À Sombra da Justiça
15 Uma Pista e um Convite
Notas iniciais
Holmes estava agora, em suas mãos, com as duas facas deixadas por esse criminoso atrapalhado. Talvez ele não fosse tão esperto assim. Uma das facas foi deixada quando ele tentou raptar June, e a outra quando levou Flora.
As duas facas eram idênticas e de boa qualidade. Não eram facas comuns. Rose já tinha dito que o criminoso tinha boas roupas, o que reforçava o seu possível status social. Ele examinava as facas, atentamente, com uma lupa. Percebeu que a faca foi pouco manuseada, mas tinha uma pequena marca de um penhor.
Antes que ele pudesse concluir qual era o penhor, ele ouviu a porta bater. Gritou para que entrasse.
–Mr. Holmes. O inspetor Reid deseja vê-lo.
Holmes rolou os olhos, de impaciência. O que ele queria agora? Mais conselhos? – Peça que entre. – pediu, pensando em maneiras de manda-lo embora dali o quanto antes.
Reid foi imediatamente conduzido para dentro dos aposentos. Holmes levantou-se para receber o inspetor, que sorriu brevemente, antes de dar-lhe um soco, reto e forte em seu nariz que lhe deixou cambaleante.
Nem precisava perguntar, ele sabia o que isso significava.
–Pronto, agora estou bem melhor. E a propósito, há uma conta de alfaiate para chegar, pois essa sua estupidez me rendeu a perda de um de meus ternos preferidos.
Embora sentindo dor no nariz, Holmes não pode deixar de rir, ao lembrar-se da cena patética que pusera o inspetor.
–Poderia ao menos explicar que diabos o senhor fazia disfarçado na minha área? Ou será que terei de leva-lo preso por agressão a um oficial de polícia, Mr. Sigerson?
O semblante de Holmes congelou-se. Ele sabe meu nome falso! Claro, ele ouviu Hans chama-lo assim, no beco. Embora estivesse preocupado com o fato de Reid saber seu codinome mais comprometedor, Holmes disfarçou.
–Era um disfarce, como bem observou, inspetor. E deixo ao senhor minhas sinceras desculpas. Precisava ganhar confiança de maneira rápida de um criminoso chamado Hans, creio que deve conhece-lo.
Reid parecia desconfiado, mas analisava a questão.
–Sim, um criminoso de vastas atividades criminosas. É difícil até classifica-lo. Mas o que pode obter disso?
Holmes ficou em silêncio, claramente nada disposto a dizer.
–Ora, vamos lá! O senhor estava malvestido, agora está usando essa barba por fazer... O sacrifício deve ter valido para alguma coisa.
Holmes suspirou.
–Durante minha carreira, nunca gostei de omitir a polícia pistas de investigação, porque não é justo tirar de vocês a oportunidade de ao menos adotarem uma linha de pensamento. Foi isso o que eu obtive em minhas incursões à Whitechapel.
Holmes apontou ao inspetor a mesa, onde jaziam as duas facas.
–O que é isso?
–Obviamente, o senhor não sabe que na última semana, uma mulher quase fora raptada por ele. Uma prostituta dessa vez.
O semblante de Reid estava preocupado. – Céus... Então é mesmo Jack...
–Foi o que pensei também. Uma volta ao Modus Operandi? Ou estávamos lidando com uma encenação que fez o real assassino voltar? Muitas são as possibilidades. Soube do desaparecimento de alguma prostituta em sua área?
–Não.
–Como eu imaginei. Eles não prestariam queixas. Há dois dias atrás, uma mulher chamada Flora foi raptada por ele, que ao perceber que fora visto, deixou essa outra faca cair. Idêntica à esta, que deixou em sua tentativa de rapto frustrada.
Reid segurava as duas facas, com cuidado.
–Lâminas retas, sem cerdas... Coincidem com as extensões da ferida. – constatou o inspetor.
–Exatamente. E se não fosse por sua interrupção, inspetor, eu teria descoberto o nome do penhor que...
–Ernest & Morrison. – interrompeu Reid, sabendo exatamente do que se trata.
