À flor da pele
59 Fogo amigo
Notas iniciais
Theodor
Acho que perdi a hora. Meu celular acabou ficando em outro cômodo. E sem celular, sem despertador.
Ligo a TV e verifico às horas na tela. Realmente, atrasado. Já são dez horas e Diana dorme profundamente ainda. O fato dessa sala não ter janelas atrapalha um pouco na hora de levantar. Diana tem sido a única coisa que me faz acordar no horário nas últimas semanas.
Peguei o hábito de dormir aqui e, se não fosse o conhecimento de que ela estaria todos os dias sentada no parque, só me esperando passar, não me importaria de ter mais “cinco” minutos.
Mas hoje... Tudo que eu preciso está aqui, em minhas mãos. Então, por que levantar? Trabalho? Odeio aquela empresa e Eliot pode perfeitamente se virar sem mim por um dia ou dois. Ou uma semana, talvez...
Dia está tão quente por baixo da coberta, nossas pernas estão entrelaçadas, e ela mantém suas mãos abertas, descansando em meu peito. Parece tão serena, tão em paz. Definitivamente, hoje não é um bom dia para trabalhar.
Estou tirando o dia de folga!
Só preciso avisar Alysha, o cão de guarda do meu pai, que não vou hoje. Assim ela pode cancelar minhas reuniões. Acho que tinha duas hoje de tarde. E não poderia ligar menos pra isso...
Com cuidado, e muito lentamente, tento me afastar do corpo quente de Dia. Até consigo desembaraçar nossas pernas, mas quando me sento, ela abre os olhos.
— Hey...— Diz sonolenta.
— Bom-dia, linda. Desculpa te acordar.
Levanto-me e afofo a coberta ao seu redor.
— Volto logo. — Beijo sua testa.
Não perco seus olhos acompanhando meu corpo. Da cintura para baixo. Gosto tanto do sentimento que isso proporciona, que decido manter a nudez. Ignoro o roupão no braço do sofá e saio da sala. Agradeço mentalmente por ter lembrado de ligar os aquecedores ontem. A visão do céu cinza atrás do vidro da sala denuncia que hoje será mais um dia frio. E o inverno em São Francisco não é fácil.
Passo pela cozinha primeiro, onde pedi a pizza ontem.
Nada de celular.
Tento puxar em minha mente o que fiz depois de pedir a pizza... Ah, sim! Escovei os dentes para poder beijar a delícia que está na minha sala.
Subo e vou para meu quarto. Não preciso nem procurar. O maldito está tocando, então apenas sigo o barulho. O encontro na pia do banheiro.
Verifico a chamada.
Número desconhecido.
O que significa que só pode ser uma pessoa. Ela liga todos os dias. Cada vez de um número diferente. Acho que acredita que assim irei atender. Não mesmo!
Preciso trocar esse número, mas são tantos contatos para avisar. Preferia apenas que essa pessoa me deixasse em paz.
Verifico as chamadas perdidas. São muitas. Como não tem sinal na ilha, tudo se acumulou. Tenho chamadas de quinta-feira. E várias mensagens. As mensagens são de um número conhecido. Aparentemente, ela não tem problema que eu saiba que as mensagens são dela. Só não sei o que a faz pensar que eu as leio...
Dou uma rápida passada pelos nomes. São todas dela, então as seleciono e deleto. Encontro uma camiseta e uma calça de moletom na bagunça das caixas, então vou para o escritório que fiz no quarto da frente.
Escritório, totalmente modo de dizer. Tem uma escrivaninha, meu notebook, carregador de celular, uma cadeira e muitas caixas. A casa toda está repleta de caixas. Não tive vontade de desempacotar nada. As minhas roupas só foram guardadas antes porque Jane não tinha o que fazer.
Ainda não decidi o que fazer com o apartamento. Eu só vi uma oportunidade de tirar isso do meu pai e o fiz. Sei o quanto ele gosta desse lugar. Então eu o tirei dele.
