À beira mar

9 Vamos ver quem chega primeiro?


Estacionei o carro e respirei fundo, tentando me acalmar. Eu estava uma pilha de nervos e se aparecesse deste jeito, Sarah com certeza me internaria em uma clínica psiquiátrica. Entrei na casa em silêncio, mas não a vi em lugar nenhum, o que me fez suspirar de alívio. Senti uma dor de cabeça súbita que demorou a passar, mas acalmou eventualmente, deixando-me um pouco tonta. Então decidi sair pela varanda de trás e ir em direção à praia, me recompor antes de procurar Sarah para me despedir e voltar para a minha casa. Em algumas horas eu estaria dormindo no meu próprio apartamento, longe de toda esta loucura, finalmente em paz.

A noite já caíra, ainda mais escura pelas nuvens pesadas de chuva que se concentravam sobre minha cabeça, e eu estremeci com o vento, pensando em voltar para pegar um casaco. O mar estava agitado, com ondas raivosas batendo contra a plataforma em uma contínua tentativa de derrubá-la. Por algum motivo, eu pensei que a plataforma era um bom lugar para se estar agora. Raios e trovões começaram a dominar o céu, em uma batalha de som e luz que não prometia nenhum vencedor, apenas destruição.

Quando alcancei a escada, me lembrei de Marie, uma colega de escritório. Ela sempre fazia perguntas inusitadas para todos, sempre tentando encontrar um significado oculto nos números, nas cores, nos signos e nos sonhos. Lembro-me de, um dia, ser o alvo de uma de suas perguntas excêntricas, quando ela me questionou qual tinha sido meu pior pesadelo. Penso que, se ela me fizesse esta pergunta hoje, eu contaria sobre como fui até a praia para clarear a minha mente, decidindo caminhar pela plataforma dos pescadores, mar à dentro. Então, eu vejo Peter, meu ex namorado morto que, de alguma forma, está aqui para me matar por tê-lo deixado sozinho, tão sozinho que ele se suicidara. Eu contaria sobre como, por um momento, estávamos um em cada ponta da plataforma, e então ele acenou para mim, pouco antes de começar a correr em minha direção. Marie balançaria a cabeça em compreensão e começaria a falar sobre como eu estava fugindo de alguma responsabilidade, mas que eu teria uma surpresa amorosa na próxima semana, por conta do aceno dele. Eu a interromperia e diria “sabe qual foi a pior parte deste pesadelo?”. Ela negaria, sempre ansiosa por mais informações, e eu a olharia nos olhos por alguns segundos, apenas o suficiente para deixá-la desconfortável. “A pior parte foi perceber que eu não estava dormindo”.

“Ele está aqui, Jane”, as palavras me pegaram de surpresa.

Peter está aqui.

Eu corri o mais rápido que pude, forçando meu corpo a continuar mesmo quando meus pulmões pareciam morrer e minhas pernas pareciam estar em chamas. Entrei na casa em um rompante, minha respiração tão alta que poderia ser ouvida dos céus, trancando a porta.

— Sarah! Sarah, nós precisamos sair daqui! Sarah! – eu gritava, tentando encontrá-la. Foi quando eu entrei na sala.

Havia flores no chão, as mesmas que Peter me trouxera no dia em que fora preso, jogadas no chão exatamente como ficaram naquele dia. A única diferença é que, desta vez, não era vinho que as encharcavam: era sangue. Parcialmente escondida pela mesa, estava a fonte de todo aquele sangue. Sarah, com a garganta cortada e os olhos vazios, regando as flores com sua própria vida. No chão, ao lado dela, escrito com aquela tinta vermelha maligna, com a caligrafia que eu conhecia bem, as palavras: “Eu estou aqui”.

Procurei meu celular e percebi que não havia sinal para que eu pudesse ligar para alguém, e nem mesmo sinal de internet. Eu comecei a entrar em pânico e abri o contato de Carol, enviando uma mensagem de áudio para ela.

