À Trois
2 O Segundo
Notas iniciais
Na manhã seguinte, Irene não fez questão de ir para a escola com o seu pai. E também não pediu para ele deixá-la na porta. Prefiria entrar pelos fundos, emu ma tentative de não encontrar com o grupo de garotos do dia anterior.
Mas seu plano não adiantou, pois quando desceu os degraus para o laboratório, onde teria sua primeira aula do dia, encontrou, não só o próprio garoto em quem Sentara no colo, como alguns dos meninos do segundo ano que estavam presentes no ônibus.
– Ah! Olha só, Tomás, a sua namoradinha!
Os meninos a rodearam, menos Tomás, aquele em quem ela havia sentado. Era um menino alto e um tanto magro, muito louro e de pele muito clara. A maioria das pessoas que o viam achavam que ele era estrangeiro.
Tomás nem sequer olhou para Irene, apenas ficara de rosto virado para ela, fingindo prestar mais atenção nas rachaduras da parede. Também nnao a cercara como fizeram os amigos, ficava atrás deles, tentando manter uma distância decente.
Ora, ele também fora vitíma no acidente do dia anterior.
Os amigos de Tomás faziam cada vez mais perguntas indecentes para Irene, pressionando-a. Ela ouvia-os, mas a única coisa que passava pela cabeça dela no momento era a cena do dia anterior, repetidas vezes: sentara no colo dele, perdera seu ponto, tivera que voltar correndo para casa, pulou o almoço e se enfiou na cama. Quanto mais ela se lembrava, mais corada ficava, o que só piorava os comentários que os meninos para ela.
– IRENE! – uma voz amigável a fez voltar a realidade.
Era Clara, que estava no topo da escada, com as outras duas amigas atrás delas, meio que tentando se esconder. Clara emanava uma presença confiante e poderosa.
– Então ela tem nome… — Irene pode ouvir um dos garotos dizer baixinho para outro, enquato Clara descia apressadamente, mas com graça, até a amiga.
Pegou-a pelo braço e empurrou alguns meninos, tentando abrir espaço para passar. Parou ao lado de Tomás e o fitou por um instante. Ele retribuiu o olhar, de modo ainda mais frio. Clara virou o rosto e puxou Irene pelo braço até o laboratório. As outras duas amigas, passaram de fininho pelo grupo de meninos, segurando no corrimão, como se fosse possível se proteger com ele de alguma coisa.
– Pode contar tudo! – meio mal-humorada, Clara ordenou para Irene, que teve que contar o acontecimento do ônibus baixinho, enquanto entravam na classe e se acomodavam em seus bancos.
Clara teve de segurar o riso, coisa que as outras duas não conseguiram fazer, quando Irene acabou de contar tudo. Mas para confortar a menina, as três se recompuseram e começaram a falar mal do grupinho de garotos. Só pararam quando o professor chamou a atenção delas.
– Aproveitando que agora todos estão com sua atenção voltada para mim – o professor olhou feio para o grupo de Irene – Vou explicar como vai funcionar o trabalho desse trimestre, que vai ter peso na nota final de vocês. Mas antes, vou passar os grupos que eu separei préviamente. – houve um murmúrio melancólico vindo dos alunos – Não adianta reclamar, que eu não vou mudar de idéia.
O professor separou o nome dos alunos, por grupos, na lousa e lentamente os jovens foram mudando de lugar. Por algum tipo de sorte, Irene pode ficar com uma das amigas, mas ambas tiveram de se mudar para a mesa do outro lado da sala. Os outros integrantes do grupo delas já estavam sentados na mesa: um menino com quem elas nunca tinham falado antes e um casal de namorados, que sabiam respeitar o horário das aulas.
Ao final da aula, que fora repleta de explicações do professor de como ele queria que fizessem o trabalho, o menino com quem Irene nunca havia conversado, puxou assunto com o resto do grupo:
– É… não sei vocês, mas quero começar logo este trabalho. – todos pararam de arrumar suas coisas e olharam para ele — Meu irmão mais velho está no segundo ano e me contou que nessa época do ano a maioria dos professores pede para fazermos um monte de trabalho que valem muita nota.
– Ah… sim. – disse a menina que tinha o namorado no grupo – Devemos nos encontrar já nesta semana, então?
– Seria melhor – respondeu o menino que começara a conversa. – Se todos estiverem de acordo, claro. – nesse momento ele olhou para Irene e sua amiga.
– Por mim, tudo bem. – respondeu o outro garoto, que se levantou da cadeira – Tenho todas as tardes livres.
– Eu também – Irene respondeu.
