À Procura Do Fim Do Mundo

1 Sou chamada para salvar o mundo.


Abri os olhos e me deparei com um céu escuro e estrelas, minha cabeça doía e minha boca estava seca, ansiava mais do que qualquer coisa por um analgésico e uma garrafa de água. Me sentei e percebi que estava literalmente no meio da rua, me encontrava em uma rodovia deserta, a minha frente um muro obrigava a seguir pela rua à direita. Ao meu lado havia árvores, muitas delas, tantas que não deixava espaço para ver por entre elas.

Me levantei tentando decidir o que fazer. Como cheguei aqui? O que aconteceu? Não me lembrava de nada. Caminhei em direção a parede que forçava a seguir pela direita, a rua era longa, tudo que eu podia ver era uma pequena placa verde a mais de cem metros impossível de ler com a distância, caminhei por cerca de dez minutos e a placa continuava indecifrável, na verdade me parecia cada vez mais longe, andei obervando, eu estava perdida, perdida na noite apenas com a luz da lua e estrelas. De repente bati em alguma coisa e fui lançada imediatamente para trás, caindo bruscamente no asfalto, senti minhas costas latejarem, me limitei a um gemido, afinal, não sabia aonde estava e muito menos que tipo de pessoa poderia me ouvir, me pus de pé novamente e o lugar caiu em uma escuridão maior do que antes, meu coração estava acelerado e eu suava frio, tinha medo da minha própria respiração. Então a figura de uma senhora surgiu a minha frente, apesar da escuridão eu conseguia vê-la perfeitamente como se tivesse uma luz própria, ela caminhava movendo as pernas com delicadeza estava cada vez mais perto, usava um vestido longo branco de mangas longas, os cabelos brancos presos em um coque e as mãos entrelaçadas em frente ao corpo. Eu queria correr antes que ela chegasse perto demais, porém minhas pernas não se moviam, meu corpo não respondia aos meus comandos.

Ela sorriu e me focou com os olhos azuis, tão azuis quanto o céu ao amanhecer, acariciou meus cabelos e senti um arrepio me percorrer a espinha.

-Minha criança — falou com a voz doce e calma — você foi escolhida, a humanidade depende de você.

- O que? — forcei a minha voz a sair.

-Veja — Ela passou a mão pelos meus olhos fechando-os

E ai eu senti uma brisa leve que bateu em meus cabelos e trouxe um cheiro adocicado ao meu olfato, cheiro de flores, já havia sentido aquele cheiro antes. Estava em casa, no jardim de casa! Abri os olhos com a esperança de ver minha mãe e meu pai. Mas não, não estava em casa, Estava em uma plantação de girassóis, o sol estava forte o que estava começando a me fazer suar. Mas não havia nenhuma cobertura onde eu pudesse me afugentar. Então eu ouvi um riso, o riso de uma criança, olhei em volta mas não havia nada, e o riso continuava.

-Onde você esta? -Gritei

Ela não respondeu.

-Ei! –gritei novamente

Nada. Comecei a correr ate aonde vinha o riso, mas parecia nunca se aproximar, os girassóis faziam minhas pernas coçarem, parei uma vez ou duas para isso. Eu continuava a correr, mas o campo era infinito, parecia nunca ter fim. Parei com as mãos nos joelhos roubando o ar de qualquer lugar que o tivesse. A risada parara. Olhei para o lado e quase cai com o que vi.

Uma garotinha brincava de colocar em suas bonecas retalhos de roupas encharcadas de sangue, possuía uma tesoura na mão com a qual ela cortava-as. Devia ter uns cinco anos no máximo, cabelos louros cacheados. Ainda não notara minha presença.

Oi — falei

Ela levantou os olhos doces e sorriu me perguntei que tipo de mãe deixa a filha num lugar assim, brincando com roupas ensanguentadas.

-Olá — ela respondeu com voz angelical — quer brincar?

-Claro — respondi com receio, mas como poderia negar alguma coisa a ela?

Ela se pôs de pé e segurou minha mão, os dedos frios marcados de sangue.

- Vou te levar ate o pátio e vamos pegar uma roupa para você também

Meu corpo estremeceu.

Começamos a caminhar na direção aposta a que eu acabara de chegar.

-Onde esta sua mãe? -Perguntei

-No pátio — respondeu com a voz triste — chegamos

Não tinha percebido, estive com a cabeça baixa olhando para ela o tempo todo. E então eu levantei. E quis correr. Correr como nunca corri.

O pátio era um pátio, sim, no entanto em seu núcleo tinham corpos uns sobre os outros, estavam empilhados. O cheiro de corpo em decomposição tomava conta do lugar. Seria impossível permanecer ali por muito tempo. Meu coração palpitava novamente

-Minha mãe esta ali — a garotinha falou apontando para o outro lado

Com as mãos e pernas tremulas eu olhei. O pior erro da minha vida foi ter olhado. O corpo da mulher pendia sob uma cadeira, com os olhos esbugalhados e a boca aberta, o sangue seco lhe escorria pelo furo no peito, presumi que o furo de uma bala.

Perdi a respiração, soltei a mão dela e gritei, gritei em plenos pulmões com os olhos fechados e as mãos tapando os ouvidos, não queria ouvir nada. Nada.

Quando abri os olhos novamente tudo sumira, estava de volta na completa escuridão e eis que a senhora apareceu novamente.

- O que viu agora foi uma demonstração do que acontecera daqui a alguns dias, uma semana talvez. A garota estava em um refúgio para imunes, ela não vive sozinha, mas fiz questão que a conhecesse, os corpos que viu eram de pessoas que foram mortas ao inicio da transformação.

-Transformação? -Perguntei

-Sim, em algum lugar do mundo um vírus se iniciará, mas não um vírus comum, será iniciado propositalmente, não sabemos por quem nem por que, o fato é que esse vírus nos transformará em monstros, ele deteriora parte do nosso cérebro e nos permanecerá vivos como seres retardados, animais.

Ainda estava tentando digerir, o mundo como eu conhecia iria acabar, como nos filmes pós-apocalípticos.

-De qualquer forma-disse ela se virando e caminhando, acompanhei-a- O que eu quero de você é que encontre a fonte do vírus, antes que ele se espalhe.

- O que? — perguntei atônita, não sabia nem como havia chego ali quanto mais encontrar a fonte de um vírus que destruirá a humanidade.

-Não se preocupe você não estará sozinha. Fique com isso — ela me entregou uma mochila preta e muito leve.

E então sumiu. A escuridão começou a clarear, deixando-me apenas com a luz da lua e com mais cinco pessoas ao redor que pareciam estar na mesma situação que a minha.