Holmes pareceu surpreso.
–Reconheço as marcas porque foi lá que comprei o anel de noivado que dei à Norah.
–Está falando do penhor da Oxford Circus? – perguntou Holmes.
–Exatamente. Tenho certeza que um cartão de mandado irá refrescar-lhes a memória. Ou então, os seus recursos. – disse Reid, lembrando, mais uma vez, de como sempre enxergava Holmes: um engomadinho da City.
–Não sou tão rico quanto pensa, inspetor. Pago aluguel todo mês.
–Aqui, em Westminster? O aluguel desse apartamento de um mês certamente equivale a seis meses do meu em Notting Hill.
Holmes franziu o cenho. Quanto exagero.
Holmes e Reid foram até lá. O dono do penhor aparentou-se mais amistoso em dizer, após um soberano em seu balcão, uma vez que o cartão de Reid pouco deu efeito. O velho chamou os policiais de corruptos e desqualificados e disse que só falava com o inspetor Morse. Só depois Reid lembrara que aquela rua pertencia a área da Divisão N, que cobrava taxas dos comerciantes por proteção.
O velho do penhor disse que um jovem rapaz entregou as facas no penhor. Ele tinha os cabelos escuros e estava mal-vestido. Havia a suspeita de que fosse usuário de ópio. Ele se identificou como Lewis Stewart. Dias depois, ele voltou, com roupas melhores, pagou pelo penhor e retirou três facas.
–Lewis Stewart... Onde eu ouvi esse sobrenome?
oooooooooo
–Mr. James Stewart.
Esther tinha aplicado a primeira prova para a classe. Não foi muito exigente na caligrafia, mas cobrou bastante na interpretação do texto. Para seu alívio, muitos se saíram bem, o que era sinal de que ela estava cumprindo bem o seu dever de professora. Algumas notas foram excelentes. Aliás, não foi surpresa nenhuma perceber que justamente os alunos que mais implicavam consigo tinham ido mal naquela avaliação. Não foi pessoal, mas uma questão de correção, que fez estes alunos ficar com as piores notas.
James Stewart era um deles. Saíra-se não tão mal, mas ela sabia que ele não aceitaria essa nota de bom grado. Quando o rapaz estava diante de sua mesa para receber sua prova corrigida, ele logo exclamou.
–Mas isso é um ultraje!
–Comporte-se, Mr. Stewart. – ordenou Esther, com firmeza.
–A senhora está me perseguindo! Essa prova tem que ser anulada!
–Não há perseguição alguma. Basta comparar sua prova com a de Mr. Holmes, por exemplo, que foi uma das melhores da classe, que verá que...
Stewart estava determinado e bastante exaltado.
–Esse “comuna” é a última pessoa que merece comparação. Mas é claro. Agora posso entender. A senhora dá privilégios ao seu amante e prejudica os verdadeiros homens de bem desta classe.
Esther levantou-se da mesa, com autoridade.
–Eu não permitirei que o senhor me ofenda desta maneira!
Carlton Holmes levantou-se, e tentou proteger Esther.
–Se não está satisfeito com sua nota, paciência. Estude para o próximo exame, se assim deseja. – ele disse. – Mas não ofenda a professora Sigerson.
–Cale essa boca, seu comuna enxerido!
Em um ato de impulso, Jeffrey Carlton Holmes deu um soco em Stewart, deixando-o desnorteado. Os demais alunos correram para segurar os dois. Esther assistia, nervosa, à todo aquele tumulto em sala de aula.
–Parem com isso! Parem! – ela ordenava. Em instantes, um inspetor da universidade apareceu.
Jeffrey Carlton Holmes e James Stewart receberam uma suspensão de 3 dias.
Esther estava sentada, frente a frente com o diretor da universidade, que parecia arrependido de ter ousado em contratar uma mulher para um cargo daquele tipo.
–Estou recebendo muitas reclamações, especialmente de Mr. Stewart. O pai dele, inclusive, esteve aqui para discutir a respeito de... Da viabilidade do seu emprego aqui, Mrs. Sigerson.
