À Espera De Você...
12 Dois pais
Notas iniciais
– Você lembra quais são as regras?
– Claro! Não fazer bagunça, tomar cuidado com os aparelhos e não apertar muito ele para não machucá-lo. Eu sei mamãe, eu vou ser cuidadoso. Podemos vê-lo agora? – Pediu Miguel ansioso na entrada do quarto. Fatinha sorriu para o menino e lhe deu a mão, adentrando no lugar.
– OI! – Disse entusiasmado para o homem sobre a cama. Nenhuma reação, mas nada que abalasse a alegria do menino em ver o pai – Tenho tanto pra te contar, pai! Meu dia foi legal pra caramba, meu time de futebol venceu, a mamãe me deu bronca porque eu não quis comer os legumes, o tio Fera vai me levar para o parque nesse fim de semana... Ah, você tinha que vir com a gente!
– Filho... – Interviu a mãe do garoto, emocionada. Ela já tinha presenciado a mesma situação inúmeras vezes, mas ainda assim não conseguia controlar-se.
– Eu sei, ele não pode. Mas se pudesse, garanto como eu ia dar uma surra nele no futebol. Eu sou o melhor do time, eu falei. Eu e o papai somos imbatíveis juntos!
– Posso até imaginar vocês dois soados e fedidos correndo pela sala lá de casa.
– E você ia fazer aquela macarronada que a gente adora, né? Você bem que podia fazer esse fim de semana aí o tio Fera almoçava com a gente. E a Lia também!
– Eu o quê?
Mãe e filho se viraram para a porta onde Lia estava parada, um pouco incerta se podia participar daquele momento. Ela os observava há alguns minutos e ela nunca poderia imaginar que Fatinha se encaixaria tão bem numa cena familiar. Miguel parecia amar muitos os pais, ambos.
– Lia? Seu voo não saia hoje de manhã?
– É, mas eu resolvi ficar – A Marrenta se aproximou dos dois e olhou diretamente para Dinho. Ele ainda parecia dormir – Eu tenho muito o que acertar antes de voltar para Londres.
– Fico feliz em saber.
– Espero que não se importe, eu... Eu quis visitar ele.
– Oi, Lia! – Cumprimentou Miguel abraçando a loira. Ele era tão carinhoso quanto Adriano, e estranhamente sorria da mesma forma que ele. Era estranho, perturbador... e maravilhoso – Eu tava falando para mamãe que a gente podia almoçar junto. Topa?
– Eu... – Lia buscou apoio em Fatinha. Para ela ainda era muito novo a situação que vivia. De certa forma, eles eram estranhos para ela. Sete anos muda muito as pessoas.
– Eu acho que seria muito bom. Se minha comida não for do seu agrado, prometo fazer um dos seus sanduiches estranhos – Fatinha piscou para a marrenta.
– Que sanduiches?
– Ah, é igual aos que o papai faz? – Indagou Miguel.
– UHUM!
– Arg! Foi mal Lia, mas só o papai come aquelas coisas... E o engraçado é que eu acho que ele nem gosta – Disse o menino pensativo. Fatinha riu da confusão do garoto.
– X –
– Você é burro ou o quê? Ameaçar a Fatinha não vai nos ajudar em nada, Bruno!
– Eu não a ameacei! – Negou o moreno prontamente.
– Não, só deixou bem claro que vai acionar ela judicialmente pelo menino! Siga o conselho de uma pessoa que tem experiência nesse assunto: atacar a outra parte não é a saída, pelo contrario. Isso pode dificultar ainda mais os seus planos.
– Eu... Eu estava com raiva, tá bem? Ela deu meu filho para outro criar, como queria que eu reagisse?! É o meu filho!
– E é dela também! E do Dinho, não se esqueça. Não é questão de quem tá certo ou errado, e sim de conseguirmos fazer um acordo. Ou você quer brigar e passar ainda mais tempo longe do menino?
– Não... Você tem razão, Rasta. Eu vacilei.
Rasta se recostou na cadeira onde estava sentado. Bruno estava péssimo, ele podia ver, mas ainda era o grande cabeça dura de sempre incapaz de reconhecer que ele era o grande responsável por tudo aquilo. Como amigo e advogado, Rasta não podia lhe jogar na cara, mas ele bem que gostaria de apontar para o outro que o erro começou nele quando ele deu as costas a Fatinha grávida e esqueceu o que sentia.
– A advogada dela me ligou – Ele deu sinal para o garçom pedindo a conta.
– Já?
– Sim, e meu amigo eu tenho que dizer que se você quiser mesmo prosseguir com isso se prepare para aborrecimentos. A mulher é um terror, a melhor do estado em assuntos da vara de família. Luana... Eu me informei com alguns amigos e fui informado de que ela raramente perde um caso.
– Valeu, Rasta... To bem mais animado agora.
– Paciência, Bruno... É só o que eu tenho a dizer.
– X –
– Aonde você tá?
– Num hotel, mas é temporário. Vou procurar um lugar para ficar, um trabalho... Não sei quanto tempo essa minha aventura vai durar.
– Por que não fica aqui em casa? – Falou Fatinha ao entregar mais um prato para Lia enxugar.
Ela, a marrenta e Miguel tinham voltado a pouco do hospital. O menino insistiu para que Lia os acompanhasse e Fatinha apoiou a ideia. Os três fizeram um almoço leve e enquanto elas lavavam a louça o garoto brincava de vídeo game no quarto.
– Aqui?