— Carol, eu sei que isso vai parecer loucura, mas eu preciso que você me escute. – eu falava com o telefone, tentando encontrar minhas chaves e percebendo que elas deviam ter caído na praia, então comecei a procurar as chaves do carro de Sarah. – Peter está aqui. Eu não sei como, e nem entendo direito o porquê, mas ele está aqui. Está me assombrando há dias e... ah, meu Deus, Carol... eu acho que ele quer me matar. Por isso me escute bem: mande ajuda. Eu preciso de ajuda, Carol! Socorro!

Quando decidi parar de procurar pelas malditas chaves e correr pela rua até encontrar alguém, a casa inteira foi mergulhada em escuridão. Todas as luzes se apagaram e até a tempestade se calou por alguns segundos, como se prendesse a respiração junto comigo. A única fonte de luz era fraca e azulada, proveniente do tablet. E no silêncio opressor que se abateu sobre a casa, o som da notificação pareceu ser a única coisa que foi ouvida em muitos quilômetros.

“Todas as câmeras, inclusive os alarmes, tem uma bateria de emergência. Então, em caso de queda de energia, nós ainda temos algumas horas de segurança”, Sarah dissera.

“A garagem detectou um visitante”, dizia a notificação no canto direito da tela.

“A ‘lado esquerdo’ detectou um visitante”, dizia a notificação logo abaixo, segundos depois, antes que eu sequer tivesse a chance de abrir a imagem.

“A varanda detectou um visitante”, dizia a próxima notificação. Meu coração acelerou e minhas pernas começaram a tremer, o silêncio opressor esmagando meus pensamentos.

“A área de serviço detectou um visitante”, dizia a última notificação, no exato momento em que o som de vidro quebrando e outro trovão atingiram meus ouvidos.

Eu corri de volta para a sacada, seguindo em direção à praia, esperando que algum pescador atrasado ainda estivesse recolhendo seu barco da tempestade que começava a desabar. A areia molhada não facilitava minha fuga, mas eu continuei correndo até não ter mais para onde ir. O mar se estendia à minha frente, ninguém na grande faixa de areia, e a casa mais próxima era muito longe dali, e não podia ser acessada pela praia.

— Jane! – eu ouvi a voz de Peter gritar, acompanhando de risos tão tenebrosos quantos os trovões.

Minha única saída era a plataforma. Tão frágil e, ao mesmo tempo, tão opressora quanto naquele dia, eu a atravessei. As luzes que criavam padrões de luz e sombra me mostravam para onde ir, a chuva me fazia escorregar e quase não conseguir avançar, mas eu alcancei o final daquela terrível travessia. A sensação de caminhar sobre as águas era enervante, ainda mais com o mar tão revoltado e disposto a engolir toda a aquela estrutura. Olhei para baixo, surpresa com o quão alta ela era, mas não vi nenhum barco por ali. Ninguém enfrentava o mar em dias assim e eu invejei os pescadores por saberem escolher adversários à altura.

Olhei para o início da plataforma e vi Peter começar a ganhar território. Ele sempre fora muito mais rápido do que, e sempre apostava corridas idiotas para me lembrar disso. “Vamos ver quem chega primeiro no elevador?”. “Você vai ganhar”, eu dizia.

“Vamos ver quem chega primeiro no carro?”. “Você vai ganhar”, eu dizia.

“Vamos ver quem chega primeiro no sofá?”. “Você vai ganhar”, eu dizia.

Mas não hoje.

Subi na grade de segurança da plataforma, sentindo a chuva me ensopar como se eu já fosse parte do mar. Mas antes de soltar, de deixar meus dedos se abrirem em alívio, eu olhei para Peter, ainda na metade do caminho até mim, e gritei com mais raiva do que os trovões, mais alto do que a tempestade:

— Vamos ver quem chega primeiro no mar?