– Por mim está ótimo, só não posso terça e quinta. – respondeu a namorada do outro garoto. – Tenho aula de piano.
Todos olharam para a amiga de Irene, que demorava para responder:
– Er… Não tem nenhum dia que eu possa… Mas posso tentar arranjar um tempo! – Ela disse, antes que se sentisse excluída no grupo.
– Então está bom! – o menino que começara a conversa respondeu sorrindo – Quando você souber quando pode, é só falar comigo!
Ela acenou com a cabeça e todos se retiraram para a sala de aula.
Como o menino havia predito, nas aulas seguintes os professores passaram mais e mais trabalho para os alunos. Um ou dois eram trabalhos individuais, mas a maioria era em grupo. Assim como o professor que dera a primeira aula do dia, vários outros decidiram dividir a sala eles mesmos.
Irene acabou caindo em vários grupos com o menino com quem não havia falado até aquela manhã. Por causa disso, ela começou a achar meio suspeito e se perguntava o porque daquilo estar ocorrendo. Quando caiu pela quarta vez no mesmo grupo que o garoto, ela não se aquentou e soltou um “você novamente!” para ele e com isso começaram a conversar.
O nome dele era Cássio e como dissera, era o mais alto da classe. Mas também era o mais novo. Irene acabou descobrindo que os professores colocaram eles juntos pois Cássio tinha as piores notas da sala inteira e previam que as notas dele aumentariam se colocassem eles juntos. Mas ter notas ruins, na opinião do garoto, não significava que ele fosse inteligente, e Irene concordava com isso, pois notara que ele sabia tinha um tipo de olhar diferente dos demais e conseguia conversar sobre coisas interessantes com tranquilidade com ele.
No final da aula, sua amiga pergutara porque ela caíra tanto com Cássio e quando Irene explicou a situação do menino, a amiga soltou um “ah” com um modesto tom invejoso e desanimado.
– Acho que Cláudia está a fim do Cássio. – Irene comentou para Clara, quando ambas seguiam para o ponto de ônibus.
– Cássio?
– O da nossa classe.
– Aaaaaah! Sei quem é! Mas por que você acha isso?
– Ela pareceu meio incomodada por nós termos caído no mesmo grupo tantas vezes. Eu até expliquei para ela a causa disso, mas parece que ela não acreditou muito em mim.
Um silêncio reinou entre as duas. Irene tentou imaginar a amiga com o menino. Achava que dariam um casal bem… inusitado. Mas então se lembrou de algo:
– Mas a Cláudia está namorando!
– Estava.
– Como assim? – Irene parou do lado do poste que indicava o ponto de ônibus, olhando para Clara.
– Parece que ele terminou com ela. Ela me ligou, chorando, e crucificou o coitado até não poder mais. Depois começou a falar que nunca mais iria se apaixonar. – Clara dava o sinal para o ônibus dela parar – Essas coisas… Mas bem, – ela se virou para Irene, enquanto subia no ônibus – Eu não achava que eles chegariam tão longe, juntos.
A porta do ônibus fechou, deixando Irene olhando para seu reflexo. O ônibus atrás era o seu, no qual ela deu uma rápida corrida para pegá-lo. Desta vez ele estava vazio e ela decidiu se sentar na última fileira, na cadeira do meio.
Passaram-se alguns pontos e dois garotos se levantaram e seguiram para a porta do fundo: um muito louro e outro moreno, ambos quase da mesma altura. Irene olhou melhor e percebeu que era Cássio e o menino em quem ela tinha sentado no colo no dia anterior, Tomás. Cássio também a vira e deu um tchau, que ela respondeu com um aceno da cabeça.
Eles se posicionaram na frente dela. Cássio, que estava de costas para Irene, puxou conversa com Tomás, que a cada 5 segundos checava a garota. Isso a deixava muito constrangida e muito corada, pois não só tivera o acidente de ontem, como o daquela manhã. Irene queria afundar no banco, de tanta vergonha.
Enquanto se redobrava para tentar se esconder atrás da mochila, o ônibus passou por uma lombada, que fez Irene pular da cadeira. Mas ao invéz de voltar para seu banco, ela fora jogada para frente e por causa de sua curvatura e do tamanho de Cássio, Irene deu de cara com a bunda do colega.
– Irene…………? Você está bem? – Cássio notara o desastre que acontecera e Irene sentia o seu rosto mais quente do que nunca.
O fato de que pagara um mico na frente do colega e na frente daquele em quem tinha pagado outro mico atormentava sua cabeça. E o fato de Cássio ter percebido o que ocorrera, só fez ela ficar pior ainda. Irene não levantava a cabeça por nada no mundo, pois não queria ver a reação de Tomás.
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