À beira mar

7 Monstros debaixo da cama


Eu acordei devagar, ganhando consciência aos poucos. A textura do travesseiro, a sensação inquietante da ausência do cobertor, o calor por conta da janela fechada, as batidas do coração dele, o perfume do qual eu lembrava tão bem, a voz ameaçadora de Peter.

— Jane...

Eu gritei, afastando-me de maneira desajeitada, buscando o interruptor do quarto e ofuscando meus olhos. Com minhas costas contra a parede, minha respiração acelerada, eu observei a cama vazia, desajeitada apenas do lado direito, onde eu estava deitada. A janela fechada, a porta do banheiro aberta, mostrando que não havia ninguém ali.

— Jane? – Sarah abriu a porta, sua expressão assustada. – O que houve?

Eu me abaixei e olhei debaixo da cama. Nada além de um par de chinelos esquecidos.

— Eu acho que... – tentei respirar fundo. – Acho que tive um pesadelo.

— Procurando monstros debaixo da cama? – ela parecia confusa.

— De certa forma, sim.

— Tem certeza que foi só isso?

— Sim, acho que sim. – levantei-me novamente. – Pode voltar a dormir. Desculpe por acordá-la.

­— Tudo bem. Pode me chamar se precisar de alguma coisa. – ela respondeu, voltando para o seu quarto.

Sentei na poltrona próxima da janela, minhas costas voltadas para a parede, meu pacote de cigarros na mão. Fiquei ali pelo restante da noite, luzes acessas e olhos inquietos, observando cada centímetro do quarto com determinada atenção, fumando um cigarro atrás do outro, deixando as cinzas caírem distraidamente no chão.

­— Eu estou ficando louca. – falei para o vazio, quando meus cigarros acabaram.

Deixei meus pensamentos começarem um monólogo esclarecedor que mais parecia um mantra, repetindo sem parar: “Peter está morto. Ele não estava no carro e não estava dormindo com você. Peter está morto. Ele não estava no carro e, definitivamente, não estava dormindo com você”.

Quando o sol nasceu, eu fui para a cozinha, tomando o cuidado de desativar o alarme naquele cômodo. Preparei duas xícaras de café bem forte, uma para mim, e a outra para mim também. O melhor acompanhante da nicotina sempre será a cafeína. Sarah acordou algumas horas depois, me encontrando na sacada, observando o mar. Ela disse que iria até o mercado para comprar algumas coisas para o almoço, e perguntou se eu precisava de alguma coisa.

— Cigarros. – respondi, sem olhar para ela. – E uma boa dose de sanidade.

— Se eles vendessem isso nos supermercados, o mundo seria um lugar muito melhor. – ela riu, despedindo-se.

Resolvi ir até a praia, sentir a areia sob meus pés e o sol em meu rosto. Era reconfortante ver a casa de longe, e eu me senti leve pela primeira vez em muito tempo. Liguei para Carol e ela me contou todas as fofocas do escritório, particularmente empolgada com a recém descoberta relação extraconjugal do coordenador de Recursos Humanos, que traía sua mulher com o diretor de relações públicas. Eu ouvi tudo com um distanciamento estranho, como se tudo aquilo tivesse se tornado insignificante diante de meus olhos. Quando eu me tornei o alvo das perguntas, disse que estava na praia naquele momento, o que causou inveja nela, que estava no banheiro do escritório, escondendo-se para poder falar comigo. Eu não disse que estava usando meu pijama, que nem sequer estava bebendo um drink gelado, e só estava fugindo do medo que senti ao sonhar que estava dormindo ao lado do meu ex namorado morto.

Quando desliguei, levantei-me e pensei em voltar para a casa, com a certeza de que Sarah já estava de volta, mas então olhei para aquela plataforma e senti um impulso incontrolável de ir até lá. Quando subi as escadas e dei os primeiros passos, tive que admitir que a sensação era completamente diferente do que eu imaginei que seria. O vento soprava forte, o som do mar parecia muito mais alto conforme eu avançava, e eu sentia como se ele pudesse invadir aquela plataforma com uma onda e levá-la para longe, tão frágil se comparada com o poder das águas. Quando cheguei à metade do caminho, já me senti oprimida demais para continuar e voltei para casa.

Sarah cozinhou e eu me encarreguei de lavar a louça. Ela foi trabalhar apenas à tarde, avisando que ficaria no hospital durante toda a noite, e me mostrou novamente como ligar todos os alarmes. Aproveitei a tarde em silêncio, iluminada pelo sol, e fiquei na sacada, lendo um livro. Tentei me desconectar de tudo o que acontecera e viver em um mundo alternativo, mesmo que apenas por algumas horas.

À noite, eu pedi uma pizza na única pizzaria da região, rezando para que eles entregassem em casa. Depois de quase meia hora, ouvi batidas na porta. Um adolescente entediado me entregou a pizza e pegou o dinheiro sem dizer uma única palavra, parecendo irritado por ter de dirigir por uma distância tão longa. Fiz questão de adicionar uma gorjeta generosa para me desculpar pelo inconveniente.

