À Gabriele, minha querida teriantropa

4 O trabalho que tinha tudo para dar errado


Depois do que ocorreu na aula de redação a dupla pesadelo foi suspensa durante um mês, o que de certa forma foi um alívio para mim. Mas eu ficava pensando como ficariam as coisas depois que elas voltassem e se elas armariam algo contra mim ou se teriam medo de tentar mais alguma coisa. Porém, comecei a acreditar na segunda opção, pois a turma inteira foi bastante hostil com elas depois que retornaram da direção, um momento totalmente glorioso para mim, admito, pois era a prova concreta de que minha fama de ladra foi temporária. É claro também que momentos de glória não são eternos, e tive que aturar piadas de alguns colegas que insistiam em dizer que se eu fosse participar de uma competição de boxe, não sobreviveria nem aos cinco segundos do primeiro round.


A causadora de tais piadinhas nem tinha coragem de me encarar e eu apostava que era de vergonha. Quando minha mãe chegou em casa do trabalho, naquele fatídico dia, eu já havia disfarçado minha marca com pó compacto, então até a roxo da pele clarear, ela não percebeu nada. Mas eu sabia que a marca estava ali. E eu lembro que naquela mesma noite, antes de ir dormir, eu me posicionei na frente do espelho do guarda-roupa e toquei a marca feita por Gabi Pulo do Gato. Este foi o apelido que ela ganhou no mesmo dia que me atacou. Gabi Pulo do Gato ou Gabi Cat Jump, variação criada pelos amantes da língua inglesa da classe. Eu me condenava por ficar revivendo o momento em que ela se jogou sobre mim, mas não tinha como ignorar. Qualquer pessoa pode pular sobre outra, mas Gabriele fez mais do que isso. Primeiro, ela flexionou as pernas. Depois se projeta para frente e por fim, se lança sobre mim. E aquela mania de apenas morder o meu pescoço, sem tapas, arranhões, puxões de cabelo?


Talvez foram os acontecimentos do dia que me deixaram agitada e sem sono. Silenciosamente, fui até a sala e liguei a televisão. Nada de interessante passava no primeiro canal que coloquei, então comecei a mudar de canal, apertando os botões do controle remoto várias vezes até parar em um canal que parecia estar exibindo algo de interessante. Tratava-se de um documentário sobre vida selvagem, mais precisamente nas savanas africanas. A cena que se passava era de uma leoa caçando. O grande felino espreitava uma zebra atrás de um matagal. Aproximava-se de sua presa silenciosamente, pé ante pé, até que, quando estava suficientemente próxima impulsionou as pratas traseiras, projetando-se para frente em um grande pulo. A zebra, percebendo a presença da rainha dos animais correu desesperadamente, mas de nada adiantou: a leoa pulou sobre ela mais uma vez, conseguindo cravar as garras em sua pele e, logo em seguida, os poderosos dentes no pescoço. Pulo, dentes cravados no pescoço e garras na pele. A mesma atitude animalesca de... Gabriele.


– Andressa, não fique até tarde assistindo televisão. – minha mãe falou do quarto dela.


Nas manhãs que se seguiram, Gabriele cumpria religiosamente o castigo que lhe fora dado na direção. Assim, na hora do intervalo, ela ia até a biblioteca e só a víamos novamente no quarto horário. Se já era uma menina quieta, passou a sê-lo ainda mais. Parecia realmente envergonhada pela atitude agressiva que tomara, mas, depois de tudo aquilo, comecei a flagrá-la me observando, de vez em quando, o que dava a impressão de que queria dirigir-me a palavra. Mesmo achando este um comportamento intrigante, tentei ignorá-la. Porém, em uma determinada manhã de quinta-feira, eu descobri que isto se tornaria impossível por um bom tempo.


