite em cima. Ela parece estar em um nível mais baixo.
– Onde estamos? — Tento novamente, evitando entrar na minha assustadora experiência.
– Hum... Sobre isso... Não Surta, ok?
Só essas palavras já me fazem ter um miniataque do coração. Mas, concordo para que ele continue.
– Bora Bora.
Deixo suas palavras entrarem em minha mente. É um hotel? Porque o único Bora Bora que consigo pensar é...
– Oh, meu deus, Theo! Bora Bora, a ilha?
– Yep!
Fico o estudando. Tem que ser uma piada. Nem em cinco anos eu poderia fazer uma viagem desse porte. Especialmente com todas as minhas dívidas! Meu cartão de crédito não cobre nem a passagem de ida.
– Oh, meu deus! Oh meu deus! Theo! Eu não posso bancar uma viagem desse tipo! — Deixo escapar antes de pensar. O que me faz me sentir envergonhada. Atropelada, pobre e envergonhada! Theo abre a boca para dizer algo, mas o interrompo. — E você não está pagando, de jeito nenhum!
Ele revira os olhos.
– Nós viemos em um voo privado e esse lugar... – Ele dá de ombros. — É meu.
Agora estou surpresa. E de boca aberta.
– Seu?
– Uma parte dele, pelo menos... Mas, eu não quero falar disso agora. Você está ciente do que aconteceu com você na noite de ontem?
Sinto-me desconfortável. Esse é um daqueles momentos que o Theo deveria ser cavalheiro e ficar quieto. Eu não estou me permitindo pensar nisso, porque eu sei que quando o fizer, eu não posso me garantir para ficar sã.
– Tinha alguém em minha casa... — Começo, pronta a acabar com isso o quanto antes. Se eu falar agora, ele me deixará livre disso mais rápido. — Eu escapei e me tranquei no banheiro...
Então as lembranças estão frescas de novo. E me lembro da porta abrindo...
Sinto meu corpo ficar tenso.
A porta foi aberta, o cara entrou e me pegou. Depois disso é um borrão. Será que ele...
– Eu fui violentada? — Pergunto, com a voz falhando e o peito ardendo.
Theo segura meu rosto e me obriga a encará-lo.
– Não. Os médicos disseram que não... Você foi?
Estou em pânico. Oh, meu deus!
– Ele entrou no banheiro e me agarrou... E... Eu não sei... — Um soluço escapa de minha garganta.
Então ele finalmente me toca, me puxando para seu colo e me embalando em um abraço.
– Era eu, Diana. Escutei seus gritos e precisava chegar até você! Quase derrubei aquela porta, então peguei você, amor. Era eu. Está tudo bem.
Relaxo e solto um suspiro. Mas logo sinto-me estranha, ao perceber algo mais.
Amor.
Ele me chamou de amor.
– Fica calma... — A mão de Theo está aberta em minhas costas e faz círculos, tentando me acalmar.
– Eu tive tanto medo. — Admito para ele.
– Eu sei... Mas você não precisa mais ter. Eu encontrei você. E não a estou deixando tão cedo. Ok?
O que isso quer dizer? Aliás, isso importa?
Não realmente.
Não agora, pelo menos. Só o fato de tê-lo ao meu lado já é ótimo. Isso faz com que me acalme.
Passo a mão sobre meus olhos, secando algumas lágrimas que escaparam.
– Você precisa descansar. Mas antes, tem que comer algo. — Ele me afasta, me empurra, sutilmente, para me sentar na cama. — E deve querer um banho.
Então, olho para minha roupa. Estou exatamente como antes, quando subi e me deitei. Camisão e calçola. E ele viu...
– Você me trouxe para cá assim? — Não posso acreditar.
Ele disse que amigos dele viriam também... Humilhação publica!
– Na verdade... — Ele aponta para trás dele, na beira cama. Vejo uma calça de pijama. É minha, a reconheço. — Você veio de calça. Tirou enquanto dormia...
Isso não soa nada melhor...
– Oh... Acho que prefiro um banho primeiro. — Desvio o olhar do seu.
– Eu vou preparar seu banho, ok? — Preparar? Tipo esquentar a água? Será que não tem água encanada aqui? — Escolha algo leve para vestir.
– Vestir... — Paro para pensar, e acho que só vim com a roupa do corpo.
– Amy te fez uma mala. — Ele anuncia e solto o ar que nem vi que prendia.
Ele puxa o dossel e se afasta, quando volta, deixa uma mala na cama, de frente para mim.
– Não se levante até que eu venha buscá-la.
– Estou bem. — Tento acalmá-lo. Ele parece à beira de um ataque de pânico.
– Você foi sedada pra o voo, quem sabe o quanto disso ainda há em seu organismo. Me sentirei melhor se me deixar ajudá-la por agora, ok?
Sua voz soa um tanto dura. Ele está chateado. Provavelmente comigo. Eu estraguei a noite dele e atrapalhei sua viagem. Agora ele tem uma bagagem a mais em mãos. Eu!
– Ok.