Foi prazeroso no começo. Agora? Nem tanto. Tenho recordações ruins desse lugar. De cada cômodo. Seja com ele. Ou com ela. Esse lugar é um lembrete de quão baixo meu pai me forçou a ir. E também de quão hipócrita eu sou por culpá-lo por isso. Mas acho que culpar os outros faz parte da natureza humana, logo, por que eu deveria me importar?
Me acomodo na cadeira em frente à mesa. Ligo para o escritório e Alysha atende no segundo toque, com toda arrogância que seu caso com meu pai permite. Ainda demitirei essa vadia um dia. Só preciso esperar isso tudo acabar.
A última vez que perguntei sobre ele para minha avó, ela contou que ele estava lutando contra o câncer, mas que sua personalidade não estava ajudando. Constantemente ele falava sobre desistir. O que não me surpreende. É o tipo de homem que gosta de coisas fáceis. Se complica, ele se livra. Para o azar dele, sua doença não é livrável.
— Cancele minhas reuniões pelo resto do dia, e peça para Eliot assumir meus compromissos de amanhã cedo.
— Como é que é? — Ela usa seu tom mais petulante. Adora me provocar. Acho que espera que eu perca a paciência com ela, para ter o que usar contra mim. Eliot é o que a segura na empresa ainda. Ele diz que meu pai pediu isso a ele pessoalmente. E que, apesar de ele ser difícil, ainda são amigos. Então ele a mantém.
Mulherzinha insuportável!
— Exatamente o que ouviu. Ou será que adquiriu algum problema no ouvido nesse feriado? — Finjo preocupação. — Infecção, Alysha? — A chamo pelo nome, porque ela mesma me pediu quando nos conhecemos. Acho que se arrepende até hoje por isso. Parece que somos amigos dessa forma. Ok, não parece. Não mesmo! Mas o faço só para provocá-la. Ver seu rosto se contorcer quando me ouve dizendo seu nome. E pior, quando eu digo da forma arrastada que ela tanto odeia. — Precisa de alguns dias para tratamento? Eu sei como essa mudança de clima é prejudicial à saúde. — Tento parecer gentil e preocupado.
Não posso dizer nada a ela, sei que no dia que decidir responder, ela irá usar contra mim. E vamos combinar que as leis estão sempre do lado delas. Mas isso não significa que não posso cutucá-la a minha maneira.
E faço com prazer.
— Estou ótima, obrigada. — As palavras saem trêmulas. Ela deve estar com os punhos fechados, morrendo de raiva. — Mas acho que seu pai... — E lá vem...
— Preciso ir. — A corto. — Não se esqueça de avisar Eliot. E obrigado, Alysha, você é demais.
Desligo e começo a rir.
— Vadia! — Sussurro para mim mesmo, como se as palavras fossem uma espécie de libertação momentânea.
Saio do escritório e deixo o celular no silencioso. Não quero ninguém me incomodando. Ou a Diana. Estou prestes a ir para o andar de baixo, mas então escuto um baque no meu quarto. Vou até lá e abro a porta.
Diana está de joelhos no chão, recolhendo o conteúdo de uma necessaire. A bunda está empinada em minha direção, me lembrando de como a noite foi boa. Mas, infelizmente, ela está com roupas dessa vez.
— Por que está vestida? — Pergunto logo, soando um pouquinho mais grosso do que gostaria.
O jeans que usa fica bem nela, e é o mesmo que eu molhei ontem e tive que colocar na secadora antes de dormir. Ou ela não pararia de reclamar. A camisa de botões que ela usa é, infelizmente, dela. Não que fique feia. Mas há algo sobre ela usar minhas roupas que me deixa animado. Talvez seja o fato dela parecer tão... Minha.