O dia começava normalmente no colégio: os zeladores passavam de um lado para outro, permitindo-se se divertir e fazer brincadeiras com os estudantes com quem tinham mais intimidade, adolescentes riam e conversavam animadamente, alguns casais namoravam espalhados pelos pátios, um grupo de meninas lia um jornal na guarita, com o porteiro. Eu, por minha vez, estava sentada em um canto, revisando um assunto novo de português. A sirene tocou e num instante o pátio começava a se esvaziar, pois os alunos já se encaminhavam para suas salas de aula. Eu também fiz o mesmo. Entrei na minha sala na companhia de meus colegas que conversavam alto sobre jogos de futebol e planos para o fim de semana, alguns tão compenetrados em seus assuntos que ignoravam a presença da professora Ana que já se fazia presente, sentada à sua mesa, observando-nos com seu típico ar austero. Foi então que, enquanto nos acomodávamos em nossas cadeiras, percebemos um texto imenso escrito no quadro branco, intitulado: Trabalho de Português. Valor: 2,0. Não é preciso dizer que os resmungos começaram, não é?


– Anh, professora? O que é isso? – reclamou um garoto.


– Ah, professora! A senhora poderia ser apenas professora de redação. Aí talvez a gente não precisasse encarar isso... E vai valer tão pouco... – choramingou outra garota.


– Professora, se eu fizer um trabalho deste tamanho, vou ficar doente... – dramatizou um.


A professora Ana sorriu de canto de boca, soltou os longos cabelos castanho-claros, sacudiu as madeixas e voltou a prendê-las, respondendo ao menino:


– Então acho bom que você procure um serviço funerário, porque se vai adoecer fazendo o primeiro trabalho, antes do fim do ano já terá acontecido o pior...


Todos riram da ironia. Ao perceber que os ânimos de todos já estavam mais calmos, ela levantou-se e começou a falar:


– Então, meninos e meninas, como podem ver, temos o nosso primeiro trabalho da unidade. Sei que parece ser grande, mas acreditem, na prática verão que é bem menos trabalhoso do que na teoria. Anotem tudo o que está escrito no quadro, vão precisar de todas estas informações... – ela apontou para o quadro, fez uma pausa, bebeu um pouco do copo com água que estava sobre sua mesa e continuou: — Bom, como vocês já perceberam, nós estamos estudando movimentos literários... Alguém lembra qual movimento estamos trabalhando agora?


A minha colega loirinha e escandalosa, a mesma que apontou para a minha mochila e gritou ao ouvir o toque do celular de Gabriele no dia daquela horrível aula de redação, levantou a mão para responder com sua voz fininha:


– Romantismo.


– Exatamente. Ele será o tema do nosso trabalho. Então, quero que vocês façam uma pesquisa sobre o romantismo e montem uma revista. Deve ter, pelo menos, quinze páginas. Mas eu quero tudo o que tem numa revista de verdade: carta ao leitor, sumário, capa, contracapa...


Meu colega que, minutos atrás disse que ficaria doente se fizesse aquele trabalho, fez beicinho e disse:


– A senhora está sendo muito má conosco...
A professora também fez beicinho e devolveu:


– Eu só estou interessada no aprendizado de vocês...


Do fundo da sala, uma voz masculina gritou:


– Obrigado por existir, Google!


Todos riram, mas Ana retrucou mais uma vez:


– Eu saberei se for cópia e cola.


Houve um sussurro:


– Por você, eu faço mais de dez revistas...


– Eu fico muito lisonjeada com o seu cavalheirismo Anderson, mas se continuar a brincar serei obrigada a pedir que você faça essas suas revistas lá na diretoria...


Anderson, o autor da piada, ficou totalmente desajeitado perante a turma. A professora ajeitou os óculos de armação vermelha no rosto e prosseguiu:


– Serei boazinha com vocês e deixarei que façam o trabalho em dupla. Podem escolher os seus parceiros. Depois, quero uma lista com os nomes das duplas, tudo bem?


Assim que a palavra dupla foi mencionada, todos começaram a apertar as mãos e a lançar olhares de cumplicidade para seus melhores amigos de sala. No final das contas todos já tinham seus pares, menos eu. Portanto, fui conversar com Ana:


– Professora, não sobrou ninguém para fazer o trabalho comigo. Posso fazer sozinha?