Theo se afasta. E a situação é tão desconfortável e incômoda, que nem mesmo consigo apreciar o fato de que ele usa apenas uma boxer preta. Como eu não percebi isso antes?
Vejo o contorno de seu corpo entrar por uma porta e sumir.
Abro a mala à minha frente. São roupas minhas. Amy mexeu em minhas coisas... Não que eu esteja reclamando. Sou grata, mas... Bem, estou reclamando, sim! Me sinto como um problema aqui. Deveria ter ido para casa de Julie. Não consigo nem pensar no que aconteceu sem sentir-me na borda, prestes a saltar de cabeça para um colapso!
Não posso lidar com isso agora.
Olho as peças que Amy pegou, tentando ignorar o fato de que alguém mexeu em meu guarda-roupa. Isso é algo tão pessoal... Mas então me lembro, automaticamente, que um cara desconhecido entrou em minha casa. Mexeu em minhas coisas e me tocou. Tentou me machucar. Aliás, pela dor que sinto, ele machucou.
Eu tento esquecer, mas parece que cada coisa me leva para esse lugar.
Pego uma calcinha branca e um sutiã da mesma cor, que está misturado com as outras roupas. Nada separado. Ou dobrado... Minhas coisas apenas foram socadas dentro da mala. Encontro um vestido de botão na frente, totalmente amassado. Ele é curto demais, mas não para esse lugar. Que estou ansiosa em conhecer.
Bora Bora nunca esteve em minha lista de sonhos. Não era pagável. Mas me lembro de fotos que vi uma vez no passado. Acho que minha mãe teve um dos seus casamentos aqui. Um dos que não fui convidada!
Fico sentada na cama, a espera de Theodor, mas depois do que parece uma eternidade, ele não volta. Então, deixo as peças de roupa na cama e afasto o dossel. Saio da cama. Minhas pernas tremem por um momento, mas consigo me firmar. Olho em volta, o lugar é bonito. Especialmente lá fora, onde consigo ver pelo vidro da parede. Aliás, janela. Olhando de perto agora, percebo isso.
Grandes janelas, com uma vista fantástica! A cama está mais alta que o resto do cômodo, três degraus separam ela. Desço eles e me surpreendo por encontrar a mesinha de centro sobre um piso de vidro, que dá... No mar.
Volto para a cama e pego minha calça, a vestindo apressada e então procuro a saída. Não penso duas vezes antes de me aventurar para o lado de fora. E é... Perfeito!
Theo nunca para de me surpreender.
Estou em uma ponte, que liga várias cabanas sobre a água. Olho para trás, para perceber que acabei de sair de uma delas. Só que as outras não têm janelas tão grandes. São de madeira e o telhado parece palha, mas não acho que seja isso. Quero tocar e descobrir qual é o material. Mas, me distraio ao olhar além disso, para o céu azul e o mar, de água cristalina, abaixo de mim. Posso ver cardumes nadando há uns 2 metros abaixo.
Estou no paraíso!
Tenho vontade de abrir os braços e girar, como uma criança. Mas com a sorte que tenho, alguém acabaria vendo, ou eu caindo...
Seguro na borda de segurança, ela é de corda e ligada a várias toras de madeira erguidas ao longo da ponte. Me debruço um pouco, na tentativa de acompanhar um cardume que vai para baixo da madeira.
O calor é quase insuportável, ainda mais com essas roupas que uso. Mas a brisa que bagunça meu cabelo é uma delícia.
Fico tão distraída com minha tentativa de ver o cardume, que quase tenho um ataque quando mãos firmes seguram minha cintura. Sinto-me em pânico por um instante. Sendo levada para as lembranças do homem na escada.
– ”Ok”, não é? Mulher teimosa!
Relaxo ao reconhecer a voz. Deixo minha coluna reta e tento me virar, mas Theo passa seus braços sobre minha barriga, me prendendo nessa posição. Me aperta forte contra ele e descansa sua cabeça em meu ombro. E tudo que posso fazer é aproveitar. A vista, a companhia... O contato.
– Esse lugar é incrível, Theo! — Minha voz sai tão animada, que até mesmo duvido que estava chorando momentos antes. Não parece certo derrubar lágrimas nesse lugar lindo e tão repleto de luz. A boa energia é contagiante e isso provavelmente tem a ver com a natureza. É inspirador!
– Eu sabia que ia gostar. — Ele diz em meu ouvido e então seus lábios capturam o lóbulo da minha orelha, mordiscando e então soltando logo em seguida.
O arrepio que atravessa meu corpo é delicioso. E desejo que ele repita.
Ele volta a segurar em minha cintura e me gira, até que estamos de frente, nos estudando. Ele parece melhor, no que diz respeito ao humor. Mas seu olhar vacila quando encara o lado dolorido do meu rosto.
Ainda não me olhei no espelho, mas sei que quando caí na escada me machuquei. Só não sei se quero olhar. Não quero estragar tudo isso com um momento de crise. E tenho quase certeza que vai acontecer exatamente isso quando me ver.
– Está feio? — Pergunto, em dúvida de como proceder.