— Ah... — Ela me olha. As bochechas, como sempre, coradas. Mas acho que dessa vez a temperatura baixa tem mais a ver com isso que qualquer outra coisa. Está agradável aqui dentro, mas o frio se faz presente. — Você está atrasado para o trabalho... Por minha causa, imagino. Vou terminar de me arrumar rapidinho e...
— Não estou. — Minto. — Não gosto de ir na empresa depois de uma viagem tão puxada. Prefiro tirar algum tempo para me acertar. — Acrescento à mentira.
— Oh... — Ela termina de guardar as coisas que caíram e fica em pé. — Isso é bom. Eu... — Está completamente perdida. E meu lado mau está se deliciando com isso. — Preciso ir para casa.
Cruzo os braços e me reclino ainda mais contra a parede. Totalmente relaxado.
— Pensei que estava de férias. E morasse sozinha.
Ela morde o lábio, segura um sorriso e vejo o vermelho ficar mais forte e se espalhar. Isso sim é totalmente adorável. Claro que, também me lembra cenas de desenho animado... Vou ficar com a primeira opção.
— O que você tem em mente? — Me pergunta, um pouco mais confiante.
— Eu não sei, talvez testar seus dotes culinários?
Um sorriso se abre, grande e brilhante.
— Com doces?
— Com certeza, mulher!
Ela joga a cabeça para trás enquanto um riso gostoso escapa de seus lábios.
— Talvez eu tenha um truque ou dois na manga.
— É o suficiente! — Desencosto da parede e abro os braços. Ela vem prontamente para mim e me abraça.
— Bom-dia...— Ela sussurra. Os cabelos estão molhados, e fico um pouco decepcionado por perder a hora do banho. Sinto seu hálito de dente escovado. O que me lembra que ainda não escovei os meus, e para Diana isso, provavelmente, significa muito.
— Dia! — Beijo sua testa – Vou escovar os dentes e colocar uma roupa decente. Então podemos ir ao mercado e providenciar para testarmos você.
— Testar?
— Evidente, mulher, que tipo de homem eu seria se me comprometesse com uma mulher que não sabe nem me fazer uma torta?
Seu sorriso murcha.
— Eu não sei fazer tortas...
Oh!
— Estou brincando, Diana...
Então um sorriso sapeca aparece.
— Eu também!
Estapeio sua bunda, o que a faz dar um gritinho abafado.
— Mulher, terrível!
***
Eu menti. Nada de roupas decentes. Apenas acrescentei um casaco e pronto. Perfeito para um dia cheio de nada para fazer. E sem celular. Fiz questão de o esquecer dentro de uma caixa com minhas roupas. Hoje é um daqueles dias que nada me interessa. A não ser ela.
Por falta de roupas quentes, a fiz colocar uma blusa de lã minha, o que a fez parecer pequena. Andamos as duas quadras, no sentido oposto que ela mora, de mãos dadas e conversando sobre qualquer coisa.
No caminho, olho para o parque, e não vejo Baltazar. Se Meg ainda estiver em casa, ele não aparecerá tão cedo. O que me lembra, que preciso vê-la entre hoje e amanhã. Estou ansioso por contar as novidades. Ela não vai acreditar que tenho uma namorada e quando o fizer, terá muitas piadas engatilhadas.
Os momentos com Meg são excelentes para o coração. Nunca conheci pessoa mais gentil e compassiva. Nem mesmo minha Dia.
No mercado, eu vejo Simon de relance.
Ele sempre está por perto. Mesmo que Amy esteja comigo. Mas seu trabalho é um pouco diferente. Ele não é um segurança exatamente. Eu o pago para dirigir quando Amy está indisponível e para, principalmente, afastar os paparazzi. Eles são como uma praga. Estão por todas as partes, e nem mesmo sou famoso, de fato. Mas nesse último mês, o escândalo amoroso da minha mãe voltou a ser manchete. Se passou tantos anos, mas como Robert Blake está doente, é o momento perfeito para botar sal na ferida e vender.