Comi enquanto assistia televisão, me interessando por um filme que encontrei. Quando os créditos rolaram pela tela, eu já me sentia sonolenta. Preparei-me para dormir e voltei para a sala, buscando o tablet para acionar os alarmes, depois de me certificar que tudo estava trancado. Deixei o dispositivo na bancada da cozinha, enquanto pegava água fresca para levar ao meu quarto. Enquanto enchia a minha garrafa, o som de notificação no tablet ecoou pela cozinha. Congelei por um segundo, fechando a garrafa. Desconfiada, virei o tablet em minha direção, respirando devagar e já preparando meu monólogo interior sobre os eventos passados.

No canto direito da tela, uma pequena mensagem dizia: “Sua campainha detectou um visitante”. Com dedos trêmulos, cliquei na mensagem, que se expandiu em uma foto de tela inteira. Os tons pretos e brancos da câmera em modo noturno deixavam claro o que a havia acionado. Peter, relaxado e levemente agachado, sorrindo para a câmera, um leve aceno congelado em sua mão, seus olhos negros e desfocados. Quando pensei que meus pés não se moveriam nunca mais e meu sangue cansara-se de fluir por minhas veias, uma batida na porta injetou em mim a adrenalina que eu precisava.

Peguei uma das facas que descansavam no cepo sobre a bancada e corri para o quarto trancando a porta e me esforçando para arrastar a cômoda até que ela bloqueasse a porta. Enquanto isso, eu ligava para a polícia, entrando em desespero a cada toque não atendido. Fechei a janela do quarto, sem perceber que já tinha feito isso antes, peguei a faca deixada no chão e corri para o banheiro procurando um esconderijo. No espelho, escrito com meu batom vermelho esquecido na pia, as palavras “você vai morrer” se sobrepunham ao meu reflexo assustado.

— Alô? Tem alguém aí? – disse uma voz feminina no meu celular.

— Tem alguém na minha casa. – sussurrei, trancando a porta e ainda olhando para o espelho.

— Senhora, o que está acontecendo? Fale comigo.

— Tem alguém na minha casa. – as lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto sem minha permissão. – Tem alguém aqui. Eu preciso de ajuda.

Ela disse o endereço da casa, provavelmente rastreando meu celular em seu sistema e me pediu que confirmasse. Eu emiti um som agoniado que não me parecia um “sim”, mas foi o suficiente para ela, felizmente.

— Temos uma viatura indo em sua direção, senhora. Qual é o seu nome?

— Jane. – eu continuava sussurrando, tentando ouvir algum barulho.

— Jane, eu preciso que você mantenha a calma e fale comigo, tudo bem? Onde você está agora? – a voz dela me deixava ainda mais nervosa.

— No banheiro.

— Tranque a porta e tente se proteger da melhor maneira possível. – eu segurei a faca ainda mais fortemente quando ouvi suas palavras. Então um barulho alto me fez pular de susto, um baque contra minha janela.

— Os policiais já estão aqui? – eu sussurrei, em prantos.

— Não, senhora. – ela disse, depois de alguns segundos. – Eles estarão aí em breve.

— Ele está tentando entrar. – falei, encarando a porta, faca em punho, preparando-me para me defender. – Ele está tentando me matar.

— Jane, fique calma. Os oficiais estarão com você em breve, continue falando comigo. – outro baque se fez ouvir e eu chorava ainda mais desesperadamente agora.

— Você ouviu isso? Ele está aqui.

— Não ouvi, Jane. O que está acontecendo? O que você ouviu? – eu não conseguia responder, apenas ouvir os sons da minha janela cedendo. – Jane? Você está aí? Fale comigo, Jane.

Então o baque foi na porta de entrada, alto e violento, e eu tentei decidir se conseguiria fugir para algum lugar, qualquer coisa que não me fizesse ficar encurralada no banheiro. Mas todas as opções pareciam distantes e eu nem mesmo tinha para onde fugir.

— Os oficiais estão aí, Jane. Onde você está?

— No banheiro do primeiro quarto, à esquerda da cozinha. – eu sussurrei, um tanto aliviada. Os alarmes dispararam, um som ensurdecedor que me deixava atordoada. Então, batidas na porta me assustaram e eu me afastei ainda mais, indo em direção à parede, já calculando se eu conseguiria passar pela pequena janela do banheiro.

— Senhora? Você está aqui? – uma voz masculina disse, tentando se fazer ouvir apesar do barulho. – É a polícia! Está tudo bem, pode sair.

Abri a porta e olhei para o policial que estava ali, arma e lanterna em punho, me pedindo para sair. Ele me acompanhou até a cozinha, onde eu pude desligar o alarme, sentindo meu cérebro ecoar aquele som por mais alguns minutos. Eu me lembrei de como costumava ficar nervosa perto de armas, depois de ver meu pai com uma arma de caça que matou nosso cachorro por acidente, e fiquei surpresa ao ver que me sentia estranhamente à vontade, segura até, perto da arma daquele policial. Outros dois deles surgiram logo em seguida, olhando para mim com expressões frias e profissionais.