Pronto, ele está me demitindo.
–Entretanto, uma senhora chamada Miss Lancaster, se mostrou muito contente em ver uma mulher ocupando a cadeira da Academia.
Esther suspirou, aliviada. Sabia o que aquilo significava. Miss Jenifer Lancaster era uma reconhecida feminista, além de herdeira de uma fortuna, uma das maiores da Inglaterra. Era dona de um jornal influente, que ela usava a seu bem entender.
Fosse o que fosse, o emprego ainda era dela.
Esther estava saindo da sala do diretor e voltando para casa. Sentia uma forte dor de cabeça, que fazia uma simples caminhada até o portão um esforço terrível. Para piorar, ela tinha se tornado o centro das atenções dos alunos que estavam no pátio. Certamente, a notícia já tinha se espalhado pela Universidade. Justo agora, que todos pareciam acostumados com sua presença!
Quando já estava do lado de fora da Universidade de Eton, Esther ouviu alguém chamar por ela.
–Professora! Professora!
Ela virou-se. Era Jeffrey Carlton Holmes.
–Professora, eu estou suspenso por três dias da Universidade!
Esther já sabia disso. O diretor lhe avisara.
–Eu sinto muito, Mr. Holmes, que tudo tenha se desenrolado para isto.
–Pode me chamar de Jeffrey. – ele pediu. Esther tentou se esquivar.
–Mr. Holmes, eu já lhe expliquei que...
–Mas estamos fora da Universidade! A senhora não tem que dar explicações a ninguém da sua vida do lado de fora.
–Sim, mas o senhor permanece sendo o meu aluno.
–Não nos próximos 3 dias... – ele insistia, com um sorriso cativante. – Vejo que a senhora está carregando muitos livros. Quer que eu ajude?
–Não é necessário. Estou só esperando o cab...
Jeffrey a interrompeu, tomando os livros de sua mão.
–Esperaremos juntos, então. – ele disse. Esther bufou, irritada.
Passaram-se dez minutos, e estranhamente nenhum cabriolé passou. Sem ter o que fazer, Jeffrey começou a puxar assunto.
–A senhora é mesmo muito forte, para aguentar Stewart e tantos outros burgueses que não admitem que a sociedade está evoluindo. – ele dizia, com um tom político demais para Esther.
–O que o senhor pensa a respeito de mulheres trabalhando em empregos mais complexos? – ela perguntou curiosa.
–Considero simplesmente fantástico! – ele disse, com entusiasmo contagiante. – Vocês, mulheres, são melhores do que os homens em muitas coisas. Porquê não podem fazer outras coisas?
Esther ficou a refletir. Há tempos atrás, ela pensava ser esta a opinião de Holmes. Mas agora, já não tinha tanta certeza.
–Aliás, se quiser encontrar outras pessoas como eu, que tem a mesma opinião, basta... Basta... Basta ir a este lugar. – ele disse, um tanto nervoso, retirando um bilhete comunista. Tinha um endereço, em um prédio no East End. – Eu espero contar com sua descrição... Meu pai é capaz de me deserdar se soubesse de minhas inclinações políticas.
–Eu não sou comunista, Mr. Holmes, mas pode sossegar: eu não direi isso a ninguém.
Ainda muito nervoso, o rapaz pareceu mais aliviado com a promessa de Esther. Então, um cabriolé apareceu. Ambos se despediram brevemente, enquanto Esther seguia de volta para casa.
Adonai, mas que rapaz insistente! Ela reclamava consigo. Por alguns instantes, ela olhou para aquele folheto de propaganda comunista. Nele, havia o desenho de um punho fechado, e palavras de ordem, do tipo “Basta de exploração!” e “Trabalhadores no Poder”. O nome do local era Centro Londrino de Discussão Marxista. O endereço era em East End, o último lugar que uma senhora de bem poderia desejar ir. Só mesmo um rapaz para frequentar esse tipo de local. E que idéia estranha, convidar a própria professora para ir a um local desses!
De qualquer forma, Esther guardou o folheto na bolsa.
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