À Sombra da Justiça
21 O Grand Finale
Notas iniciais
Embora estivesse melhor depois da conversa com Norah, Esther ainda estava abalada com os problemas de seu casamento. A conversa a fez lembrar de sua última discussão, dos olhos frios de Holmes, diante do anúncio de sua gravidez. Da sua proposta nada agradável — bastante covarde — de se desfazer daquele "problema" que tinha se tornado o casamento (e também a criança). As lágrimas, as mesmas que ela deixou cair a noite inteira, com ninguém em sua cama além do pequeno ser que lhe acompanhava e que ela sequer o sentia — e já com tanto peso sobre si. Peso de um pai que, ao que tudo indicava, não lhe queria. Peso de uma mãe sempre solitária, com sérias feridas provocadas pelo mundo desde sua infância e que cuidaria de si custe o que custasse, com ou sem um pai, enfrentando todas as dificuldades de uma maternidade sem o auxílio de um homem, mesmo sob o título da viuvez. Pobre criança. Menino ou menina, não teria um pai. Esther lembrava-se do seu, Abraham. De suas idas à Sinagoga, ao lado dos pais e do irmão, da maneira como ele lhe contava histórias e mesmo de seu abraço. E agora, era o pequeno que ela carregava em si que estaria decretado a não ter uma figura paterna.
Isso era doloroso. Porque, ela ainda o amava. Porquê a vida não poderia ser mais simples? Porquê ele tinha de agir daquela forma, sempre tão arrogante, frio — e no fundo, o mais covarde dos homens? Será que ela esteve, este tempo todo, apaixonada por um personagem? Ou será que apenas ela o conheceu verdadeiramente, a ponto de nem o próprio saber disso?
O que quer que fosse, ela estava decidida a não cair em mais sofrimento, e decidiu mergulhar sua mente no trabalho. Seus olhos estavam ainda vermelhos, fruto da noite passada em claro, chorando sozinha. Ela detestava se encontrar nesta situação, chorando por um homem que nos últimos tempos tinha se mostrado desmerecedor de uma lágrima que fosse, mas seus sentimentos eram maiores que a racionalidade.
Na verdade, o livro tratava-se de um diário. Esther encontrava dificuldade em traduzí-lo, pois utilizava uma linguagem rebuscada e termos que ela desconhecia do pouco que sabia do hebraico. O hebraico era a língua que ela tinha menor domínio, em função de seu afastamento da religião e da falta de convívio com outros judeus como ela. Aquilo seria mais difícil do que ela pôde imaginar, fazendo-a optar em pegá-lo mais a fundo, para a tradução, no dia seguinte. Guardou-o, então, dentro de uma gaveta.
Ainda assim, havia a Universidade para ir, fazer seu dever como professora. Ela estava prestes a reunir todos os seus livros para preparar a próxima aula quando a porta bateu, com força vigorosa. Alguém muito desesperado estava à sua porta.
–Mr. Carlston Holmes?
Esther ficou assombrada e não hesitou em tentar fechar a porta rapidamente. Entretanto, o jovem mal esperou a reação de Esther e rapidamente entrou, desesperado, tomando-a pelo braço. Era até difícil reconhecer o jovem Jeffrey, em seu total estado de aflição, com os cabelos desgrenhados e o semblante de alguém que também tinha passado a noite em claro.
–Carlston? O que você está fazendo? Me solte!
–Calada, sua vadia! Calada! – ele disse, sacando uma faca, idêntica a utilizada nos homicídios dados pelo Estripador.
Ele empurrou a jovem para dentro de casa, fazendo-lhe um corte no braço. Esther soltou um grito de dor e susto, e ainda mais transtornado por isso, Carlston tornou a falar.
–Está vendo o que acontece quando você me desobedece? Nada teria acontecido com você, foi você quem provocou isso! – ele gritava, abalado.
–O quê?! Mr. Holmes, eu não entendo... O quê é esse ferimento? – ela perguntava, ao perceber sangue escorrendo pelas mãos de Carlston.
–Ah, Sophie... Ah, Sophie... Se você tivesse tido só um pouco mais de confiança em mim, as coisas teriam sido mais fáceis... Bastava um pouco de coragem para ir ao East End, como eu te pedi, mas agora, eu temo que isso quebre parte do meu plano. Que seja. Não temos mais tempo para se atentar a pequenos detalhes. Depois pensarei em uma maneira de te ligar ao East End, meu amor... – ainda com a faca na mão, ele aproximou-se de Esther, com uma ternura beirando à insanidade.
–East End... Do quê você está falando? – Esther fazia vaga idéia, mas esperava arrancar mais dele.
Então, era isto. Holmes lhe avisou do suspeito errado. Realmente, ele estava na Universidade de Eton, mas não era o odiado James Stewart. Era seu aluno mais aplicado e atencioso, Jeffrey Carlston Holmes.
Eu não acredito... O Estripador, bem diante de mim...
Acalme-se, Esther. Não entre em desespero. Tente tomar o controle da situação. Ganhe tempo, não o deixe te levar daqui.
–E eu cheguei a fazer tantos planos para nós, Sophie... Você seria a esposa perfeita para mim. Você é tão inteligente, autêntica... Tenho certeza de que minha família iria gostar de você... Até eu descobrir que você não passa de uma matadora de Cristo.
