À Lua Cheia
1 Capítulo Único
Já sentiu seu coração apertar? Como se uma mão se fechasse dentro do seu peito e tirasse de ti a chama da esperança? Foi o que senti naquele momento. É claro que eu sei que não sentimos com o coração e sim com a cabeça; tenho também plena consciência de que a bomba da qual estamos falando, aquela pela qual passa sangue, não tem nada a ver com a decepção ou com qualquer tipo de coisa que se relacione intimamente com aquilo que chamamos, ou pelo menos com aquilo que eu chamo de amor.
Contudo, quando ela me lança aqueles seus olhares de pura represália, quando me olha como se eu não fosse alguém que valesse a pena um comentário e ainda quando ela não me olha de maneira nenhuma, mesmo que meus olhos não despreguem daquelas lindas covinhas na bochecha, é no meu coração que eu sinto a dor. Veja meu caro leitor, não lhe direi o nome dela, nem mesmo o meu, até por que eu não tenho certeza se o senhor existe e, não existindo, não haveria modo algum de conhecermo-nos qualquer dia desses, e minha mãe fez-me jurar não conferir meus problemas aos estranhos.
Não lhe conto, pois, a minha história, nem as minhas dores e muito menos lhe descreverei para o senhor, ou para a senhora, o que faz doer o âmago do meu próprio ser; não, contar-lhes-ei a noite de um outro homem, alguém que pode estar em qualquer um nesses tantos apartamentos acesos que povoam vossa cidade, peço piedade quando forem julgar este homem pelas suas atitudes... ele não passa de um homem. Acredito que todos sabemos que histórias de amor são longas, dolorosas e bastante decepcionadas, embora recheadas da mais pura arte humana: o amor; não te trarei hoje uma vida, nem mesmo uma história, trarei uma noite, um pequeno fragmento de um coração apertado.
Confesso que nunca fui de beber, de beber muito, e também não sou chegado em extravagancias ou exageros; acredito, na verdade, que a minha completa falta de animo decorra não de uma vida vivida em meio a um turbilhão de emoções e paixão, mas do próprio álcool que me corrói nesta exata noite de setembro, por sorte o etanol também afoga as magoas que me tiram a vontade de viver... não leve a sério nada do que vou dizer. Eu fui abandonado, largado, não que algum dia houvesse sido acolhido, mas a dura realidade do abandono nu e sem rodeios faz a alma uivar como um cão, e leitor... a lua está tão linda nesta noite...
Eu amo uma mulher, uma mulher bela como nenhuma outra e comum como as pedras soltas no asfalto. Ela não é a mais alta nem a mais baixa, ela não é extraordinariamente bonita e não chega perto de ser considerada feia, ela tem uma voz suave que me faz prender-me a cada sílaba, mesmo que outros machos como eu ouçam-na como quem ouve um rádio... distraídos e desinteressados. Ela tem um cabelo que várias pessoas considerariam ruivo, e outros tantos considerarias castanho, a verdade é que ela tem um cabelo só dela, tem nos olhos refletida a cor do mar e no sorriso o branco das nuvens, aquele sorriso cheio de dentes brancos, pequenos e recheado de imperfeições.
Ela não é nada de extraordinário mas para mim não existe garota igual; ela diz sempre que adoraria ter as pernas da amiga da esquerda e quem sabe as mãos da colega da direita, ela vive procurando a sua volta sobrancelhas que lhes caiam bem, e de fato eu me solidarizo com essa busca em particular... é difícil achar sobrancelhas que superem as que ela tem. Veja, eu a conheci uma vez, ela visitava o jardim zoológico e nosso encontro se deu no santuário dos artrópodes, na seção das aranhas. Eu juro, leitor, que enquanto ela admirava aqueles animais de oito patas com tamanha admiração eu me perguntava como uma criatura tão impressionante admirava um bicho tão repulsivo, mas guardei para mim mesmo a minha opinião.
Acredito que daquela vez, ela não tenha me notado, nem da segunda vez e muito menos na terceira, pois nos cruzamos rapidamente na saída de um café bastante movimentado no centro da cidade; meus olhos ansiosos passaram a perseguir aqueles pedações do oceano onde quer que eu fosse, era preciso desvenda-los. Nos encontramos várias vezes em parques, lojas, e na rua certa vez quando ela vinha com um saco de pães e eu ia com um saco de cenouras, trocávamos sorrisos, saudações, beliscões e pisadelas.