Pouco importa se eu tenho os cabelos, o nariz, ou os olhos do meu pai. A pergunta que mais aparece nessas manchetes é sempre a mesma. Seria Theodor herdeiro, sanguíneo, de Robert Blake?
Quando mais novo, isso me incomodava muito. Hoje em dia aprendi que não devo ler revistas. Ou colunas de fofocas do jornal. Aí, certamente, incomoda bem menos.
— Você gosta de cookies? — Diana me pergunta quando estamos no corredor dos chocolates.
Quem poderia imaginar que eu estaria, em plena segunda-feira, fazendo algo tão trivial como compras para casa. Com a namorada.
— Sim, com muitas gotas de chocolate.
— Continuo sem entender esses gominhos...— Sussurra, me fazendo sorrir.
É preciso muito exercício para manter essa barriga. E nessas últimas semanas, acabei me descuidando.
— Eu gosto de cerejas. E chocolate. E creme. Tudo junto.
Ela suspira.
— Esse é você sugerindo que eu faça um bolo?
Na verdade era um cheescake. Mas bolo está ótimo!
Apenas sorrio para ela.
— Theo... — Ela começa, mas para. Suspira e começa a andar pelo corredor, pegando variedades de chocolates.
Empurro o carrinho, ao lado dela, curioso pelas escolhas e tentando adivinhar o que é que vai sair.
Quando chegamos na parte de verduras, ela para e me olha séria.
— Mas você precisa comer coisa saudáveis, se vai se afundar em tanto açúcar assim.
— Concordo.
Uma sobrancelha fina e bem delineada se ergue.
— Eu adoro vegetais. — Digo. E é verdade. O mundo não e feito só de açúcar, por favor!— E carne! Um suculento bife mal passado, com salada e arroz com vegetais
Ela suspira e sorri.
— Você é uma coisa, Theo.
— Isso é tipo um elogio?
Ela dá de ombros.
Acabamos nossas compras e quando saímos do mercado, Simon está esperando, com a porta do carro aberta. Eficiente. O que eu posso dizer?
Colocamos as compras, mas não entramos. O mando deixar em casa e aproveito as duas quadras de volta em tão boa companhia.
— Preciso comprar outro celular. — Ela me diz quando estamos na frente do prédio. — Acho que o meu não sobreviveu, não?
Nego.
— Você conseguiu desmontá-lo totalmente. Nem mesmo sei o lugar de todas as peças.
Não conto a ela que eu acabei pisando em cima e quebrando de vez, quando fui ao seu encontro.
— Mas, de qualquer forma. Não precisa fazer isso agora. — Até porque pedi a Amy para fazê-lo assim que voltássemos, mas não compartilho isso. Não estou bem certo sobre a reação dela sobre ganhar coisas assim. E ainda tem a casa dela... Ela simplesmente vai pirar quando ver!
— Mas...
— Amanhã. Parece bom assim?
Ela concorda, mesmo não parecendo muito certa.
Subimos de elevador até a cobertura, então abro a porta e tiro meu casaco. Sinto falta dos móveis, não há nada para pendurar.
— Você vai para cozinha, Mulher... — Abraço sua cintura e aproximo nossos lábios.
— Você precisa me soltar para isso...
— Eu sei...— Toco seus lábios com os meus, eles são macios e convidativos.
Seus braços vão atrás de meu pescoço e ela aprofunda o beijo. Ela.
É tão sexy quando a iniciativa vem Diana.
Talvez o almoço, ou será café? Possa esperar um pouco mais...
— Agora eu entendi! — A voz vem de trás de mim e meu corpo todo fico tenso. Maldita hora!— Faltando ao trabalho, não atendendo o celular. E o que diabos aconteceu com sua casa? Cadê os móveis?
Me viro para encarar uma das poucas pessoas no mundo que consegue acabar com meu humor só em “aparecer”.