Ainda protegendo seu ferimento e desnorteada com o estado emocional de Jeffrey, Esther ficou surpresa com a declaração do rapaz.
–Do que está falando?
–Eu sei tudo sobre você, Sophie. Estive cercando você lentamente. Sei do que você gosta de comer, que é solitária e que não possui amigos. Pude até mesmo ver o seu marido, o Mr. Sigerson. Um viajante, não é? Que casamento mais incomum... Por isso ele está há algum tempo sem lhe ver. Não entendo como um homem pode deixar uma mulher tão bonita e irresistível como você sozinha, sem afeto, sem alguém para dar-lhe o carinho necessário... – ele disse, cercando-a na parede e tocando levemente seu rosto.
–Me largue, Carlston...
–Não fique com medo de mim, minha judia. O futuro que eu tenho reservado para nós dois será magnífico, eu prometo. A mim, uma cadeira importante no governo em um país do qual tenho ambições. A você, os anais da História... Não é um belíssimo futuro, meu amor?
–Futuro?! Você é um monstro!
Carlston tentava abraça-la, como um psicopata, enquanto Esther tentava escapar de suas garras. Para surpresa dela, ele conseguia contê-la. Ela jamais imaginou que ele tivesse tal força. Era uma força que só os loucos tinham.
–Em prol da sua eficiência e prestatividade para comigo, eu deixarei você saber sobre o meu golpe final. Meu pai tem razão, eu jamais conseguiria aquela vaga de diplomata na Rússia — ao menos, por meios legais. Mas na pior das hipóteses, ao menos eu entrarei na História por algum motivo. Serei o responsável por denunciar a identidade do maior assassino que a Inglaterra já conheceu, quiçá o mundo! – dizia Carlston, em meio a risos diabólicos.
–Você é louco...
Jeffrey continuava rindo. — Você quer saber quem ele é, Sophie?
Esther não fez qualquer movimento favorável, mas Jeffrey pronunciou mesmo assim. — James Stewart. — ele continuou a rir. — Hoje mesmo, eu me apresentarei à delegacia de Whitechapel. Apresentarei alguns hematomas e ferimentos, claro, porque lutei bravamente contra James Stewart, que atuou este tempo todo como Jack, o Estripador, e decidiu desafiar as autoridades mais uma vez. Mas eu o descobri! Infelizmente, algumas pessoas foram sacrificadas, e ninguém poderá chegar a tempo de impedir a quinta e última vítima. Mas que me importa uma ou cinco mulheres, se a Inglaterra agora estará a salvo do maior assassino que já se conheceu aqui? — ele disse, rindo outra vez. — Admita que meu plano é ótimo!
Cinco vítimas... Oh, não... A quinta só poderia ser...
Acalme-se, Esther. Converse e ganhe tempo com este louco...
–Isso é uma estupidez sem precedentes, Mr. Holmes... Acha mesmo que James Stewart não apresentará nenhum álibi?
Jeffrey parecia surpreso com a afirmação de Esther. — Álibi? Uh, estou surpreso que uma professora conheça esta terminologia. Enfim, eu tomei o cuidado de verificar toda a rotina de Stewart, e posso dizer que ele é um homem muito previsível. Nas próximas horas, por exemplo, ele estará sozinho, trancado em seu quarto, estudando para a prova de Direito Constitucional... Afinal, ele tirou uma péssima nota na prova passada e não pode continuar assim, senão perderá a vaga de diplomata. Um álibi muito fraco. Aliás, para todos os homicídios, pois eu tomei o cuidado de fazê-los quando ele estava sozinho, ou apenas acompanhado de pessoas que facilmente poderiam desmenti-lo diante de um cheque. Prostitutas, professores de má índole, bêbados... Mesmo os mais corruptos de seus "amigos".
–E se ele não o fizer? E se ele estiver em um local público, com pessoas confiáveis?
–Vale a pena correr o risco. — persistiu Jeffrey. — Está magoada, professora, por perceber que você não tem qualquer valor para mim? Porque sua morte poderá ter sido em vão, eu reconheço, mas... O que me importa? — ele disse, encostando a gélida lâmina de sua faca no rosto imóvel e amedrontado de Esther.
Onde está você, Holmes? Você é sempre tão perspicaz, tão insuportavelmente inteligente.. Porquê não aparece para acabar logo com esse louco? Por favor, Holmes... Adonai... Esqueça nossa briga, minha estupidez em achar que você quer sempre me ver pelas costas... Pense um pouco, o mínimo que seja, neste bebê...
–Diga-me um fato que eu pelo menos desconheça, Esther. Surpreenda-me, hum...? — ele disse, tentando beijá-la, mas ela desviava o rosto. Diante disso, ele se moveu e deu dois passos para trás.
–Idiotas! Se pensam que uma recusa ao cargo de diplomata russo é o bastante para impedir o meu sucesso! Mesmo que eu não fique com a vaga de diplomata, eu já possuo contatos na Rússia. A revolução é inevitável, eles verão com o tempo. E não se preocupe, minha cara Esther, pois a Rússia "adora" tipos como você...
–Eu não vou à Rússia com você! – gritou Esther, com desespero, diante da mínima hipótese de ter de ir à Rússia.
–E quem disse alguma coisa sobre você, sua mulher estúpida?! – ele gritou, por final, dando-lhe um soco no rosto, fazendo tudo escurecer na mente de Esther, que caiu inconsciente no chão.
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