– É, por que não? – Perguntou Fatinha como se fosse tudo muito simples – Tem espaço, você economiza uma grana, fica perto de quem conhece... Pelo seu figurino, deu pra notar que ‘Cê’ anda dura.
– Falou a pessoa que até outro dia usava retalhos para cobrir o corpo.
– Para você ver, enquanto uns evoluem outros permanecem parados no tempo. Não sei ‘qualé’ teu problema, mas sei lá... Esse visual de adolescente revoltada só é legal quando se ainda é adolescente, né?
– Olha aqui, Maria de Fátima, eu não vou deixar você falar assim comigo não! – Exasperou-se Lia.
– E você vai fazer o que, Marrenta? – Fatinha balançou a cabeça e riu. Lia ainda perdia a calma muito fácil – Tá, parei. Mas só se você aceitar vir para cá. Eu não quero ter que ir te visitar em qualquer buraco, não seria seguro nem para mim nem pro Miguel.
– Eu não quero caridade.
– Não é caridade, poxa! Se te faz sentir melhor, te deixo compensar trabalhando de babá do Miguel para quando eu quiser ‘causar’ por aí.
Lia se recostou no balcão da cozinha.
– ‘Causar’? Pensei que tivesse deixado isso no passado.
– Bem, talvez... A verdade é que nem lembro mais o que é isso. Parece que tudo o que vivi foi em outra vida, entende?
– Sim – Lia sentia-se da mesma forma.
– Mas como nem tudo é perfeito... O Bruno apareceu hoje. Ele quer ter acesso ao Miguel.
– E?
– E o quê? – Perguntou Fatinha na defensiva – Muito fácil ele aparecer agora, né? E ainda por cima ter a coragem de me exigir direitos. Ah... Faça-me o favor!
Fatinha ainda lembrava-se de como Bruno era no passado, e pode comprovar que ele não havia mudado nada. Ainda a considerava nada e pensava que podia mandar nela. Nada de desculpas ou perdão, apenas acusações... Bruno ainda era um completo babaca.
– Ele deve tá confuso – Lia tentou ajudar o homem que era como um irmão – Ele não fez por mal, você o conhece... Ele é muito autoritário.
– Ele que pegue a autoridade dele e meta naquele canto onde o sol não bate! – Irritou-se a loira – Ele ainda é um grande babaca. Tanto que me julgou por ter casado com o Dinho, mas não teve a decência de pedir desculpas por não ter acreditado em mim. O Bruno é um egoísta filho daquela jararaca da marta e não difere muito da mãe... Se ao menos ele fizesse ideia do que eu passei, mas não. Ele só pensa no que ele quer, quando ele quer. E agora quer o Miguel, como se fosse muito fácil... Ele que vá pro inferno!
– Mãe? – Lia e Fatinha se espantaram com a aparição do menino que chegou sem fazer barulho – O meu pai quer me ver?
– X –
– Já vai! – Gritou Bruno saindo do banheiro e indo atender a porta.
Ele tinha voltado do restaurante depois do almoço nada apetitoso com Rasta e resolveu tomar um banho. Após ouvir o amigo, ele tinha decidido que iria pedir desculpas para Fatinha. Afinal, ele era o errado, e agiu como um canalha com ela. Não era justo que ele a pressionasse da forma como fez mais cedo.
“Fatinha...” Ele pensou na mulher que ela se tornou. Linda, forte e determinada, tão apaixonante quando a adolescente que ele conheceu. Mas ele não deveria pensar nisso, era o menino que importava agora, ainda que se corpo não concordasse com isso.
– Pronto! – Falou ao abrir a porta.
Fera olhou impassível para bruno vestido com um roupão.
– O que você quer? – Perguntou o moreno ríspido. Fera riu irônico.
– Nada que vá tomar muito do meu e do seu tempo... eu falei com a fatinha e ela aceitou que você veja o filho dela. Desde que... Ele aceite é claro.
– E você é o que dela? Garoto de recados por acaso?
– Não... Somente o namorado dela.
– X –
– Hey, podemos conversar?
– Claro! – Fatinha foi ate a cama do filho e sentou-se ao lado dele – É sobre o meu pai?
– É... Sobre um deles. Você lembra-se da conversa que eu e o pai Dinho tivemos com você, um tempo atrás quando você perguntou por que a gente não dormia no mesmo quarto, nem agia como os pais dos seus amiguinhos?
– Lembro... Você disse que era porque vocês eram como irmãos. Que o papai casau com você por mim, pra cuidar da gente. Mas que meu pai de verdade era outro, Bruno né?
– É... Como eu falei, ele morava em outro país e não tinha como te ver. Mas agora ele tá aqui no Brasil e quer conhecer você. Miguel... Você quer encontrar o Bruno?
O menino pensou por alguns segundos deixando a mãe apreensiva. Miguel era muito inteligente e muito maduro para a idade, mas era só uma criança e como qualquer garoto poderia criar expectativas. E se Bruno não estivesse preparado para ter um filho? E se ela não estivesse preparada para estar novamente ligada a ele? A distancia foi sua amiga durante os anos, mas com ele tão perto... Fatinha tinha medo de sentir o que ela já havia deixado para trás há muito tempo.
– Você vai ficar triste se eu disser que sim?
– Não, meu amor. Isso não tem nada a ver comigo... Se você quiser conhecê-lo eu te apoio totalmente. Eu só quero o melhor para você.
– Então... – O menino hesitou um pouco, mas decidido segurou a mão da mãe – Eu quero sim.
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