— Tudo limpo.

— Senhora, eu sou o oficial James e estes são os oficiais Martin e Gibson. – um deles disse. – Acha que pode nos contar o que aconteceu?

Peguei um copo d’água, aproveitando aqueles segundos para pensar no que ia falar, percebendo que não havia nada que eu pudesse falar que não fosse exatamente o que acontecera. Então, falei sobre o sistema de segurança e sobre o aviso da câmera na campainha. Eles pareceram entender tudo perfeitamente, o que me fez pensar que o sistema de segurança utilizado aqui fosse comum.

— Podemos ver a imagem? – o oficial James perguntou. Eu apontei para o tablet, dizendo que tudo o que ele precisava estava aí.

Ele clicou na tela e a analisou a imagem, juntamente com os outros dois oficiais. Eu não me atrevi a olhar novamente, sabendo que o olhar de Peter iria me lançar outra crise de pânico sufocante.

— Você tem certeza de que essa é a imagem, senhora? – Gibson questionou, confundindo-me.

— Sim, tenho. É a única que tem aí. – respondi.

— Senhora, você poderia dar uma olhada? – James perguntou, virando o tablet para mim imediatamente, não me dando a oportunidade de concordar ou não com o seu pedido. Eu olhei para a imagem em tela cheia, estupefata. – Não tem ninguém aqui.

Realmente não havia. Era apenas uma imagem da porta da frente e o que me pareceu uma raposa passando no campo coberto pela câmera. Eu peguei o tablet nas mãos e olhei mais de perto, procurando outras imagens, tentando encontrar aquela imagem que fizera meu coração parar de bater.

— Eu não entendo... – eu continuava rolando as imagens. – Mas e os barulhos? Minha janela deve estar destruída! E o recado no espelho?

— Que recado?

Eu corri para o quarto, com os três oficiais em meu encalço. Escancarei a porta e fiquei encarando o espelho do banheiro, tão imaculado quanto se alguém tivesse acabado de limpá-lo.

— Mas estava escrito, eu vi! Com o meu batom! – eu comecei a hiperventilar.

— Eu presumo que esta seja a janela que fosse se referiu? – James apontou para a janela intacta, perfeitamente fechada como se nunca tivesse sido tocada.

Os minutos seguintes foram tomados pela mais completa insanidade. Os oficiais se revezavam lembrando-me dos perigos de realizar chamadas falsas para a polícia, enquanto eu permanecia sentada no sofá do sala, completamente estarrecida e em um silêncio pétreo. Em algum momento, Sarah voltou para casa e falou com eles, contou que eu estava passando por um momento difícil e os convenceu a irem embora sem fazer nada.

Quando o som da viatura desapareceu e o silêncio tomou conta da casa, Sarah se sentou na mesa de centro, de frente para mim, sua expressão um misto de cansaço, incredulidade e preocupação. Eu continuava uma estátua eternizada em um momento de horror.

— O que está acontecendo, Jane?

Eu olhei para ela, refletindo seu cansaço, e falei. Deixei com que as palavras que rodeavam minha mente nos últimos dias finalmente saíssem, livres para semear a loucura na mente de outra pessoa, na esperança de isso as fizesse me deixar em paz por alguns momentos. Observei sua expressão passar de surpresa para completa preocupação, enquanto minha voz ficava mais histérica, meu choro mais acentuado, meus gestos mais caóticos. Até que não sobrou nada.

— Jane... – ela disse, com cuidado, quando finalmente parei de falar. – Peter está morto. Você entende isso?

— É claro que eu entendo, Sarah! Você acha que eu não tenho repetido isso para mim mesma incansavelmente nos últimos dias? Todos os segundos, todos os dias, eu repito e repito, mas essa loucura continua acontecendo!

— Eu acho que você precisa de ajuda, Jane. Que tal uma boa noite de sono e amanhã eu procuro a doutora Newman? Ela é uma ótima psiquiatra e eu tenho certeza de que poderá lhe ajudar com esses conflitos.

— Eu não estou em conflito! Meu ex namorado morto quer me matar, Sarah. O conflito não é comigo! – eu gritei.

— Apenas durma, ok? Relaxe um pouco. Nós podemos lidar com isso amanhã. – ela falou, incisiva, colocando um ponto final na discussão.

Eu fui para o quarto como uma criança birrenta que foi colocada de castigo, até bati a porta para deixar claro que estava fazendo aquilo contra minha vontade. Peguei a cartela de remédios que estava tomando para dormir, percebendo que restavam apenas três deles. Não percebi que estava tomando tantos remédios assim, mas como a adrenalina, a raiva e o medo ainda corriam por minhas veias, eu sabia que precisaria deles para poder dormir. Tomei os três de uma vez e deitei na cama, determinada a esquecer tudo o que acontecera.

Antes de adormecer, eu tomei a decisão de partir no dia seguinte.