– Sério? Um minuto, deixe-me ver se não tem ninguém sobrando mesmo. – e aumentando a voz, falou: — Alguém aí está sem parceiro para o trabalho?


Uma mão tímida ergueu-se vagarosamente no meio da sala. Era Gabriele. A professora olhou para mim e depois para frente, apertando os olhos. Pela primeira vez, tive a oportunidade de notar que, ainda que por frações de minutos, ela se sentiu perdida, sem ação, diante uma situação na classe.


– Bom... – ela finalmente murmurou – Talvez seja uma excelente oportunidade de vocês duas se entenderem.


– Mas professora...


– Nada de “mas”. Eu não deixar você fazer o trabalho sozinha... Em um caso como este. – olhou novamente para os outros alunos e solicitou: — Pessoal, comecem a passar uma lista com o nome das duplas.


Voltei para meu lugar frustrada e indignada. A professora está louca! Como ela poder permitir que eu trabalhe com uma louca que me agrediu em uma aula dela? O mundo está mesmo perdido!


– Andressa – ouvi alguém me chamar. Olhei para trás e vi Gabriele me olhando com uma caneta e uma folha de papel em mãos – Você vai fazer o trabalho comigo?


Fiz a minha famosa cara de “tem outro jeito?” e sacudi a cabeça afirmativamente. Naquele momento, a única coisa que conseguia pensar era na minha falta de sorte e que o resultado deste trabalho seria um desastre. Pessimismo? Não, não é, e eu explico por quê: todo mundo concorda que, para que uma atividade tenha um excelente resultado, todas as partes envolvidas devem trabalhar em perfeita harmonia, ou pelo menos, em perfeita tolerância. E eu não estava disposta a ser cordial com Gabriele, chegando a ter certeza que isso era recíproco. Mas, na manhã seguinte, logo cedinho, eu percebi que ela estava querendo mesmo uma trégua. Lembro que eu estava passando pelo saguão de entrada do prédio, quando ouvi uma voz dizendo:


– Ei! Quando vamos conversar sobre o trabalho?


Ao me virar para trás, vi Gabriele parada, em seu uniforme escolar. Virei para frente, rolando os olhos e continuei o meu percurso. O que havia dado nela naquela manhã? Sempre saía de casa mais tarde!


– Você não pode me ignorar para sempre. – esta sentença eu escutei quando já havia passado pelo portão. A garota desceu as escadas que davam para a rua, e parou na minha frente, como se estivesse esperando por uma resposta.


– Olha... – eu comecei, fechando o portão do prédio – Você me ofende, me dá uma surra na sala de aula, e agora me diz que eu não posso te ignorar para sempre? Qual é a sua?


A menina abaixou a cabeça lentamente e num fio de voz, falou:


– Só achei que poderíamos dar uma trégua, para fazer o trabalho dar certo...


Bem, este parecia ser um bom motivo.


– Certo. – respondi, mas de má vontade – Você tem alguma ideia?


– Bom... – ela disse, prolongando a letra “o”, e mexendo o nariz como se estivesse farejando – Tem uns livros interessantes na biblioteca...


– Livros? – eu indaguei, franzindo a testa – Porque não tirar da internet?


– Não estou falando em não usar a Internet. Só que a professora Ana é bem exigente e acho que podemos entregar uma pesquisa mais completa se usarmos outras fontes.


– Tudo bem. E o que vamos fazer?


– Eu posso pegar alguns livros da biblioteca hoje...


– Tudo bem, então. Depois do intervalo, quando voltar para sala, me entregue alguns, e eu vou começar a pesquisa.


Ela balançou a cabeça afirmativamente e, virando-se, começou o percurso até o ponto de ônibus. Eu caminhava atrás dela, mantendo certa distância, não deixando de reparar que a minha vizinha possuía um jeito de andar charmoso e muito silencioso. Um andar de gato. Pegamos o mesmo ônibus, mas não trocamos uma palavra o percurso inteiro. Sequer sentamos juntas.