– Está chamativo. — Ele levanta sua mão e faz menção de encostar no lado ferido, mas não me toca. Isso levanta certo pavor em mim.
– Eu preciso ver.
Me solto dele e volto para a cabana de que saí. Sinto-o em meu encalço, mas ele não me impede. Olho em volta, atrás de um espelho, mas não encontro. Então noto duas portas. Vou para a que Theo havia entrado antes.
O ar foge de mim quando encontro uma banheira cheia no outro cômodo, de frente para outra janela grande, que vai do chão ao teto e deixa a mais bela vista a disposição. Então vejo o espelho ao lado de outra porta. Ele é grande, e poderei me ver de corpo inteiro. Mas a dúvida toma conta. Às vezes é melhor viver na ignorância o máximo que dá...
– Não está mal... — Theo tem suas mãos em mim de novo e me leva em direção ao espelho.
Olho para baixo quando fico de frente. Preciso de um momento para me preparar. Respiro fundo e então levanto os olhos.
“Não está mal” é um elogio falso.
Meu rosto está tão pálido que tenho dúvidas se estou mesmo viva. Pareço mais com um cadáver. Pele branca demais, olheiras escuras demais, e um hematoma infernal do lado direito, que começa em meu queixo e sobe pela lateral do meu rosto até a testa, onde há uma gaze, que esconde sabe-se lá o quê!
O que aquele homem não teria feito se conseguisse me pegar? E se estivesse armado? Eu não parei para pensar nisso. Só precisava escapar.
– Isso vai passar. — Theo está ao meu lado, abraçando minha barriga de novo e deixando sua cabeça em meu ombro. Seria uma visão incrível se eu não estivesse aos pedaços.
Nem meu cabelo bagunçado consegue me chamar atenção agora. Tudo que penso é nas coisas ruins que poderia ter me acontecido. E elas gelam até minha alma.
– Ele foi preso? — Finalmente decido falar sobre o tema que tanto me desespera.
Não conversei com a polícia. Não sei o que aconteceu depois que Theo chegou.
– Não, ele escapou. A polícia acha que é uma gangue se aproveitando das casas vazias pelo feriado, as luzes apagadas podem ter dado essa ideia. O policial que falou comigo, disse que havia vários chamados como aquele, então, ele nem esperou pelo seu depoimento. Apenas pediu que ligasse caso você fosse capaz de identificar o agressor.
Em outras palavras: Eles não deram a mínima.
– Ele estava de capuz... Theo... — Ele me olha pelo espelho e é tão lindo. Mas sua beleza não é capaz de afastar meus medos. — E se esse homem voltar? E se ele for agora que a casa está vazia? Ou quando eu voltar...
– Ele não vai. Ninguém vai se aproximar de você assim de novo. — Suas palavras são duras e seu rosto está sério. — Eu vou cuidar de você.
Cuidar de mim... Até se cansar? Eleonor me ensinou que a promessa de homens poderosos nada significa. E eu nunca poderia pedir isso ao Theo. Ele tem sido um bom amigo, se comprometer dessa forma só vai afastá-lo. Ou aproximar demais. Tornando essa coisa que há entre nós, uma bagunça.
– Obrigada... Mas, eu não quero te incomodar. Você não precisa se sentir...
– Fica quieta Diana! — Ele me vira, fazendo minha cabeça girar. — Isso é tudo sua culpa pra começo de conversa! — Ele está realmente... Furioso. — Tudo que você precisava dizer era sim e... — Ele se afasta de mim. — Eu não sei o que faria se não chegasse a tempo!
E nem eu. Mas há algo que me incomoda mais do que pensar sobre o que teria acontecido...
– Você se sente culpado... É por isso que me trouxe. — Digo meus pensamentos em voz alta.
– Não faça isso... — Ele volta a se aproximar e segura meu rosto com cuidado. — Eu sempre te quis aqui. Não distorça isso, Diana. Eu quero cuidar de você, não porque me sinto culpado, ou em dívida.
Sinto-me nua sob seu olhar tão intenso.
– Não discuta comigo, mulher teimosa... — Ele me oferece um sorriso, que suaviza a tensão que se criou. Não é legal não ter a versão sorridente e charmosa de Theo. — Para o banho... — Muda de assunto e só posso ficar grata.
Relaxo e o encaro.
– Sozinha, certo? — Pergunto, não querendo deixar as coisas desconfortáveis com ele invadindo o banheiro...
E o sorriso malicioso está de volta.
– Você está ferida, mulher! Precisa de ajuda, ordens médicas!
– E você virou médico agora, foi?
– Definitivamente!
Ficamos quietos de novo. As coisas estão dessa forma agora. A cada palavra, cada gracejo, um momento de silêncio constrangedor se forma logo em seguida. Eu tento me manter e ele tenta não pressionar. Estamos sensíveis com toda essa situação.
– Você toma seu banho, eu cuido do café. — Ele acrescenta.
– Ok...
Então aproxima seus lábios, mas não toca os meus, ergue a cabeça e beija a minha testa.
– Estarei de volta logo.
E então ele se vai. Me deixando em dúvida se estamos bem ou não...
Fale com o autor