Tyler tem um sorriso brilhante, que se apaga assim que ele consegue ver com clareza Diana atrás de mim.
Até penso em perguntar o porquê dele não estar no trabalho. Mas deixo pra lá. Pela sua cara, ele não vai responder.
Vejo o rosto dele ficar sério, sua postura endurecer e os olhos queimarem quando me encara de novo.
— Seu filho da puta!
Tyler
Não encontrar Diana em casa não é o fim do mundo. Mas ver as mudanças na casa, ela não responder ao celular, e nem ao telefone residencial, me deixa preocupado. Quando tento usar a chave, que tirei copia indevidamente, ela não funciona. Isso é chocante. Ela está com raiva?
Diana não tem direito de ter raiva, faz favor, hein!
Espero por quase uma hora, já passa da hora do almoço e meu estômago está reclamando.
Ligo para Terry, atrás de informação, que toda animada, me pergunta como foi “nossa” viagem. E se Dia gostou... Então conto que ela não foi. Quase deixo escapar que é porque ela é uma maluca que precisa de ajuda, mas vou manter isso para mim por enquanto. Não deveria porque, depois de contar, recebo um sermão. E isso é o bastante para me fazer mandá-la se catar e desligar.
Posso até não dizer claramente, mas não é nenhum mistério que Diana não bate bem. Especialmente para Terry, que viveu alguns dias com ela.
Me senti culpado por ir sem Diana, mas tive um ponto para fazer isso, e por mais chocante que pareça, ele é todo baseado em amor.
Depois de Terry, ligo para Julie. Pergunto se Dia ainda está lá. Quero dar a entender que eu sei seu paradeiro, como um bom amigo deve saber! Mas só a preocupo.
Julie diz que eu deveria estar com Diana no feriado. Então sou obrigado a rir e dizer que estou brincando. Que só liguei para saber se ela virá no natal.
Julie não é chata. É só... Mimada demais. O que a torna... Ok, super chata!
Então ela me responde, e a coisa desanda...
— Sim, com Liam e a mamãe. Diana não te avisou? — Resmunga.
Sinto o chão e desfazer embaixo dos meus pés.
— Claro que avisou, só queria confirmar. Estou fazendo o planejamento, sabe? — Dar o braço a torcer nunca fez meu estilo. E não será agora, no meio do furacão, que eu começarei.
Então, Julie confirma que virá, e o mau humor se apodera de mim. Onde diabos essa maluca se enfiou? E por que não me falou sobre Eleonor? Desde quando guardamos segredos?
Tá certo que deixei a coisa com Jane meio por baixo dos panos, mas esconder que Lúcifer virá... Passou dos limites!
Então, já de saco cheio do mundo, parto em direção ao prédio do Theo. Ele odeia que eu vou lá quando ele não está. Bem, na verdade, mesmo quando está. Mas estamos tentando nos acertar, pela Jane. Então ele meio que tem sido, ou tentado, ser simpático.
Mesmo assim, ligo para o celular dele, para avisar que vou dar um tempo lá, enquanto espero Diana dar o ar da graça. Mas ele não atende. Ligo para o escritório, Alysha diz que ele cancelou os compromissos e não foi. Talvez não tenha chegado de Bora Bora, ou teve que ir verificar algum dos outros hotéis. Isso acontece com frequência.
Converso com Alysha por um tempo, pergunto sobre sua família e o feriado. Ela conta que foi tranquilo e ficou em São Francisco. O que eu sei que é mentira, papai me disse que ela estava com Robert no feriado.
Ela não é uma mulher ruim. Um pouco amargurada. Anos como amante do meu padrinho não lhe fizeram bem. Mas, enquanto as outras se preocupam em como suas vidas econômicas vão ficar com a doença dele, ela e a única que se mostrou interessada no homem realmente. Em seu estado e sua recuperação e não no dinheiro. Não apenas, pelo menos.