Naquela manhã, após o intervalo, a garota voltou com seis livros de português nas mãos e me deu três deles.


– Você já pensou qual nome dar ao nosso jornal? – ela perguntou e eu balancei a cabeça negativamente. Na falta de uma resposta e ao perceber que não teria chance para prolongar a conversa, retirou-se e foi sentar-se em sua cadeira. Eu suspirei e abri o livro, procurei movimentos literários no sumário e comecei a anotar algumas coisas no caderno.


No início da outra manhã, quando eu esperava o ônibus para a escola, Gabriele se aproximou de mim novamente e informou:


– Já tenho um nome para nosso jornal: O Informativo Romântico. O que você acha?
É claro que eu achei um lixo, todavia, não queria papo com aquela criatura e fiz que sim com a cabeça, com uma perfeita expressão de descaso. Porém, ao ver Gabriele me dar as costas, uma voz lá no fundo acusou: Por favor, Andressa! Por mais difícil que pareça, seja razoável, para o seu próprio bem. Este trabalho não vai dar nota para ela, apenas, sabia?


– Ei, Gabriele?


A garota virou-se para me encarar e eu pude ver a surpresa em sua face.


– Como vamos dividir as coisas? Quer dizer, o que cada uma fará?


– Eu gosto de escrever. – ela falou e eu pude sentir que ela mal continha a animação em sua voz. – Posso escrever a carta ao leitor e você pode elaborar a capa. O que acha?


– Legal.


E assim se deu. Durante a tarde, eu elaborei a capa e mostrei à Gabriele no dia seguinte. Ela também havia feito a carta ao leitor, que admiti, contra a minha vontade, estar muito boa. E os dias foram passando, as manchas no meu pescoço desaparecendo e a data de entrega do trabalho se aproximando. A revista até que estava ficando boa, e bem completa. Então, enfim, chega o dia da entrega. O dia em que eu poderia voltar a romper todo e qualquer tipo de comunicação com Gabriele e voltar a viver normalmente. Que engano! O que aconteceu naquela manhã mudou completamente a minha relação com Gabi.


Na véspera de entrega, a revista ficou em minha posse, já que teria que finalizar a contra capa. Pela manhã, saí no horário novo que adotei, justamente para evitar a companhia indesejada da Senhorita Cat Jump, ou Pulo do Gato, como preferir. Na lanchonete perto de onde estudava, comprei um copo de suco de maracujá, e fui direto para a escola. No refeitório, coloquei o trabalho sobre a mesa e fiquei folheando as páginas do mesmo. Não demorou muito para a minha vizinha chegar. Desejou-me um bom dia, o qual eu respondi com um murmúrio. Em seguida, ela me pede para ver como ficou a contra capa. Acontece que, nesse momento, eu havia pousado o copo de suco sobre a mesa e, ao mexer o braço para entregar a revista à minha colega bati, sem querer, a mão no copo que virou-se. Nós duas assistimos o líquido amarelo do suco molhar a tarefa que tanto nos dedicamos a fazer.


– Droga! — praguejei bem alto, me sentindo culpada.


Gabriele permaneceu imóvel. Mais que depressa, peguei minha mochila e saí correndo em busca de uma zeladora, na tentativa de conseguir um pano de chão para limpar a mesa. Voltei tão depressa quanto havia saído com um pano nas mãos, e comecei a limpar a mesa.


– Não dá para salvar o trabalho. — ela observou, examinando a revista enquanto a segurava pela ponta.


Eu não disse nada. Nem me desculpei. Terminei de enxugar a mesa e levei o pano para a zeladora novamente. Não voltei para falar com Gabriele. Estava com muita raiva de mim mesma. E tensa também, já que sabia que teria que prestar contas com a austera professora Ana. Portanto, não ria de mim ao saber que eu quase fiz xixi nas calças quando escutei o sinal tocar.