O senhor, ou a senhora, pode alegar que não existe algo como “amor à primeira vista” e que eu estaria sendo um tolo ao afirmar que a amava desde o momento que a vi, de fato, eu estaria, mas eu sei que a amo e nada posso fazer a respeito. O início da brasa pode ser discutido com facilidade e creio que seja este um debate bastante saudável e interessante, mas que arde em mim uma chama viva quando trocamos palavras, sorrisos e afagos, não há dúvida alguma e eu desafio qualquer um a convencer-me do contrário.
Ao longo de dias, que se tornaram semanas, fui desejando cada vez mais a presença dessa joia rara da natureza, as semanas tornaram-se meses e os meses, pouco a pouco tornavam-se anos. Não lhes direi como foi o nosso primeiro beijo, a nossa primeira conversa por mais de um minuto, não lhe descreverei as inúmeras noites que passamos conversando sobre as mais diversas coisas e muito menos lembrarei a vós, e a mim mesmo, as incontáveis vezes que discutimos, que dormimos juntos, que rimos juntos, que choramos juntos, que vivemos uma vida na qual tudo se resumia a nós mesmos; não, embora cada momento desses tenha sido singular para mim, eles interessam somente a mim e conta-los para o senhor seria nada mais do que uma experiência incrivelmente tediosa.
Prometi-lhe uma noite, e uma noite lhe darei. Esta noite se deu lugar, em meio a tantas noites na qual passamos juntos, no meu tímido e solitário quarto, em um hotel no centro da cidade, longe de todo mundo e principalmente dela. Veja, leitor que eu nunca a pedi em casamento, embora fossemos mais unidos que a maioria dos casais; eu não sei o que aconteceu, eu devo ter cometido algum erro, ou quem sabe vários deles. A verdade era que, embora a esperança ainda me mantenha de pé, como um paciente terminal o nosso amor parecia irremediavelmente doente e embora eu me esforçasse para cura-lo... lá ele permaneceu, deitado, apático.
Ela se foi, não, na verdade eu me fui, mas ela já havia ido embora a muito tempo. Não houve um adeus, não houve uma briga, não houveram lágrimas trocadas e nem mesmo comentários maldosos nas casas da cidade; dia após dia ela parecia mais distante, seu rosto já não me sorria aquele riso lindo que só ela tinha, suas covinhas nos cantos dos lábios já não mais iluminava o meu dia. Ela se foi, uma palavra a cada dia, eu não sei quando começou, e não sei se já terminou, não faço ideia se é apenas uma fase ou se a perco pouco a pouco cada dia mais.
Acredito que o pior da dor de se perder alguém que amamos é a impotência, é não saber o que fazer para salvar algo que nos tanto é caro, que nos tanto é precioso e que nos tanto faz falta. Não entender os enigmas que escondem aquelas janelas marítimas me rasgam como uma navalha, não saber, não fazer nada, não ter acesso ao que se passa dentro da cabeça de minha amada... leitor, o senhor não vai querer saber como é sentir isso, eu espero que não saiba. Nesta noite eu bebo em saúde a minha própria estupidez, e a minha solidão, esta velha amiga agora volta a me acompanhar.
A poesia tornou o mundo um lugar mais feliz, eu não me atreverei a me chamar de poeta, ou mesmo de escritor ou coisa parecida pois, se o fosse, eu escreveria de forma profissional, dotado de técnicas e artimanhas para convence-lo, leitor, de que a minha dor é a mais legitima e verdadeira como se poderia ser. Eu não tenho essa habilidade, o que lhe escrevo é a verdade do meu coração, ou quase isso; eu conheço a dor, eu conheço o amor, eu conheço a decepção e também conheço a solidão. Eu prometi-lhe uma noite, leitor e uma noite lhe foi dada; as noites que me restam são um vulto de incertezas, uma miragem no deserto, mas seriam com certeza noites melhores, por piores que sejam, se fossem passadas com ela.
Meu coração está apertado, e pela janela eu a observo. Ah meu caro... a lua está tão linda nesta noite...
Fale com o autor