O porteiro do prédio de Theodor diz que ele saiu, então subo sem me incomodar em encontrar alguma coisa. Tipo, alguma coisa sexual acontecendo! Não que me incomode se encontrar...
Mas, apesar de minha mente estar preparada para tudo, me assusta ao entrar... Está vazio!
Será que o cara matou alguém no fim de semana e está desaparecendo para não ser preso? Porra, isso iria acabar com a Jane.
Ando pelo apartamento todo, atrás dos móveis. As malas da viagem ainda estão arrumadas no quarto. E tem uma roxa, que me parece familiar, mas deve ser de Amy.
Desço e checo a sala de TV, que está ok, e a cozinha também. E tem sacolas na mesa. Sacolas de mercado. Ele não deve estar fugindo tão desesperado se tem tempo de encher os armários.
Sem pensar muito, vasculho a cozinha e acho o resto de uma pizza na geladeira. Então ouço a porta e vozes. Poderia até ignorar e matar minha fome antes, mas... Ele está com uma mulher. Consigo ouvir o riso feminino.
Minha curiosidade nunca foi algo sob controle e não deixa a desejar nesse momento. Quase corro para encontrá-los.
Volto para sala e vejo Theo abraçado com uma moça, que não consigo ver o rosto.
— Agora eu entendi! — Os interrompo, muito feliz pelo feito. Tenho um certo prazer secreto em provocá-lo.– Faltando ao trabalho, não atendendo o celular. E o que diabos aconteceu com sua casa? Cadê os moveis?
Ele se vira para mim e então eu vejo o rosto de sua companhia.
A pele branquinha está bronzeada. O cabelo solto, enrolado e jogado de lado, escondendo uma parte de seu rosto. Mas sim, definitivamente, é a Diana. A minha Diana.
Acho que nunca senti tanta raiva em minha vida. Ou talvez sim. Pela Eleonor. Mas o que me domina, é um ódio sem fim. Um sentimento de traição e desapontamento.
Minha garota. A que eu cuidei, dediquei meu tempo e minha atenção. E ele se aproveita dela.
— Seu filho da puta! — Escapa, quase em um urro.
Só não o ataco, porque sei que levarei a pior. Sou da paz, faço amor, não faço guerra! Sem violência! Mas ele bem que merecia apanhar agora. Posso escutar em minha mente, todos os nomes feios que Robert usa para descrevê-lo e só posso concordar nesse momento. Em pensar que o defendi tanta vezes...
Theodor é um desgraçado quando se trata de mulheres. Não há respeito, não há nada além de um cara se aproveitando. E ele escolheu a minha garota para fazer isso. O meu anjo.
— Diana... Porra! Cinco dias, vadia! Foi tudo o que te deixei só e você corre para ele? — Percebo que estou gritando, tendo um piti estilo minha amiga quando solta o lado maluca.
— Oi pra você também, Tyler. — Theodor se mede, como se não tivesse nada de errado na cena que se desenrola. Só me deixa mais puto.
Respiro fundo, obrigando-me a manter algum controle.
Theo passa o braço sobre os ombros dela, a puxando para perto. Esse único movimento me leva para borda de novo. Como ele se atreve a tocá-la?
Maldita hora que Jane começou com essa frescura de ciúmes! Se não fosse por ela, eles nunca teriam se conhecido!
— Eu quero as minhas chaves de volta. — Ele diz, tranquilamente.
Não existe coisa que me irrita mais que ser ignorado. E é exatamente isso que ele está fazendo. E se não fosse pelo rosto pálido de Diana, eu diria que ela também me ignora. Mas no seu caso, acho que está em choque mesmo.
Vadia! Agindo pelas minhas costas.
— Vocês estão brincando. Tem que ser isso.
Dou alguns passos até eles.
— Estamos namorando. — Theo solta, sorrindo. É quase como um soco.