Naquele dia a classe estava bastante eufórica. Era um tal de uma dupla mostrar o trabalho de Português para a outra que chegava a me constranger. Sei que fui muito grossa ao ignorar um colega que me perguntou como havia ficado meu trabalho. Sentei-me na minha carteira. Gabriele chegou minutos depois. Passou por mim, calada e cabisbaixa, e foi se sentar. Então, Ana chegou, nos cumprimentando e assumindo seu lugar à mesa dos professores. Senti um frio muito desconfortável na barriga.


– Então, pessoal? Vamos entregar os trabalhos? Podem colocá-los em cima da minha mesa.


Aos poucos, as duplas levantaram-se e depositaram seus trabalhos no lugar indicado pela docente. Eu e Gabriele nos entreolhamos. Seria correto ambas explicar o ocorrido à professora, mas eu já havia decidido: a garota não tinha feito nada de errado. Eu era a única responsável e, por tanto, assumiria meu erro sozinha. E tentaria convencer Ana a dar uma chance à Gabriele. Mordendo o lábio inferior de nervoso, dirigi-me até a mesa da jovem mestra.


– Professora... — murmurei perto dela.


– Sim? — ela respondeu.


– Preciso falar com a senhora... É que aconteceu uma coisa com o trabalho...


– O que, Andressa? — perguntou ela, entrelaçando os dedos sob o queixo e me olhando com cara de tédio. Aquela cara que os professores costumam fazer quando estão prestes a escutar uma desculpa esfarrapada de seus alunos.


– Não foi por mal, professora. — falou uma voz atrás de mim. Era Gabriele.


– Qual das duas vai me explicar o que aconteceu com o trabalho? — quis saber Ana, impaciente.


Antes que eu pudesse falar, Gabriele prosseguiu:


– Foi um descuido meu, professora. Acabei derramando o suco na nossa revista. — justificou ela, mostrando a revista estragada, cheirando a maracujá.


De repente, tudo pareceu irreal. Era isso mesmo o que eu estava escutando? Gabriele estava assumindo a culpa do acidente que causei?


– Esta é a prova de que fizemos o trabalho. — disse a menina, ainda com a revista em mãos — Eu sinto muito pelo que aconteceu.


Eu olhei para ela de testa franzida e naquele momento percebi que, se seus olhos pudessem falar, eles me diriam: — Cala a boca!


Ana suspirou.


– Bom, se o caso foi esse... Mas saiba que um descuido desses poderia prejudicar sua colega. Lembre-se: quando se trabalha com uma pessoa ou mais, a responsabilidade é de todos, certo? — ela viu Gabriele sacudir a cabeça afirmativamente, veementemente. — Ótimo. Eu vou dar uma oportunidade para as duas, ok? Devem entregar a revista até o fim dessa semana. Não prolongarei o prazo e nem valerá a mesma nota. Agora podem se sentar. Vamos iniciar nossa aula.


Obedecendo a professora, voltamos aos nossos lugares. Ana começou a dar sua aula animadamente, mas eu não estava prestando muita atenção. A perguntava que martelava na minha cabeça como um alarme irritante era: Por que Gabriele assumiu a culpa pelo meu desastre? Eu tive que esperar até a hora da saída para ter a minha resposta, já que a menina ainda não havia saído de seu castigo na biblioteca. Então, quando o sinal que anunciava o fim das aulas tocou, ela saiu tão rapidamente da sala que nem deu para pronunciar a primeira sílaba do seu nome, o que me fez correr atrás dela. Alcançá-la não foi fácil no meio daquela multidão embolada de alunos, todos loucos para ir para casa ou fazer alguma atividade de interesse próprio depois da aula. Eu só consegui me aproximar de Gabi no caminho para o ponto de ônibus. Cheguei perto dela tão esbaforida que a assustei. Mas ela continuou seu caminho como se eu não estivesse por perto. Porém, eu precisava lhe falar, saber o porquê de ela ter assumido a culpa no meu lugar e, quem sabe, pedir desculpas por ter sido covarde o suficiente para não dizer a professora quem foi a verdadeira culpada do acidente.


– Olha... — comecei em tom alto o bastante para que ela me escutasse — Você não precisava fazer aquilo.


Ela parou, olhou para trás, e antes de retomar a sua caminhada respondeu:


– Eu sei que não.


– Então, por que fez?


Ela deu de ombros, sem se voltar para trás novamente.


– Talvez uma forma de me redimir com você.


Corri um pouco para conseguir ficar do lado dela.


– Não precisava chegar a esse ponto, não é?


De cabeça baixa, Gabriele soltou um riso nasalado, e depois olhou para mim, dizendo:


– Olha, Andressa, eu não estou nem um pouco a fim de ser sua inimiga. E se quer realmente saber, eu me envergonho de ter te agredido daquele jeito.


Eu toquei meu pescoço instintivamente e informei:


– Tudo bem. As marcas já saíram mesmo.


Alguns minutos de silêncio se seguiram antes de ela soltar uma surpreedente afirmação:


– Você é tão antissocial.


Arregalei os olhos de surpresa pela naturalidade dela.


– Antissocial? Rá! Você nunca tentou fazer amizade comigo!


– Eu bem que queria sorrir para você quando nos encontramos da primeira vez no prédio. Mas você me olhou de um jeito tão frio...


Fiquei sem graça. Então, aquela briga com olhares enquanto nossas mães conversavam na minha primeira semana como moradora do edifício era algo exclusivamente da minha cabeça oca? Talvez essa minha mania de não fazer amigos tenha me deixado um pouco rude mesmo.


Assim que pisamos no ponto, o ônibus passou. Enquanto passava pela catraca sussurrei para Gabriele:


– Se quiser tentar de novo... Estou mais receptiva hoje.


Ela entendeu a mensagem e sentou-se ao meu lado. Primeiro ficamos quietas; eu olhava a rua pela janela e ela mantinha seus olhos fixos à sua frente. Depois, ela começou a puxar papo comigo.


– Gosta de azul? — perguntou ela, apontando para minha mochila.


– Gosto. — confirmei — De que cor você gosta?


– De todas. — ela respondeu animadamente.


Um pouco incerta sobre como continuar a conversa, perguntei:


– O que gosta de ouvir?


– Rock. — falou ela, enquanto puxava um chiclete de sua mochila. Ofereceu-me um, mas eu recusei, educadamente — E você?


– De tudo um pouco. Menos algumas bandas de forró, arrocha, funk e pagode.


Gabriele riu.


– Então você não gosta de escutar de tudo um pouco.


Eu ri também, assentindo com a cabeça.


– Qual seu filme preferido? — pergunto mais uma vez, me sentindo mais a vontade.


– A Lagoa Azul.


Eu fiz cara de nojo.


– Sério?!


Ela gargalhou com vontade.


– Brincadeira. Gosto de filmes de ação. Os de 007 são os meus preferidos. E você?


– Não tenho um filme preferido. Gosto de ação, suspense e terror.


– Você gosta de filmes de terror? — indagou Gabi, os olhos brilhando.


– Gosto. — respondi, com um olhar cúmplice.


– Que legal! já assistiu Sobrenatural, capítulo 2?


– Claro! E Jogos Mortais? Já assistiu todos?


– Sim. Vem cá... Você gosta de ler?


– Um pouquinho. Mas você tem cara de que gosta de ler bastante.


– Acertou!


E nós seguimos aquela volta para casa conversando animadamente. E conversamos no outro dia, e no outro, e no outro... Bem, talvez você ache difícil de acreditar, mas eu e Gabi ficamos amigas depois daquele dia. Você pode dizer que o modo como iniciamos a nossa amizade é um pouco estranho, mas sabe? Dizem que as amizades que se iniciam dos jeitos mais estranhos costumam ser as melhores.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.