O aperto que sinto no peito machuca. Eu sei bem que em breve serei o único a recolher todos os cacos dela, quando ele partir seu coração. Então, como ele espera, exatamente, que eu receba essa notícia?
Será que esperam um "Parabéns"?
Em todos esses anos que conheço Theo, uma coisa é certa. Theodor Blake não namora. É um mal que ele deve ter herdado do seu pai. Depois que meu padrinho foi traído, se tornou um cafajeste. E o filho seguiu cada passo.
— Diana... Isso não é para você, meu anjo. — Digo, encarando seus olhos marejados. Eu poderia forçá-la. Gritar com ela. Pressioná-la até que chegue ao limite, e mostre ao Theo a bomba relógio que é. E eu realmente quero fazer isso. Mas me seguro. Me obrigo a ser racional. Mas com muito custo.
— Vou te levar para casa. — Digo a ela, me segurando ao ultimo fio de controle.
— Ela não vai com você. Na verdade, você vai sair. Tipo, agora.
Ele a solta e se aproxima. Dou, automaticamente, um passo para trás.
Hello, sou totalmente contra brigas, especialmente se eu for uma das partes envolvidas.
— Ela vem comigo, sim! Você passou dos limites, Theo! Eu pedi para deixá-la em paz! Ou será que é por isso que se aproximou? Você quer me acertar, através dela, não é?
Theo fecha os olhos. Está bravo. Mas bravo é melhor que zangado. Eu sei bem disso.
— O que eu faço, com quem faço, onde faço, não te interessa, Tyler. Agora você vai sair por aquela porta – Ele aponta para atrás dele. — E não vai aparecer aqui de novo sem convite. A minha vida, Tyler, não é um problema seu.
Ao inferno que não! Especialmente quando ele acha que minha menina é como as vagabundas que ele sai.
— Diana – Contorno ele, tentando me aproximar dela.
— É melhor você ir para casa, Ty... — Ela me diz as palavras tão gentilmente, mas soa como uma facada. E ai já era. Não me seguro mais.
Um traço da minha personalidade, um traço bem marcante, é a impulsividade. O desejo de machucar quando me sinto ferido é carro chefe de minhas ações.
Preparo o veneno, pronto a descarregar em uma das pessoas que mais amo no mundo, porque ela me feriu. E eu tenho consciência que quando sair, não terá conserto. Mas a necessidade de revidar me domina.
— Eu todo preocupado com você, te procurando, quase indo à polícia... E você aqui! — Preparar — Depois que deixei claro para não se meter com ele. — Apontar— O que você tem na cabeça, Diana? — Olho em seus olhos, querendo ver o golpe atingindo-a. Fogo! — Esse cara come a própria madrasta.
A maldição que Theodor solta me arrepia, sinto um certo prazer doentio por saber que o acertei também. Ele não esperava por essa.
Ouço os passos zangados, pés batendo no piso, até que um aperto em meu ombro me lança para longe de Diana.
— Você é doente, Tyler! — Ele me diz, não mais bravo. Zangado agora.
— Diz o cara que come a mulher do pai doente.
Ele vem para cima de mim e por pouco consigo escapar do soco, quando uso as mãos para tentar pará-lo.
— Não bata no meu rosto, seu animal! — Grito.
— Dê o fora daqui, agora! Ou juro que seu precioso rosto vai precisar de muitas cirurgias de reconstrução quando eu acabar com você.
E eu o faço. Me viro, atirando a porra da chave, que ele deu a Jane, no chão, diante de seus pés. E então vou embora, mas não sem antes encarar minha “amiga”.
Me arrependo assim que meus olhos pousam nos seus.
Eleonor é craque em causar dor à Diana. Eu deveria ser quem a consola, não pior que a mãe abusiva.
Mas agora já era. Theodor dá o empurrão que faltava para que eu esteja fora, então bate a porta em minha cara.
— O que foi que eu fiz...?
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